Reformismo revolucionário: a estratégia da esquerda latino- americana americana América Latina –

 
 Carta Maior –
 
[Luiz Marques] “Estado”, “política”,“história”, “revolução” são as ferramentas da esquerda latino-americana para atacar as consequências e também as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em termos políticos, ser condensada na fórmula do pensador judaico- romeno Lucien Goldmann: “reformismo revolucionário”. Algumas palavras pareciam condenadas à lata de lixo, sob a pressão dounária das últimas décadas. “Estado” é uma delas. Acusado de perdulário, mastodôntico e ineficiente em contraposição à livre iniciativa, apresentada como paradigma, o aparelho estatal foi execrado para justificar as desregulamentações e o desmonte que vitimaram os serviços públicos. Embalados pelo canto de sereia do fenômeno divulgado na condição de uma tendência inexorável, que converteria o planeta em uma aldeia global, muitos inclusive iam ao cúmulo de classificar de inútil a escolha de presidente para os Estados nacionais. As eleições teriam perdido o sentido frente a uma realidade na qual as linhas principais da política econômica seriam ditadas pelo FMI e o Banco Mundial. Das “Diretas já” às “Indiretas sempre”, um passo à frente, dois atrás. Considerando que, quem fala Estado fala política, esta sob a hegemonia do neoliberalismo foi também minimizada e criminalizada. Basta lembrar o argumento de Fernando Henrique Cardoso para reprimir a greve dos petroleiros no primeiro mandato: “Trata-se de um movimento… político”. Pior, contrário à intenção tucana de privatização da Petrobrás. Dê-lhe tanques Analiticamente, para o príncipe do Consenso de Washington, os petroleiros cometiam então três delitos: a) intervinham como um corpo coletivo organizado, quando apenas a desobediência civil de indivíduos que moderno significava entreguismo. A repressão manu militari sobre os trabalhadores mobilizados marcou o início de um retrocesso civilizacional de resultados perversos para o povo brasileiro. FHC, no caso, agiu de acordo com uma antiga aspiração das elites, eliminar a política das ruas e, no limite, esconjurá-la para longe do próprio Estado. Não à toa, Platão propunha para os postos hierárquicos de mando na sociedade os “filósofos”. Saint-Simon, os “industriais”. John Galbraith, os “tecnocratas”. Hoje fala- subjetiva dos governantes. No fundo, essa visão gerencial sobre o exercício do poder central reflete a ao conteúdo de cada projeto político-ideológico. Como se as políticas públicas não tivessem governo conforme a tabela de celebridades do Financial Times, tenha descrito Dilma Rousseff como “uma gestora pública, tecnocrata de boa formação, de bom senso e experiente, o que será muito bom para o Brasil”(Zero Hora, 12/12/2010). A completa assepsia política da descrição traduz o desejo atávico das classes dominantes, desde a remota Antiguidade.

 Do triunfalismo à surpresa Francis Fukuyama, em 1989, com anunciou o fim da história e fixou um programa máximo (sic) para o Ocidente: a economia de mercado  a democracia representativa. Inaugurava a ideologia imperialista da Nova Ordem Mundial. A senha para um padrão implacável de relações econômicas, que não aceitavam discussão e cobravam obediência imediata sob ameaça de denunciou o geógrafo Milton Santos com o neologismo “globalitarismo”, para realçar o viés totalitário da globalização neoliberal. cidadania ativa. O capital, triunfante, decretava a paz perene. Como no verso de T. S. Eliot, “sonhando com no emblemático dia em que entrava em vigor a North American Free Trade Agreement (Nafta), o tratado de livre comércio dos Estados Unidos com o Canadá e o México, em 1° de janeiro de 1994, mostrou que a recusa à exploração e à opressão mantinha-se acesa sob as cinzas. Em paralelo, a experiência do Orçamento Participativo nos anos 90 revelou quea socialização da política é o melhor antídoto à apatia das camadas empobrecidas, à corrupção e às demasias burocráticas da administração pública.

 Em uma conjuntura nacional e internacional repleta de adversidades, a criatividade e a irresignação cidadãos. A dominação capitalista não afigurava-se como uma fatalidade ou um destino, “surpreendendo história”, enfatizou a socióloga Laura Tavares Soares (Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina, SP, Ed. Cortez, 2000). A dialética corcoveava, rejuvenescida na linguagem sem esquematismos do subcomandante Marcos e nas assembléias comunitárias do prefeito Olívio Dutra. Preparava-se o terreno para o I Fórum Social Mundial Movimentos tradicionais (com vetor no trabalho) somavam-se aos contemporâneos (feministas, ecológicos, contra a fome, etc) para questionar a gramática da exclusão, reatualizar o valor da solidariedade e devolver esfumavam-se. As bandeiras vermelhas regressavam às praças. Mas havia pedras no caminho. E a“imprensalão” tencionou à procura de desvios, fabricando uns tantos com sensacionalismo e ódio de classe. Assustados e incapazes de uma leitura correta sobre os acontecimentos, os setores médios afastaram-se da estrela guia. A militância petista não se intimidou, porém, e a caravana popular seguiu avante comunicando-se em reassumia, aos poucos, suas funções clássicas para atender as demandas da população, e um papel e regionais. “Estado”, “política”, “história” foram palavras recontextualizadas graças à ascensão das forças anti-neoliberais na AL. Céu com nuvens carregadas Vislumbram-se outras batalhas no horizonte. A direita articulada em torno do Tea Party, o nó górgio do redobra a disposição conservadora de organizar o conjunto das relações sociais pela premissa da condição natural hobbesiana que faz do homem lobo do homem. A barbárie continua pedindo passagem para romper o contrato social de proteção aos direitos e espalhar a miséria e o sofrimento. Fuck you! soberanas, buscam superar o status quo. Sem que se possa esperar um freio à sede de sangue da ultra direita (vide post de Emir Sader: Obama e Lula, 09/12/2010) e nem consideração com o princípio elementar dilemas rondam o futuro. O Norte direitiza-se com extremismo; o Sul esquerdiza-se, embora com moderação e respeito à institucionalidade. É possível antecipar tensões e retaliações, com o alargamento da crise, do desemprego e da anomia social no território estadunidense. O Irã que se cuide Enquanto isso, o Brasil avança, reduz a pobreza, projeta um Estado de bem-estar social. Diante das inusitadas conquistas, referendadas com a vitória de Dilma, Lula utiliza o bordão “como nunca antes…” para chamar a atenção sobre o que está em curso no país. Tem nome, “Revolução Democrática”. Rafael à “Revolução Bolivariana”, em homenagem ao lendário libertador Simon Bolívar. Evo Morales, o presidente da Bolivia, à “Revolução Democrática e Cultural” como uma ponte para o “Neo-socialismo”. O denominador comum é a idéia de “revolução”, mais um mote maldito esquecido no porão que sacode a poeira e dá a volta por cima. Nenhuma alusão à luta armada, mas sim à elevação do nível de consciência das maiorias, ao empoderamento dos movimentos sociais, aos vínculos orgânicos desses com os partidos políticos comprometidos com as mudanças e aos progressos institucionais para aprofundar a democracia e a justiça social. “Não façam o que eu fiz”, aconselhou Fidel Castro em reunião com um grupo de líderes reformadores sobre a questão do método (Che Guevara, 80Th Anniversary, Trilogy Collection, DVD) consequências e as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em pensador judaico-romeno Lucien Goldmann: “reformismo revolucionário”. Paradoxal, só na aparência, como o realismo mágico de nossa literatura. La nave va.

 Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRG)
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