A nova geografia econômica

do valor econômico

Por Jorge Arbache

“Alguma coisa está fora da ordem. Fora da nova ordem mundial” Fora de ordem, Caetano Veloso

Há algo de novo no ar. De um lado, a China já é um dos países que mais depositam patentes e a Huawei, empresa chinesa de equipamentos de telecomunicações, recebeu o Prêmio de Inovação da “The Economist” de 2010. De outro lado, parte da indústria manufatureira americana instalada em países emergentes está retornando para casa valendo-se de custos e condições favoráveis de produção. De fato, alguma coisa está fora da ordem e ela está associada à nova geografia da inovação e da produção.

A presença da China em inovação só faz aumentar. Em 2004, havia 107 centros independentes de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de multinacionais na China. Em 2010 eles já somavam mais de 1.100. Os chineses têm feito conquistas notáveis em áreas tais como tecnologia espacial, supercomputadores e nanotecnologia. Com avanço tecnológico, as exportações chinesas estão se movendo na cadeia de valor e já competem com os países desenvolvidos – as exportações de bens de capitais deverão ultrapassar as da Alemanha neste ano e já deixou a japonesa para trás.

O Brasil pode e deve participar ativamente desse novo mapa da inovação e da produção. Tem oportunidades talvez únicas para o desenvolvimento tecnológico e industrial em áreas como petróleo e gás, agronegócios, tecnologias verdes, saúde e aeronáutica.

Depois de décadas de desinteresse, os EUA voltaram as atenções à indústria manufatureira e o setor já é um dos principais responsáveis pelo crescimento da economia e do emprego naquele país. Apoiados, inicialmente, por políticas industriais e monetárias e, posteriormente, por novas tecnologias e pelo aumento dos custos do trabalho na China, as exportações industriais americanas vêm aumentando e seus efeitos já se fazem sentir até mesmo por aqui: o saldo comercial bilateral de manufaturados passou de historicamente positivo para o Brasil para fortemente negativo. Embora os custos do trabalho nos EUA sejam muito mais elevados que em países emergentes, o uso de sofisticadas tecnologias, inovações e elevada produtividade mais que compensam o diferencial de custos.

Uma outra novidade no mapa da produção é a entrada da Índia e outros países asiáticos de baixo custo do trabalho na manufatura de massa encorajados pelo crescimento dos mercados domésticos, aumento dos custos na China e pela busca por diversificação geográfica da produção.

A nova geografia da inovação e da produção redesenhará a economia mundial e as consequências serão profundas. De imediato, apontam para um aumento da competição nos mercados de manufaturas de alto valor agregado e nos de manufaturas de produção em massa. No médio prazo, haverá mudanças significativas nas cadeias globais de produção, nas redes mundiais de inovação, no comércio internacional, fluxos de capitais e na geração de emprego e renda.

Esse complexo processo de transformação da geografia econômica aumentará a pressão sobre os países com elevados custos de produção, baixa produtividade, ambientes de negócios desfavoráveis e com limitada capacidade de inovar.

 

O Brasil pode e deve ambicionar participar ativamente da nova geografia econômica. Isto porque o país tem oportunidades, talvez únicas, para o desenvolvimento tecnológico e industrial através da economia do conhecimento e da inovação dos recursos naturais. Áreas como petróleo e gás, agronegócios, biodiversidade, tecnologias verdes, saúde, dentre outras, são grandes fronteiras para o nosso desenvolvimento. A exploração do pré-sal, por exemplo, é uma grande oportunidade de investimentos, avanço tecnológico e adensamento e dinamização de cadeias produtivas. Estima-se que serão investidos US$ 354 bilhões no setor entre 2012 e 2015, o que representa 59% das perspectivas de investimentos no período, e laboratórios de P&D de grandes multinacionais estão se instalando no país para participarem dos desafios do pré-sal.

Mas o verdadeiro ouro negro que poderá emergir do pré-sal não é o petróleo, mas sim as soluções para os desafios científicos e tecnológicos, logísticos e de equipamentos e materiais requeridos pela cadeia produtiva do setor. Se absorvidos pelas universidades, centros de pesquisa e pela indústria nacional, o conhecimento e as competências ali desenvolvidos poderão ter profundos efeitos em vários outros setores industriais, com impactos econômicos e sociais substanciais.

Nosso maior desafio será gerir de forma e ritmo adequados essas oportunidades em favor do crescimento econômico sustentado. Essa é a nossa oportunidade para fazermos parte da nova geografia da inovação e da produção. Para isso, serão necessários grandes esforços de inteligência e coordenação de políticas, políticas de fomento à transferência de tecnologias e de capacitação das universidades, centros de pesquisa e da indústria nacional para que tenham participação ativa no pré-sal, e políticas que fomentem o transbordamento dos avanços tecnológicos, industriais e de serviços para outros setores. Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Talvez devamos levar essa previsão a sério.

Jorge Arbache é assessor da presidência do BNDES e professor de economia da Universidade de Brasília. Email: jarbache@gmail.com

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