O significado do trem-bala

do site da BBC Brasil

Rogério Simões | 2010-07-13, 22:51

Já tem data marcada a passagem do Brasil para um diferente estágio de desenvolvimento: meados de 2016, quando deverá entrar em funcionamento o trem de alta velocidade, ou trem-bala, ligando Campinas, São Paulo e Rio de Janeiro. Não se trata apenas de uma obra a oferecer uma alternativa confiável e veloz de transporte entre os dois mais importantes centros urbanos do país. O trem-bala, se for realmente concluído a tempo de carregar turistas para a Olimpíada carioca, mostrará ao exterior um Brasil mais conectado com tendências internacionais que misturam qualidade de vida, preocupação com o meio ambiente e racionalidade de tempo e espaço.

O boom econômico por que passa o Brasil levou, inicialmente, a um aumento desenfreado da utilização das duas formas básicas de transporte de passageiros no país: rodoviário, preferencialmente individual, e aéreo. A produção e venda de veículos continuam batendo recorde atrás de recorde (19,1% a mais no primeiro semestre de 2010 em relação a mesmo período de 2009), e os aeroportos de Cumbica e Congonhas não têm mais onde enfiar aeronaves e passageiros. Para acomodar a crescente demanda por deslocamentos de longa distância, o Estado brasileiro, às vezes em parceria com a iniciativa privada, continua abrindo estradas e precisa ampliar seus aeroportos visando a Copa de 2014. Mas a opção pelo trem-bala ressuscita a opção ferroviária para o deslocamento de pessoas, em versão moderna, e reforça a noção de transporte coletivo. Carro, cada um usa o seu. O avião reúne centenas de desconhecidos em um mesmo espaço, mas quem pode anda de jatinho particular. O trem é sempre coletivo.

A Espanha, por exemplo, tem investido pesadamente no transporte ferroviário de alta velocidade na última década. Com isso, já reduziu significativamente o número de passageiros dentro de aviões, com a consequente queda em emissões de gás carbônico. A linha entre Madri e Barcelona fez com que cerca de 400 mil passageiros abandonassem, em 2008, o avião em favor do trem para viajar entre as duas principais cidades espanholas. Segundo um especialista espanhol do setor, citado na época pelo jornal The Guardian, um passageiro de trem-bala representa um sexto de um passageiro de avião em termos de emissão de poluentes.

A opção por um em detrimento do outro representa racionalização de tempo e aumento de conforto para o passageiro, com o benefício de aliviar o impacto ambiental da crescente utilização de transporte para longas distâncias. A ideia do trem-bala brasileiro, independentemente de seus detalhes e possíveis futuros problemas no longo processo de implantação, indica que o país está ampliando seus horizontes quando o assunto é deslocamento da sua população. O Brasil parece se aproximar do caminho já traçado por nações mais desenvolvidas. Avião, carros e ônibus deixam de ser as únicas alternativas nacionais, em uma mudança que pode levar ao surgimento de outros serviços ferroviários de passageiros. O trem-bala sugere que, em meio ao caos decorrente da crescente e desorganizada demanda por bens e serviços, antes restritos apenas às classes brasileiras de maior renda, já é possível avistar luz no fim do túnel.

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