Interpretar o momento (histórico)

do jornal avante

POR SÉRGIO RIBEIRO

Contributo para a transforma��o do mundo

Um dos trechos mais conhecidos de Marx � a sua 11.� tese sobre Feuerbach � �Os fil�sofos t�m apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a quest�o, por�m, � transform�-lo�. Esta �tese� deveria estar sempre presente entre os que se ocupam a interpretar o mundo, a tentar perceber o que vai acontecendo, e porqu�. No entanto, n�o menos importante � que quem tomou o partido de transformar o mundo n�o esque�a que, para bem o transformar, de acordo com o partido que foi tomado, h� que perceber o que se passa, h� que interpretar o mundo.

Confesso ter d�vidas se Marx em 1867, data da edi��o de O Capital (livro primeiro) repetiria, assim, tal qual, o que escrevera em 1845. Mas isto s�o d�vidas minhas e a esclarecer por outras paragens� Quero dizer, por�m, ao come�ar esta reflex�o, que, no momento hist�rico que vivemos, h� que interpretar o que est� a acontecer no mundo.
Uma primeira, e talvez pr�via, preven��o. O momento hist�rico tem limites que v�o muito para al�m dos limites dos humanos, isto �, da dura��o dos momentos � dimens�o dos humanos.
Diria, por isso, que a compreens�o do momento que vivo tem, para mim, as suas ra�zes l� para o fim dos anos 50. O que, para momento, haver� quem considere demasiado tempo, embora eu ache que, historicamente, pouco �, e mais se deva recuar para se chegar ao antes-que-j�-� este momento que vivemos.
Para exemplificar: o que se est� a passar, agora mesmo, a prop�sito dos submarinos e das minhocas que saltam a cada cavadela, das �arquitecturas financeiras� e correlativas �engenharias de interesses� e �artes e manhas� de corrup��o, para-corrup��o e quase-corrup��o, a promiscuidade Estado-privados, pode encontrar-se, qual inf�ncia das tais artes, na cria��o da Siderurgia Nacional.
Ent�o, constituiu-se um cons�rcio germano-belga, em que bancos belgas abriram cr�dito a empresa portuguesa, com aval do Estado, para financiar fornecedores alem�es da instala��o fabril no Seixal. Depois, o pre�o do a�o seria fixado pela empresa e, se o Estado entendesse que o deveria controlar, �a bem da Na��o�, estaria impedido de o fazer pois a empresa lhe diria n�o poder pagar os juros aos bancos belgas, e estes accionariam o aval do Estado.
Ao menos� era para fabricar a�o e n�o para meter coisas enormes a flutuar debaixo de �gua sem se perceber para qu�, mas as ditas �artes e manhas� correlativas, decerto existentes sob formas diversas como contrapartidas e pareceres, n�o eram conhecidas, vasculhadas, �armas� de pol�tica e contra-pol�tica partid�rias.

A internacionaliza��o e os �aparelhos� ou �mecanismos�

Um salto. No tempo. Sem sair do momento.
Quando o processo de integra��o europeia capitalista enveredou pelos alargamentos e, por via destes, em mais que uma velocidade e na divis�o entre Estados-membros com diferentes posi��es (at� geogr�ficas, continentais e insulares anglo-sax�nicas) sobre o processo, o GEM (Grupo de Economia Marxista, belga) editou Contraprojecto para a Europa(1), e uma �ideia quase-nova� que dele retive foi a da no��o de �mecanismo �nico transnacional�(2), que se desenvolvia ao tratar das inter-rela��es entre os estados, as grandes empresas privadas e as estruturas internacionais ou supra-nacionais.
Ent�o com nove estados-membros, as Comunidades Europeias, e todo o sistema capitalista, estavam noutra �encruzilhada�. E se da anterior se sa�ra com o primeiro alargamento, para as seguintes o relat�rio Tindemans foi documento esclarecedor e decisivo.
Brevemente: um n�cleo super-integrado e uma periferia, logo com a Gr�cia, e Portugal e a Espanha (a juntar ao Sul da It�lia, ao Norte da Inglaterra e � Irlanda, mais tarde com os escandinavos e a orla Leste a recuperar da �experi�ncia socialista�, num todo a configurar uma diversificada coroa perif�rica a que nem vir� a faltar, talvez, a Turquia e pa�ses do Norte de �frica).
O que convergiria com a via do federalismo sob comando do n�cleo superintegrado, para que o primeiro passo foi o das elei��es directas, t�mido porque em cada Estado, para um Parlamento Europeu at� ent�o emana��o dos parlamentos nacionais.
Assim como convergiria, na globalidade capitalista e viragem dos anos 70 para os 80, com o liberalismo econ�mico, sepultando keynesianismos, a financeiriza��o e a passagem do equil�brio da �guerra fria� para infiltra��o nos e absor��o dos pa�ses socialistas.

Globaliza��o ou capitalismo em fase de �aldeia-mundo�

Em leitura pessoal, dois livros do meio da d�cada de 90 balizam a procura de perceber o momento. Hist�rico, repita-se.
At� por serem livros �de informa��o� que n�o se pretendem nem cient�ficos nem rever na dita ortodoxia marxista. S�o eles A �Aldeia-Mundo� e o seu Castelo (ensaio contra o FMI, a OMC e o Banco Mundial), de Philippe Paraire, e O horror econ�mico, de Viviane Forrestier(3). A que talvez se pudesse juntar livros de G�rard de Sellys, sobretudo Priv� de public, que relata, jornalisticamente, o assalto privatizador ao servi�o p�blico das comunica��es para aproveitamento capital�stico do �casamento� do telefone com a inform�tica e a televis�o.
No entanto, para estas reflex�es e na inten��o de apenas referir o que ficou retido de leituras que acompanharam o viver da realidade, apenas retenho informa��es que ajudavam a perceber as transforma��es resultantes da cria��o da Organiza��o Mundial do Com�rcio, a juntar �s �inven��es� de Bretton Woods � FMI e BM �, na consolida��o, sem constrangimentos a n�vel de Estados e sistemas, dos mecanismos e aparelhos transnacionais do capitalismo, ali�s como resposta de classe ao desenvolvimento das for�as produtivas.
A outro n�vel, superestrutural, anoto a radicaliza��o ideol�gica do liberalismo, aparentemente pujante mas mergulhado a fundo nas suas contradi��es, privatizando o suscept�vel de dar lucro, e arrasando o n�o ��til� por n�o dar lucro ao lucro� E tudo a passar pela desvaloriza��o do trabalho (vivo), pelo emprego/desemprego, pelo recurso � utiliza��o da forma dinheiro do capital, fict�cia, simb�lica, especulativa, em detrimento das formas mercadoria e produtiva, como rela��o social que �.

O euro, o cr�dito� e o descr�dito

Depois de Maastrich ter sido trampolim, em cujo salto se insistiu at� projectar a Uni�o Econ�mica e Monet�ria e a Uni�o Pol�tica numa Uni�o Europeia, nas novas e forjadas condi��es planet�rias, o abandono da coes�o econ�mica e social e objectivo da converg�ncia era iner�ncia � cria��o da moeda �nica (e do Banco Central Europeu) e, depois, � acelera��o para a federa��o pol�tica e a militariza��o .
A posi��o tomada pelo PCP nesse passo do processo, se isolada no leque partid�rio, encontra agora muitos �parceiros�. Muito mais que a vangl�ria da raz�o a posteriori dir-se-� que os que hoje parecem falar como n�s h� quase d�cada e meia ent�o n�o tinham raz�o (ao menos t�cnica, �neutral�), nem agora a passaram a ter porque, se se confirma estar a acontecer o que foi previsto e prevenido, n�o � isso que os faz transformar o rumo das pol�ticas. Estas s�o de classe, e agudizam as contradi��es que o funcionamento da economia capitalista engendra.
Portugal, o Estado-membro mais obediente, foi o mais prejudicado pela introdu��o do euro no circuito econ�mico. N�o por culpa do instrumento mas da maneira como foi criado e ao servi�o de que interesses. Financeiros e transnacionais.
Porque contribuiu para o desaproveitamento de recursos (como do mar), porque serviu para �embarcar� na sobrevaloriza��o da moeda enquanto se perdia a �arma cambial�, do que derivou grande desfavor para as actividades de exporta��o, porque veio favorecer os pa�ses de que Portugal importava, porque serviu para beneficiar os turistas e para prejudicar o turismo, porque refor�ou o mau uso dos fundos comunit�rios, porque trouxe (pelo BCE) o cr�dito f�cil e barato para compensar o est�mulo ao consumismo e a quebra de poder de compra dos sal�rios at� ao endividamento inultrapass�vel. Porque, sempre ao servi�o do capital financeiro em detrimento da economia real, aqui, neste pa�s poss�vel, nos tornou mais e mais dependente.
Ontem, escreveu-se que assim seria (por exemplo, em N�o � moeda �nica � um contributo(4); hoje, confirma-se que assim foi� mas esconde-se que, ontem, assim foi previsto e prevenido. Porque n�o pode ser reconhecido que as an�lises que levavam a que assim se previsse e prevenisse s�o as mesmas que exigem rupturas com as pol�ticas que se quer prosseguir. Porque s�o estas que, apesar da agudiza��o das contradi��es, servem o capital financeiro e, nesta fase do momento hist�rico, n�o descortinam for�a capaz de as contrariar.

O desnorte e o cerne da quest�o

O facto � que o desnorte � grande e, para al�m das contradi��es, a fric��o inter(e intra) imperialista existe e agrava-se. Falar de situa��es, como a sa�da de alguns pa�ses do euro, que seria impens�vel ver encaradas (e por quem), come�ou a ser letra impressa ou palavra dita.
Mas a rela��o de for�as sociais (de classe) n�o � est�vel e muito menos estagnada. As condi��es objectivas em que se vive, e como aqui se chegou, come�am a ser t�o evidentes que a manipula��o da informa��o � que, hoje, substitui a censura � tem os seus limites. E a tomada de consci�ncia ganha for�a e ser� determinante.
Nesta fase do momento hist�rico, o recurso ao dinheiro em todas as suas formas, desligadas de base material, da economia real (das coisas!), n�o pode anular leis como a da baixa tendencial da taxa de lucro. Porque o trabalho cristalizado � cada vez mais importante relativamente ao trabalho vivo na composi��o org�nica do capital produtivo.
E o cerne das quest�es n�o deixar� de estar, nas condi��es particulares de cada fase do momento, na rela��o social que define o capitalismo, entre os propriet�rios dos meios de produ��o e os assalariados que s�o sua cria��o, sendo a apropria��o de mais-valia o seu alimento vital.
____________
(1) � em portugu�s, na Editorial Estampa, 1982 (Du Monde Entier, 1979)

(2) � �� Trata-se, brevemente, dum conjunto sistem�tico, de interconex�es entre as engrenagens do Estado, as para-estatais, etc., e o mundo dos neg�cios��

(3) � em portugu�s, nas edi��es avante!, 1998 Le Temps des Cerises, 1995) e Terramar, 1997 (Fayard, 1996)

(IV) � edi��es avante!, 1977

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s