O FED ficou sem fé, e agora a perde o euro

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domingo, 05 de diciembre de 2010
05 de diciembre de 2010, 09:57Havana, (Prensa Latina) Antes do início da crise econômica a princípios de 2007, já a Reserva Federal (FED, banco central estadunidense) tinha perdido a fé no controle da economia e agora acontece o mesmo com a moeda da eurozona.

  Um artigo do ABC.es propõe que boa parte dos cidadãos da eurozona estão incrédulos no euro, o ambicioso projeto monetário que nasceu agora há mais de uma década e cuja história sempre o tinha qualificado como “de sucesso”.

“O resgate da Irlanda e a má situação de Portugal e Espanha têm dado mais força que nunca a estas vozes críticas com a moeda em países que, como a Alemanha, Países Baixos ou Áustria, não estão sofrendo tanto a crise como os mediterrâneos e que vêem como os problemas dos “PIGS” podem lastrar seu crescimento futuro, afirma. PIGS (literalmente, porcos em inglês) é uma forma pejorativa criada por meios financeiros anglo-saxões para referir-se aos países do sul da União Européia (Portugal, Itália/Irlanda, Grécia e Espanha, “Spain” em inglês) com fragilidade no crescimento econômico e dificuldades em questões de déficit da balança de pagamentos.

Importantes funcionários públicos da zona euro minimizaram qualquer risco de um avaro no bloco monetário depois que os mercados financeiros, em pânico pela crise fiscal irlandesa, levaram à recordes máximos os custos de endividamento para a Espanha e Portugal, informou a imprensa britânica na última quinta-feira.

Em maio deste ano a bolpress.com reportava que, depois dos ajustes estruturais começados a serem implementados na Grécia, Espanha e Portugal o euro caiu ao seu nível mais baixo nos últimos quatro anos, abaixo de 1,24 dólares, com o conseguinte impacto nas carteiras européias e em benefício do dólar e o título alemão.

Essa fonte explicava que os investidores estão optando por se salvaguardar diante de um possível recrudescimento da crise e sobre a base da lógica (do capitalismo) buscam refúgio em fórmulas que lhe dêem maior segurança, como é o título alemão, o dólar ou o ouro.

Com as reformas estruturais ou estabelecimento do neoliberalismo propõem-se eliminar as conquistas dos trabalhadores europeus ou o denominado “estado de bem-estar social”, como já ocorre com o “american way of live” dos estadunidenses.

Mas a diminuição da despesa pública e da segurança social, o desemprego galopante, atingir maior competitividade e produtividade à custa da piora das condições trabalhistas e o aumento dos impostos, criam condições de instabilidade social.

A essas práticas soma-se a associação da União Européia à política estadunidense de domínio mundial e a expansão para o Leste da OTAN.

Pese às declarações tranquilizadoras de alguns funcionários públicos, o ex-presidente do FED, Paul Volcker, mostrou sua preocupação por uma possível ruptura da eurozona.

Segundo recorda a bolpress.com, apenas três dias depois do Banco Central Europeu (BCE) recusar a possibilidade de empregar a chamada “opção nuclear” (ou compra de valores de dívida pública e privada, incluindo os denominados “sucata” ou “tóxicos”), deu um giro espantoso e a incluiu no pacote excepcional de medidas.

Essa opção envolve a compra de títulos do governo no mercado secundário, e ainda que o Tratado de Maastrich proíba a aquisição primária de títulos diretamente aos tesouros de cada país, dá em troca espaço para negociar indiretamente valores que já estão no mercado.

A compra de títulos pode atrasar e inclusive reverter o aumento nas primeiras pagas pelos países mais débeis sobre sua dívida e freiam a crescente tendência a assegurar essa dívida na contramão de uma cessação de pagamentos ou “default”.

O pacote acordado de empréstimos, garantias, trocas e compras de títulos é de 750 bilhões de euros ou um trilhão de dólares, dos que o FMI contribuirá 318 bilhões e não inclui o já aprovado plano de ajuda a Grécia, de 110 bilhões de euros.

Nesse cenário o FED aproveitou para emitir mais dólares com o pretexto de abrir um programa para evitar a extensão da crise na Europa.

Assegurou que a crise aumentou a demanda de dólares e debilitou o valor do euro e a medida respondia ao reaparecimento de tensão nos mercados de financiamento em curto prazo e prevenia sua extensão aos outros centros.

O estado financeiro do FED cresceu exponencialmente a 2.3 trilhões de dólares, mais do dobro de onde se localizava antes da crise, quando tratava de diminuir essa quantidade sem precedentes de dinheiro injetando-a na economia

Outros bancos centrais, incluindo o do Canadá, Reino Unido, Suíça, Japão e o europeu, também se envolveram na medida e há acordos autorizados até janeiro.

O fundo foi utilizado para tratar de salvar a Grécia e agora se negocia aplicá-lo na Irlanda, ainda que se propõe que esse pacote não será suficiente, assim como também não seria para Portugal e Espanha se fosse necessário.

O FED, que em maio se dispunha a retirar estímulos de seu primeiro plano de expansão quantitativo ou QE1, em agosto declarou que lançaria outra emissão monetária em massa (900 bilhões), efeito dólar que desatou uma guerra cambial.

Já desde inícios de 2007, o FED tinha reconhecido sua perda de fé no controle da economia, reduzindo as taxas de juro interbancários de referência.

Agora aplica inflação, iniciando um tortuoso caminho para a estanflação (primeiro estancamento econômico com inflação e depois contração com deflação, encaminhando para a contração mais inflação).

Os economistas preocuparam-se porque fazer de maneira “agressiva” e menos prognosticada, ou seja, com uma queda de meio ponto e não de um quarto.

As taxas de juro ficaram em 4,75 desde os 5,25 por cento em que os manteve durante um ano e posteriormente continuou flexibilizando sua política monetária até deixar entre 0,25 e zero por cento atuais.

Horas antes daquela manobra o “gurú” das finanças e ex-presidente do FED, Alan Greespan, declarou que a inflação será cada vez mais difícil de conter.

Segundo sua opinião, os encarecimentos das importações chinesas e os aumentos das taxas de juro ao longo prazo sugerem que a mudança está mais perto que longe. Afirmou que o Comitê Federal de Política Monetária do FED pode conter a inflação entre um e dois por cento, mas isso suporia elevar as taxas de juro acima de 10 por cento, um nível desconhecido há 20 anos.

Acrescentou que se o FED adota uma política flexível, a inflação poderia crescer desde um pouco mais de dois por cento até uma média entre quatro e cinco até 2030.

Para Greespan o rendimento dos títulos do Tesouro a 10 anos crescerá ao menos oito por cento, com o potencial de ir “significativamente acima em breves períodos” (algo que se dizia antes do início da crise de 2007).

Mas nestes momentos, o FED propõe-se manter a inflação em sua meta (entre um e dois por cento), com as taxas no nível atual e diminuir as de longo prazo da dívida do Tesouro, com a nova emissão (QE2), o que faz com que alguns digam que Bernanke não sabe de economia.

A isso se somam os prognósticos sobre a elevação dos preços do petróleo, que superaram os 80 dólares o barril e poderiam superar os 100 dólares.

A última previsão é que atinjam os 85 dólares para finais de ano com picos de inclusive 90 dólares, assim como os do resto das matérias primas básicas, incluindo os alimentos.

Se desde o início do ano, a UE não pôde superar as contradições, parece muito menos possível que poderá fazê-lo agora.

Ao mesmo tempo, muitos se perguntam quem salvará os déficits irracionais dos EUA e o resto do G-7, quando seus “privilégios monetários especiais” sejam impraticáveis e terminem desaparecendo.

Os planos de resgate poderiam fracassar e de qualquer forma ter conseqüências devastadoras, arrastando as economias a uma depressão mais profunda, em momentos em que, contidas pelo desemprego, a crise do crédito e do setor imobiliário, já começam a transladar aos consumidores as pressões inflacionárias.

Faz-se evidente que as medidas adotadas transbordam de liquidez os já inundados mercados e elevarão indesejada e descontroladamente as taxas de juros, confirmando a contração econômica com inflação nas grandes nações capitalistas.

O crescimento da China e outras nações emergentes, sua altas taxa de juros e a valorização das moedas, contrasta com as baixas taxas de juros nos países desenvolvidos, a desvalorização do dólar e a especulação nos mercados.

Esse conjunto pressiona de forma perigosa ao aumento dos preços da energia, matérias primas, bens e ativos, inflando novas bolhas a perigo de estourar.

Desde antes do início, este Super-craque sistêmico progressivo das economias desenvolvidas foi alertado, primeiro com o explosão da bolha imobiliária, a crise do crédito, que foi seguida pelo default – todas se aprofundando -, e agora se soma o início da inflação.

O que virá depois… com um dólar caindo, um euro em perigo e as economias fora de controle?

(*) O autor é jornalista, jurista, foi diplomata e membro da Comissão Econômica da Assembléia Geral da ONU e colabora com a Prensa Latina.

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