Ao se falar no Irã, a pedra tem dois lados

O ocidente, sob a batuta estadunidense, mostra “indignação seletiva”, segundo sociólogo

Fonte: Brasil de Fato

Eduardo Sales de Lima

da Redação do Brasil de Fato

O caso da iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada a morte por adultério e por supostamente ter conspirado pelo assassinato de seu marido, tem se transformado em mais um instrumento de “demonização” do Estado iraniano por parte da mídia ocidental. As medievais execuções por apedrejamento no Irã ladrilham o caminho dos interesses estadunidenses de convencer a comunidade internacional da necessidade e da legitimidade de um ataque bélico ao país persa.

A ser observada sob dois ângulos, o mais evidente choca os olhos de quem vê. Desde a Revolução Iraniana, 109 pessoas morreram apedrejadas, segundo o Comitê Internacional contra Apedrejamento; por vezes as execuções ocorrem em segredo.

Adotada como sistema jurídico de Estado no Irã e na Arábia Saudita, a Sharia é a legislação derivada do corão, o livro sagrado dos muçulmanos, e da sunna (também conhecido como hadith), uma coleção sobre os feitos e passagens da vida do profeta Maomé (570-632). A partir da interpretação da Sharia moldada segundo a Escola Jafari, Sakineh foi condenada à morte por apedrejamento, que é a pena atribuída a aqueles que cometeram assassinato, adultério ou blasfêmia. Depois de muita pressão internacional, a condenação transformou-se em enforcamento, sem data prevista para a execução.

De acordo com a jornalista e autora do livro O Irã sob o Chador, Márcia Camargos, práticas de apedrejamento são comuns em países de tradições tribais nas áreas rurais mais miseráveis de países como a Somália, o Sudão, independentemente do aparato estatal. “No Irã hoje, um país que quer ser moderno, isso se torna um assassinato”, conclui. Ela reforça que não se pode confundir o Islã, nem a Sharia, com as práticas autoritárias derivadas de uma interpretação particular, “de cunho político, de controle social e repressão por imposição do medo e do terror”.

Yasmin Anukit, pesquisadora em história das civilizações, dentre outras coisas, defende que não existe a pena de apedrejamento no Alcorão. A questão, segundo ela, é que, “como a Sharia é passível de várias interpretações, alguns governos resolveram reinstituir esta antiga prática judaica, o que é um claro retrocesso e absurdo no contexto do Islã”, pontua.

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“Certos crimes cometidos no Afeganistão contra as mulheres são compreendidos por

estrangeiros e pela mídia como ‘aspectos culturais’. Pelo amor de Deus, não são aspectos culturais! São crimes!”, indigna-se Yasmin. Para ela, tal desvio de interpretação serve, intencionalmente, como incentivo à xenofobia, à islamofobia e às guerras. “O apedrejamento não é uma aspecto cultural, é uma síndrome anti-cultural sem respaldo religioso, um crime cometido por um governo criminoso”, dispara.

O curioso de tudo isso é que, de acordo com Márcia, o primeiro Código de Direitos Humanos do mundo de que se tem notícias foi o Cilindro de Ciro, da Pérsia Antiga, de 538 a.C. “É uma contradição porque esses reis do império persa eram conhecidos pela tolerância em relação aos inimigos, às liberdades religiosas”, explica.

Outro lado

Esse é um aspecto do caso de Sakineh. Porém, existe outro. “Há demonização do Irã pelo ocidente, pelo Império, os Estados Unidos e a Europa, que eles usam o exemplo da Sakineh para expor o Irã, tendo em vista também seus próprios interesses econômicos na região”, afirma Márcia.

De acordo com ela, as críticas da mídia ocidental não se preocupam com os direitos humanos das minorias naquele país; dentre elas, os curdos, os ba’hai, os homossexuais. Márcia contrapõe o tratamento que a mídia ocidental faz em relação à Arábia Saudita, parceira dos Estados Unidos, a qual não sofre nenhum tipo de condenação pública e que realiza as mesmas práticas que o Irã. “Ninguém pode aceitar o apedrejamento em pleno século 21, é uma prática medieval, mas, por outro lado, é preciso ficar muito atento e não cair nessa armadilha”, explica.

A indignação do governo estadunidense e de sua mídia é extremamente seletiva. É o que pensa o sociólogo Lejeune Mirhan; “são dois pesos e duas medidas”, resume. “Quantas mulheres iraquianas, palestinas e afegãs são diariamente estupradas por soldados americanos e israelenses e ninguém é punido por isso?”, questiona.

Para ele, o desgaste criado a partir do caso Sakineh funciona para colocar ainda mais a opinião pública internacional contra a nação persa, tentando convencer as pessoas de que, como no Iraque e no Afeganistão, poderemos acreditar em mais uma guerra contra o terror, “visando ataques que possam estar sendo inclusive preparados”.

Virgílio Arraes, professor de relações internacionais da UnB, exemplifica a situação por meio de um fato midiático, em que é possível apreender o “peso” crítico utilizado pela mídia estadunidense quando se refere a direitos humanos no Oriente Médio. “Há poucos dias, a Time estampou em sua capa uma moça afegã mutilada por fundamentalistas islâmicos. A reação – correta – do mundo foi o choque. Contudo, o teor da capa insinuava que a situação poderia piorar, caso as tropas norte-atlânticas saíssem do país”, argumenta.

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