Carlos Lessa: Acabou euforia sucessória e crise mundial se impõe

Os debates sucessórios não mencionaram sequer a crise mundial. Antes
da posse da nova presidente, a crise mundial se impõe na mídia
brasileira. A virulenta manifestação de crise mundial em 2008, a
partir da implosão da bolha financeiro-imobiliária nos EUA se propagou
urbi et orbi [à cidade e ao mundo] e está solidamente instalada.

Por Carlos Lessa*
Economia é história, no sentido de transformação. A dimensão monetário-
financeira da crise mundial é fruto do padrão-dólar instalado em 1971,
quando foi decidido, por aquela nação, o cancelamento da cláusula
ouro. Um dólar, baseado em confiança, passou a valer… um dólar!
Objeto de desejo universal pois, ao dominar as transações de comércio
internacional, passou a ser o item principal das reservas externas de
toda e qualquer moeda nacional.

Isso é mais importante para a geopolítica americana do que a bomba
atômica. Representa a hegemonia de uma nação que emite (e é solicitada
a emitir) dívida disputada por todas as outras nações. O Produto
Interno Bruto (PIB) americano é um quarto do mundial, porém sua dívida
desejada é lastro mundial. As emissões sucessivas de títulos do
Tesouro americano confirmaram a inexistência de um ativo monetário de
risco.

Quando explodiu a bolha, em 2008, quebraram bancos e houve a
desvalorização substancial do patrimônio das famílias americanas,
endividadas com lastro hipotecário de suas residências e imóveis de
negócios. Apesar do imenso socorro do Federal Reserve (o Fed, banco
central americano), os bancos americanos sobreviventes têm nos seus
ativos mais de US$ 1 trilhão em papéis duvidosos.

A crise de demanda vai atingir o Brasil. Nós não fazemos o controle
dos investimentos estrangeiros no país

Isso produziu duas mudanças de comportamento: as famílias americanas
querem poupar e restringir o consumo, e os bancos não querem emprestar
às famílias e aos pequenos e médios negócios. Dada a prevalência do
dólar no monumental movimento cambial internacional, os bancos
americanos estão se deslocando para ganhos em operações cambiais. A
conduta poupadora das famílias americanas é o fundamento de uma crise
de demanda mundial. Na zona do euro, os baixos juros, inspirados na
Alemanha, levaram os bancos europeus a facilitar o crédito em euros em
todas as dimensões.

Porém, a dívida soberana denominada em euros das nações europeias
enfrenta também dois problemas: o Banco Central Europeu (BCE) não é o
Fed e não absorve esses papéis. Com a crise de demanda, as economias
europeias foram afetadas e os elos nacionais mais fracos começam a
quebrar (Grécia, Irlanda, Portugal e outros), o que reduz a
confiabilidade nos bancos europeus. Toda a zona do euro está em crise.

A economia japonesa está soldada à chinesa (mais de 50% do comércio
exterior japonês é com a China). A China está monetariamente soldada
aos EUA – tem a maior parcela de títulos do Tesouro americano. As
filiais americanas atuantes na China (mais de 3 mil) completam o elo
do G-2.

Os US$ 600 bilhões do presidente Obama, bem intencionado em reativar a
economia, irão alimentar um processo monetário internacional doente e
cada vez mais consciente dos riscos dos ativos em dólar, porém sem
saber o que colocar no lugar.

A crise de demanda mundial irá atingir o Brasil. Nós não fazemos o
controle dos investimentos estrangeiros no Brasil. Foi nossa política
atrair capital cigano com a oferta de juros elevados; acumulamos
grandes reservas de dólares e não fizemos investimento público na
escala necessária para elevar a pífia taxa de 18% de investimento em
relação ao PIB. Estimulamos o rentismo empresarial e um endividamento
familiar maciço.

O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) tem o mérito de repor em
discussão a questão do investimento em infraestrutura como chave para
a sustentação da economia. Porém é quantitativamente insuficiente e
tem tido uma implantação administrativamente difícil e financeiramente
curta. No momento, informa a imprensa, os restos a pagar superam em
muito os investimentos do PAC em 2010. Somente 22% do autorizado a ser
dispendido em projetos em 2010 foram gastos. Dos R$ 32 bilhões
autorizados para o corrente ano, dos restos a pagar de 2009 (R$ 26
bilhões), foram pagos 11,6%. Entretanto, ainda faltam ser pagos cerca
de R$ 14 bilhões de gastos do PAC em 2009.

É fácil compreender porque a presidente eleita já sinalizou a
reinstalação da CPMF. Além do mais, é visível que a inflação tem
crescido, apesar da política paralisante de juros altos: entre 1995 e
2008, a inflação no Brasil superou a média mundial.

O retorno dos grandes bancos sobre o patrimônio líquido está na faixa
de 25% ao ano. Esse desempenho bancário não é pró-crescimento de
emprego e renda, o que condena, a longo prazo, a política de
endividamento familiar. Uma elevação robusta do salário mínimo real
ajudaria a sobrevida da bolha brasileira, porém o atual governo vê com
preocupação fiscal a elevação salarial implícita no debate sucessório.

O Brasil tem que adotar controles de entrada de capital estrangeiro
especulativo. E tem que estimular o investimento privado por uma
ampliação significativa do investimento em infraestrutura. É
necessário colocar um freio em um endividamento familiar perigoso, que
deveria ficar circunscrito à compra da casa própria e de matérias para
a construção em mutirão.

A nova presidente tem que ter coragem de alterar a receita dos anos
Lula. Façamos votos para que as emanações da crise mundial não tornem
a vida da nova presidente e a dos brasileiros um inferno.

*Carlos Francisco Theodoro Lessa é professor emérito de economia
brasileira e ex-reitor da UFRJ. Foi presidente do BNDES. E-mail:
carlos-lessa@oi.com.br

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