Repressão, controle da economia e apoio internacional sustentaram Mubarak, avaliam historiadores

opera mundi

08/02/2011 – 08:30 | Daniella Cambaúva | Redação

 Entre imagens impactantes que mostram milhares de egípcios protestando para exigir a saída do presidente Hosni Mubarak, surge a dúvida: o que explica sua permanência no poder por 30 anos? Um forte aparato de repressão, controle das principais fontes de renda da população e consentimento da comunidade internacional foram os principais pilares de sua ditadura, explicaram especialistas consultados pelo Opera Mundi.

Militar de aeronáutica, Mubarak se tornou presidente do Egito em 14 de outubro de 1981, seis dias após Anwar Al Sadat (1970-1981) ser assassinado. Mubarak havia se tornado vice-presidente seis anos antes.

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O vice Mubarak, ao lado de Sadat, assassinado no Cairo, após ficar no poder por 11 anos

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O egípcio Mohamed Habib, vice-presidente do Icarabe (Instituto da Cultura Árabe) graduado pela Universidade de Alexandria, Egito, e doutor pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), conta que a transição de governo foi tranquila. “Houve alguma resistência de intelectuais, mas as pessoas tinham emprego, condições razoáveis, então não se queixavam”, lembrou o professor, que viveu 31 anos no Egito e está há 39 no Brasil.

Quando Mubarak assumiu a presidência, a primeira medida adotada foi decretar estado de emergência, disse o historiador Pedro Paulo Funari, professor do Departamento de História e Coordenador do Centro de Estudos Avançados da Unicamp. “Num primeiro momento, foi justificado pelo assassinato do Sadat, mas depois, os partidos políticos começaram a ser proibidos”.

O assassinato do então presidente, durante uma parada militar no Cairo, foi atribuído a militantes islâmicos extremistas, insatisfeitos com a aproximação com Israel. Em 1977, o Egito foi o primeiro país árabe a reconhecer o Estado judeu. Em 1978, por conta de acordo de paz, Sadat ganhou o Nobel da Paz, porém, foi expulso da Liga Árabe.

“Mubarak conseguiu se manter por 30 anos no poder por meio da repressão, que não foi introduzida por ele. O Egito não tem um histórico de regimes democráticos”, ressaltou o historiador. Os governos anteriores, tanto o de Sadat como o de Gamal Abdel Nasser (1954-1970), ambos militares, não foram democráticos, embora tenham adotado políticas econômicas distintas e diferentes posturas diante de conflitos internacionais.

“Ele governou 30 anos sob estado de emergência, um instrumento para viabilizar a permanência dele no poder. Com mão de ferro para amedrontar o povo, usando prisões e matanças ocultas. As próprias instituições, o Parlamento, viabilizaram as candidaturas dele depois”, completou o egípcio Habib.

Efe

A praça Tahrir, no Cairo, se tornou o principal centro das manifestações

Outra medida adotada por Mubarak foi acabar com a oposição e colocar na ilegalidade qualquer “partido político baseado em fundamento religioso”, como a Irmandade Muçulmana.  Mudanças constitucionais também foram feitas por meio da criação de emendas para fortalecer o Poder Executivo, enfraquecer o Judiciário e assegurar a dominação política do governista PND (Partido Nacional Democrata).

Nas eleições de 1987, 1993, 1995 e 1999, Mubarak foi o único candidato. Em 2005, pela primeira vez, outros partidos puderam participar, mas o veto à Irmandade foi mantido. Houve dez candidatos e o governo saiu vitorioso, com 88,6% dos votos. Apesar do número, que poderia atribuir ao presidente uma aprovação inquestionável, as eleições foram criticadas na época. Eles argumentavam que houve um explícito controle do governo, incluindo o uso de gás lacrimogêneo, balas de borracha e munições que deixaram 14 mortos e centenas de pessoas na prisão.

“As eleições no Egito não são e nunca foram livres. Havia sempre um candidato único. A juventude que está nos protestos é da classe média, instruída, que fala inglês, e que nunca votou fora deste cabresto”, afirmou Funari, lembrando que o Nobel da Paz Mohamed El Baradei, um dos líderes da oposição, já foi impedido de se candidatar, e chegou a ser preso no fim de janeiro deste ano quando saía de uma mesquita no Cairo.

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Estrutura nacional

Na avaliação de Pedro Paulo Funari e de Mohamed Habib, a política econômica foi outro pilar de sustentação do governo egípcio. “Mubarak tem controle de três importantes fontes de renda: o turismo, que mesmo sendo privado depende da estrutura montada por ele, o exército, e os serviços públicos”, explicou Funari.

Ao longo dos 30 anos do governo Mubarak, poucos investimentos na indústria nacional foram feitos – a atividade industrial representa 17% do PIB (Produto Interno Bruto) – fazendo com que o país dependa da importação, principalmente de alimentos. A principal atividade econômica é o turismo e em segundo lugar, a extração e a exportação de petróleo, administradas pelo governo. Há também o serviço público, que emprega 31% da população, e o exército, que tem um contingente de 500 mil homens, uns dos maiores do mundo e o mais importante entre os países árabes.

Para Habib, o esgotamento desse modelo econômico foi um dos motivos da revolta da população. “Quando já não havia emprego, condições básicas de sobrevivência para a população que a situação mudou. Minha família está toda lá, venho acompanhando tudo de perto”, disse.

O Egito encerrou 2010 com desemprego a 20%. Em 2007, o mesmo número era de 10,1%. Já a inflação chegou a 11.90 % em 2010, enquanto em 2007 estava em 6,5%.

Terceiro pilar

A política externa foi outro ponto importante para manter o regime de Mubarak, segundo os especialistas. Isso porque a comunidade internacional nunca deu ênfase aos abusos de direitos humanos no Egito, um país lembrado mais por suas pirâmides e por seu litoral do que por seu regime autoritário, avaliou Funari. “É um regime de alinhamento ao Ocidente, ele tinha credibilidade internacional por ser um aliado do ocidente”.

As relações internacionais no governo Mubarak foram a continuidade do governo Sadat.   Em julho de 1972, ele ordenou a expulsão dos soviéticos do país com a justificativa de que a Rússia não tinha fornecido armas sofisticadas necessárias para retomar os territórios perdidos para Israel em 1967. A partir de então, passou a receber apoio norte-americano. Desde 1973, os EUA dão anualmente uma ajuda de três bilhões de dólares, dos quais 1,3 bilhão têm fins militares.

Outro feito foi reafirmar o tratado de paz com Israel feito em 1979, gerando novamente críticas por parte dos palestinos e de outros países árabes.

Durante a Guerra do Golfo (1990-1991), o Egito se posicionou ao lado dos EUA, contra os objetivos expansionistas do Iraque de Saddam Hussein. Em 1993, participou da mediação do acordo entre Israel e a OLP (Organização de Libertação da Palestina), assinado em 1993 e criticado por grupos palestinos como o Hamas e países como a Síria.

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Segundo Mohamed Habib, o que ocorreu foi um processo de esgotamento em três frentes: “a primeira é o esvaziamento do próprio governo, que não tem mais o que oferecer à sociedade, não tem mais como enganá-la, foram 30 anos em que nada do que foi prometido foi feito; a segunda é o término da esperança e da paciência da população; a terceira é o esgotamento da relação do governo egípcio com o dos Estados Unidos”, referindo-se ao pedido feito pelo presidente Barack Obama a Mubarak para que o egípcio deixasse o poder.

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