Os bancos são proprietários do Congresso dos EUA

do site opera mundi

Uma sociedade que não percebe os sinais de sua própria decadência, porque sua ideologia é um mito contínuo de progresso, separa-se da realidade e se enreda na ilusão. Um critério segundo o qual é possível calibrar a decadência da vida cultural, política e econômica nos Estados Unidos é responder a seguinte pergunta: as forças do poder econômico, que fracassaram de forma evidente, tornaram-se mais fortes depois que os danos amplamente conhecidos que causaram converteram-se em um tema de domínio público?

A deterioração econômica é generalizada, o desemprego, as execuções de hipotecas, a exportação de empregos, a dívida dos consumidores, o desgaste das aposentadorias e a infraestrutura deteriorada estão muito bem documentadas. A autodestruição dos gigantes financeiros de Wall Street, com seus saques e desaparecimentos de bilhões de dólares de outras pessoas, são manchetes na imprensa há dois anos. Durante e depois das gigantescas operações de socorro por parte de Washington, os bancos e seus aliados ainda são a força mais poderosa na determinação da natureza das leis corretivas propostas para superar a crise.

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“Os bancos se apoderaram deste lugar”, diz o senador Richard Durbin (democrata por Illinois), evocando a opinião de muitos membros do abúlico Congresso dispostos a aprovar só uma débil legislação para proteger o consumidor e o investidor, enquanto permitem o domínio dos cada vez menos e maiores grandes bancos.

Quem já não se deparou com os erros e a unilateral letra pequena da indústria dos cartões de crédito? Um projeto de reforma legal finalmente foi aprovado após anos de demora, mas de novo resulta débil e incompleto. Indiferentes diante de suas extorsões, as empresas já têm seus advogados trabalhando em esquemas para evitar o aperto moderado da lei.

A indústria dos medicamentos e da saúde, um enxame com milhares de ramificações, tem mais ou menos o que queria com a nova lei da saúde. As seguradoras têm milhões de novos clientes subsidiados com centenas de bilhões de dólares dos contribuintes e com muito pouca regulação. As companhias farmacêuticas saíram triunfantes: a não importação de remédios similares mais baratos, nenhuma autoridade do Tio Sam para negociar descontos de preços e uma muito proveitosa extensão do monopólio de proteção de patentes sobre os fármacos biológicos contra a competição dos genéricos mais baratos.

Apesar de todas suas fraudes, apesar de todas suas exclusões, suas negativas às reclamações, suas restrições de benefícios e aumentos horrendos de preços, as duas indústrias saíram mais reforçadas do que nunca tanto econômica como politicamente. Não é de se estranhar que suas ações estejam subindo inclusive na recessão. A indústria processadora de fast food – na defensiva ultimamente em razão de alguns excelentes documentários e importantes revelações – é ainda um dos poderes mais influentes no Capitólio, conseguindo retardar durante anos uma lei de segurança alimentar decente e fazer uso de impostos para bombear graxa, açúcar e sal para os estômagos de nossas crianças, além de lutar contra mecanismos pertinentes de controle. Os alimentos contaminados nos EUA causam mais de sete mil mortes por ano, além de milhões de pessoas doentes.

As companhias de petróleo, gás, carvão e de energia nuclear estão tirando a pele dos consumidores e contribuintes, esgotando e colocando em risco o meio ambiente, e bloqueando a aprovação de uma legislação racional no Congresso para substituir o carvão e o urânio por energias renováveis com tecnologias de eficiência energética. Inclusive agora, após anos de aumentos de custos, prejuízos e ausência de armazenamento permanente de resíduos radioativos, a indústria nuclear pressiona o presidente Obama (como fez antes com Bush) por dezenas de bilhões de dólares em empréstimos dos contribuintes para novas centrais nucleares. Wall Street não financiará uma tecnologia tão arriscada sem vocês, os contribuintes, como garantia contra qualquer acidente ou falha. Democratas e republicanos fecham os olhos para esses ultrajantes riscos financeiros e de segurança para os contribuintes.

O Congresso, que recebe a parte principal desta pressão corporativa – a raiz do dinheiro e o tronco dos desafios financeiros correspondentes -, é mais do que nunca um obstáculo para qualquer mudança. No passado, após importantes fracassos da indústria e do comércio, existiu uma maior possibilidade de ação por parte do Congresso. Recorde-se o desmoronamento bancário e de Wall Street nos primeiros anos da década de 30 do século passado. O Congresso e Franklin Delano Roosevelt confeccionaram uma legislação que salvou os bancos, a poupança da população e regulou o mercado de valores.

Desde que apareceu meu livro Inseguro a qualquer velocidade: os perigos do desenho do automóvel americano, publicado em novembro de 1965, levou exatamente nove meses para o governo federal regular a poderosa indústria automobilística sobre a segurança e a eficiência do combustível. Comparemos esse fato com os dois anos de atraso, após a falência do Bear Stearns, em criar alguma legislação de controle.

No entanto, é quase impossível desalojar os entrincheirados membros do Congresso, responsáveis por essa paralisação assombrosa, mesmo quando as pesquisas mostram sua reputação mais baixa do que nunca. É um lugar onde a maioria está aterrorizada pelas empresas e a minoria pode bloquear inclusive os esforços legislativos mais anêmicos com regras arcaicas, especialmente no Senado.

Culturalmente, os canários nesta mina de carvão são as crianças. A infância foi comercializada pelos gigantes do marketing que busca chegar nela a todo momento com sua comida-lixo, com programas violentos, videogames e má medicina. O resultado é a obesidade recorde, a diabete infantil e outras doenças. Ao mesmo tempo em que destroem a autoridade dos pais, as companhias riem no caminho ao banco, utilizando nosso espaço radioelétrico, entre outros meios de comunicação, para aumentar seus lucros. Podem ser descritos como abusadores eletrônicos de crianças.

Em 1996, publicamos um livro intitulado Children First!: A Parent’s Guide to Tighting Corporate Predators in the Media (Crianças primeiro: um guia para os pais lutarem contra as corporações predadoras nos meios de comunicação). Esse livro subestima o problema visto o agravamento da manipulação da infância nos dias de hoje.

24 horas por dia, 7 dias por semana, em uma sociedade freneticamente entretida com mordidas sonoras, Blackberries, iPods, mensagens de texto e correios eletrônicos, existe uma profunda necessidade de reflexão e introspecção. Temos que discutir cara a cara em salões, auditórios escolares, praças populares e assembléias urbanas que está acontecendo conosco e o que está ocorrendo com nossos minguantes processos democráticos em função das pressões e controles do insaciável Estado corporativo. E sobre o que deve ser feito nos espaços públicos, com a apresentação de novos modelos, novas responsabilidades e novas idéias. Nossa história já nos mostrou que vivemos melhor em todas as frentes quando estamos mais comprometidos e cuidadosos.

*Ralph Nader é advogado, escritor, ex-candidato à presidência dos EUA e seu último livro é a novela Only the Super-Rich Can Save Us!. Artigo originalmente publicado na Carta Maior

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