Wikileaks, a novela diplomática do ano

DO Le monde diplomatique Brasil

O jornalista australiano Julian Assange, responsável pelo site Wikileaks, não para de divulgar informações, antes confidenciais, sobre guerras, bancos, governos e relações diplomáticas. E ele promete, muito ainda está por vir.
por Renaud Lambert e Philippe Rivière
                   Ao anunciar, em 28 de novembro, que divulgaria 251.287 telegramas diplomáticos internos do departamento de Estado americano, o site Wikileaks deixou as chancelarias em alvoroço. Nos Estados Unidos, a secretária de Estado, Hillary Clinton, insurgiu-se contra o que chamou de “ataque aos interesses diplomáticos estadunidenses e da comunidade internacional”. Ainda que não se possa encontrar nesses documentos “a” verdade absoluta, o site desvenda, em primeira mão, uma versão “bruta” da percepção de mundo dos diplomatas estadunidenses, que também transparece na transcrição de suas conversas com seus aliados e outros líderes.

            Vimos, durante a conferência de Copenhague sobre o clima, como um hacker conseguiu espalhar, em praça pública, todas as comunicações particulares dos pesquisadores implicados no estudo das mudanças climáticas, provocando reações fulminantes.  Nesse caso, não houve revelações, mas a divulgação de e-mails que desestabilizaram a comunidade científica em um momento crucial. Entretanto, eram apenas trocas de mensagens entre universitários. Com as comunicações do departamento de Estado, entramos em uma nova dimensão do furto virtual. Piratear a Siprnet, rede privada da diplomacia estadunidense, e mostrar que até mesmo os EUA não podem garantir a confidencialidade de suas comunicações, é, sem dúvida, o roubo do século…

            Após sua primeira jogada de mestre – a publicação de documentos sobre o banco islandês Kaupthing Bank –, a organização do jornalista australiano Julian Assange reiterou sua façanha ao publicar o vídeo de um “incidente” das forças estadunidenses no Iraque e depois os relatórios sobre o Afeganistão. Nesses dois últimos casos, trata-se de uma publicação em massa de observações de campo que ilustram  o dia-a-dia dessas guerras. Desta vez, a Wikileaks parece ter mudado sua estratégia de publicação.Frustrado por uma repercussão da mídia que se limitava muitas vezes a falar do funcionamento do site em si ou da personalidade controversa de seu líder carismático, Assange desejava controlar o ritmo de revelação de seus documentos e associou-se a jornais prontos para trabalhar sobre cada um deles, soltando-os a conta gotas: “As comunicações das embaixadas serão divulgadas por etapas no decorrer dos próximos meses.Os teores desses telegramas são de tal importância e sua cobertura geográfica de tal extensão, que proceder de outra maneira não faria justiça a esses documentos.”

            Nos primeiros dias, os cinco jornais associados à Wilileaks tiveram acesso a textos que mostravam o quanto os dirigentes de vários países árabes podiam se mostrar críticos em relação ao Irã, empregando em suas discussões com os diplomatas estadunidenses um vocabulário e argumentos completamente diferentes dos usados com seus povos. Os telegramas diplomáticos também revelaram as ordens dadas por Hillary Clinton a sua equipe de diplomacia para que fossem espionados executivos da Organização das Nações Unidas, anotando suas impressões biométricas, “nomes, títulos e outras informações contidas nos cartões de visita; números de telefone fixos, celulares, de pagers e de fax; contatos telefônicos e listas de e-mails; senhas de internet e intranet; números de cartões de crédito; números de cartões de fidelidade de companhias aéreas; horários de trabalho”. A imprensa se divertiu ao ver como os funcionários estadunidenses qualificavam os dirigentes europeus, fossem eles russos ou líbios.

            Mas é muito cedo para fazer um balanço daquilo que poderá se tornar uma novela inédita e longa – ainda mais porque Assange prometeu atacar também o setor das empresas privadas, com revelações sobre um “grande banco estadunidense”. C

            Para ilustrar o potencial desses documentos, o Le Monde Diplomatique debruçou-se sobre um deles, que traz uma luz complementar para a atualidade recente.Trata-se do telegrama “Tegucigalpa 000645” que se refere a Honduras. Nele se vê que, caso o departamento de Estado, de fato, tenha permitido que o governo do presidente Manuel Zelaya caísse em 28 de junho de 2009, seu embaixador em Honduras, Hugo Llorens, foi categórico em classificar o que ocorrera como um golpe de Estado.

            No dia 24 de julho de 2009, aproximadamente um mês depois dos acontecimentos, Llorens enviou um telegrama para vários interlocutores, entre os quais Thomas Shannon, o atual embaixador dos Estados Unidos no Brasil, que ocupava na época o cargo de secretário de Estado adjunto nos assuntos do continente americano que escreveu: “A análise da embaixada é indiscutível. No dia 28 de junho as forças armadas, a Corte Suprema e o Congresso conspiraram no âmbito do que constitui um golpe de Estado ilegal e anticonstitucional contra o poder executivo (mesmo reconhecendo que, a primeira vista, pudessem existir elementos indicando que Zelaya se colocou na ilegalidade e violou a Constituição).Também não há duvidas que a tomada de poder por Roberto Micheletti [presidente de fato a partir de 28 de junho de 2009] tenha sido ilegítima.”

            O diplomata listou “os argumentos, muitas vezes ambíguos” dos golpistas para justificar a legalidade de sua manobra: “Zelaya se colocou fora da lei (uma suposição que nunca se sustentou); Zelaya pediu demissão (uma invenção); Zelaya tinha a intenção de prolongar a duração de seu mandato (uma simples conjectura)”. Llorens concluiu: “Pensamos que nenhum desses argumentos tem o mínimo valor segundo a constituição hondurenha. Alguns são simplesmente falsos. Outros se baseiam sobre suposições ou racionalizações a posteriori de uma ação manifestamente ilegal”.

            Observando que “são muitos os oficiais hondurenhos, inclusive presidentes, desde o primeiro governo eleito sob a constituição de 1982, que propuseram autorizar a reeleição de um presidente no fim do seu mandato” e que “nunca se achou necessário destituí-los de seu posto para tal”, o diplomata estadunidense resumiu: “Os acontecimentos de 28 de junho somente podem ser considerados como um golpe de Estado do poder legislativo – com o apoio do poder judiciário e das Forças Armadas – contra o poder executivo.”

            Contudo, a administração americana contentou-se em suspender o pagamento de uma fração mínima do auxílio que destinava ao país (de um montante de US$ 31 milhões).Hillary Clinton, próxima do lobista Lanny Davis – que rapidamente se colocou à serviço dos putchistas hondurenhos –, anunciou a retomada do financiamento no dia 4 de março de 2010. No mesmo dia, ela convidava a Organização dos Estados Americanos (OEA) a reconhecer o governo de Pofirio Lobo, vencedor, em 29 de novembro de 2009, de um escrutínio ilegítimo (uma vez que organizado por um governo ilegítimo), e empossado desde o dia 27 de janeiro de 2010. Por outro lado, Hillary o cumprimentava por ter “restaurado a democracia” em Honduras.

            Desde a chegada de Lobo ao poder, diversos advogados foram sequestrados ou intimidados. Nove jornalistas, assim como várias dezenas de camponeses e militantes políticos foram assassinados. 

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