Um olhar argentino sobre a actual situação na Europa

do blog cheira-me a revolução

As experiências alheias, bem como as opiniões de amigos, devem constituir sempre uma fonte de ensinamentos muito úteis e que nunca devemos subestimar. A História, sabemos todos, nunca se repete, mas lá que há “histórias” que se assemelham muito, lá isso há… 

No texto que escolhemos aqui publicar hoje, o prestigiado sociólogo argentino Atílio Boron traça um interessante paralelo entre a actual situação em vários países integrantes da UE e a situação vivida na Argentina nos anos de viragem do século, situação e políticas que conduziram este país à bancarrota e que originaram um significativo processo de mudança, encabeçado pelo casal Kirchner. Tanto pelo mau exemplo latino-americano que menciona, como pela análise que contém sobre o “remédio” que o capital agora intenta aplicar sobre os povos europeus do sul do continente, aqui fica o mencionado texto. Com uma nota adicional: o autor compara o conflito social em desenvolvimento actualmente na Europa ao período das grandes contestações ao capitalismo que se viveram nos finais dos anos sessenta e que ficaram assinaladas para a História pelo “Maio de 68″, em França. Guardadas as devidas distâncias, os acontecimentos últimos do desenvolvimento das lutas de classe na Grécia e nos restantes países alvo da ofensiva neoliberal parecem apontar, de facto, para o início de uma exaltante e promissora época de um renovado combate dos assalariados europeus contra o grande capital explorador. Façamos tudo o que nos é possível para confirmar, pela luta de massas, estas boas perspectivas.
  
 
A Europa no espelho argentino

Após causar estragos na sua terra natal, os Estados Unidos, o vírus “neoliberal”, para usar a expressão correta de Samir Amin, já infectou a Europa. Confrontado com sintomas inocultáveis da crise, os mercados reagiram com uma mistura explosiva de cobiça e irracionalidade e mostram o seu cepticismo sobre as receitas para sair da crise produzida pelo G-20, o FMI e o BM. Para piorar as coisas, este fim de semana, Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, disse que “o resgate de um bilhão de dólares aprovado pela União Europeia e do FMI é só para ganhar um pouco de tempo.” Esta opinião foi apoiada pelo economista chefe do BCE Juergen Stark, que também disse que “quando os mercados ficam loucos, ninguém pode prever as consequências”.
A natureza estrutural e de longa duração da crise é evidente, e suas dimensões são impressionantes: na Grécia, o défice fiscal em relação ao PIB é próximo dos 14%, na Irlanda, quase 15%, em Espanha, está praticamente nos 12% , em Portugal ultrapassa já os 9% e no Reino Unido, do qual poucos falam, o défice orçamental é apenas um centésimo menor do que a Grécia queimados: 13%. Estes números desviam-se brutalmente daqueles estipulados pelo defunto Tratado de Maastricht, pelo qual os países europeus se comprometeram a manter o seu défice orçamental abaixo dos 3% do PIB. Tudo isso acontece porque, com a eclosão da crise, no Verão de 2008, os governantes ordenaram ao Banco Central Europeu e aos seus próprios bancos para resgatarem as grandes empresas afectadas pela crise, como haviam feito Bush e Obama nos EUA, demonstrando, a título de exemplo, que a doutrina da “autonomia do Banco Central” é uma ilusão para consumo somente dos governos subservientes da periferia.
O problema com esta ajuda é que, mais cedo ou mais tarde, os fenomenais pagamentos feitos pelos governos tornam-se uma dívida de enormes proporções, causando um crescimento incontrolável do deficit fiscal. Desde há algumas semanas, o problema não suscitou maior atenção – o FMI absteve-se até mesmo de enviar um aviso para o mundo desenvolvido (quando por défices muito menores enviam as suas missões mortais para qualquer país do Terceiro Mundo) – excepto entre os poucos que estavam realmente conscientes da situação e não acreditam em metáforas inteligentes usados pelos gurus do capitalismo, que desde há um ano vinham falando sobre “sinais no verde”, que anunciavam o fim da crise. 

 Charlatães irresponsáveis (como os da Argentina que, em Março de 2002, previam que até ao final daquele ano o dólar se cotizaria entre 12 e 14 pesos por unidade), agora sentem que o mundo está caindo, o euro cai, a Zona Euro está prestes a desintegrar-se, e como os governos capitalistas só concebem a saída da crise fazendo-a pagar pelos trabalhadores, o clima social está carregando-se de um conflito nunca visto desde os acontecimentos de 1968, embora alguns o remontem mesmo ao final da I Guerra Mundial.
As propostas para gregos e espanhóis são uma cópia das impostas pelo FMI na América Latina que serviram apenas para acelerar o colapso e o caso argentino é o reflexo mais fiel do que provavelmente espera muitos dos países da União Europeia que ainda se agarram ao catecismo neoliberal. O “Wall Street Journal” de 12 de Maio afirmava que “na zona do euro e em menos de um mês, o FMI deixou de ser um pária para se tornar uma instituição essencial cuja bênção é necessário para países que precisam de pacotes de resgate.” Este autêntico Dr. Mengele das economias – que continua a ser o mesmo de antes, apesar de afirmações públicas em contrário -, foi aquele que as autoridades da União Europeia escolheram para administrar os remédios para resolver a crise. Por isso, não surpreende ver uma Europa em pé de guerra social, em resposta a um programa de ajuste brutal como o que sofreu a América Latina.
Como na Grécia, o ajuste recessivo de Rodriguez Zapatero em Espanha tem como um dos seus pilares a redução salarial de 5 por cento para a maioria dos trabalhadores e do congelamento para aqueles com menor salário, os chamados “mileuristas” (*), por ser essa, aproximadamente, a quantia que eles ganham por mês. Para mostrar que há austeridade para todos e que vai ser progressiva, o governo espanhol decidiu que de secretário de Estado para cima a redução seria de 15 por cento. A única desvantagem é que enquanto o primeiro-ministro espanhol ganha 91.982,40 por ano (cerca de 8.000 euros por mês, além de diversas despesas que estão a cargo do Tesouro), o corte de 15 por cento dificilmente irá produzir qualquer diminuição na sua capacidade de poupança e consumo. Mas, para os sectores mais baixos da administração pública, cuja remuneração com prémios, subsídios e bónus, é cerca de 2000 euros por mês, os 100 euros que lhes vão ser cortados irão afectar negativamente a sua qualidade de vida.

David Cameron, o novo primeiro-ministro britânico, foi mais fleumático e ordenou uma redução de 5 por cento de seus salários, apesar do seu salário anual ser de 207.500 libras esterlinas (somando o que lhe cabe como 1°. ministro e como membro do Parlamento) mais do que dobra o do seu homólogo espanhol. Estes dois exemplos são suficientes para caracterizar a filosofia por trás desses programas de ajustamento. Acrescente-se que em nenhum país da UE esta redução de gastos afecta as volumosas despesas do orçamento militar, parte do qual é destinado a financiar guerras imorais e infames como as que estão sendo travadas no Iraque e no Afeganistão. O que se reduzirá será a soma destinada à cooperação internacional. Só no caso espanhol, isto significa uma baixa de 600 milhões de euros, uns 8 por cento do orçamentado anteriormente.
Neste contexto, não deixa de ser surpreendente a conversa telefónica, realizada em 11 de Maio, entre Obama e Zapatero Rodriguez, especialmente quando o primeiro aconselhou a tomar medidas resolutas “para acalmar os mercados.” Esta frase é muito semelhante àquela que no seu tempo pronunciou o ex-presidente Fernando de la Rua, na véspera do colapso da convertibilidade, quando também ele – como Obama agora – afirmava que era necessária e viável “para trazer calma aos mercados.” Na realidade, os mercados são uma instituição em que a tensão, o tumulto e irracionalidade são a norma; além disso, sem se importarem com aquilo que se faça, são gananciosos e querem sempre mais, como eles fizeram saber a De la Rua e a Cavallo, em Dezembro de 2001. 

Nas últimas páginas do primeiro volume de “O Capital”, Marx descreveu com traços vivos a natureza dos capitalistas e dos mercados, dizendo que “o capital sente horror pela ausência de juros …Se os juros são adequados, o capital se torna corajoso (…) aos 20 por cento, será impulsivo, aos 50 por cento se torna temerário; por 100 por cento, espezinhará todas as leis humanas; e por 300 por cento não há crime que o detenha, mesmo que você corra o risco de ser enforcado. “ 
A experiência dos últimos dois anos dá-lhe razão, e a crise está apenas começando a manifestar-se.
Atílio Boron (“El Mundo”, 17/05/2010) 
(*) Nota: vale a pena lembrar que em Portugal, tal categoria de trabalhadores são os “Geração dos 500″, isto é, ganham metade daquilo que ganham os espanhóis. “Geração”, aliás, tornou-se um termo impróprio, pela generalização desse salário mísero a todas as gerações…
Julio Filipe
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