“Parceria para as Américas”

EUA já têm 200 agentes em atuação no Brasil

fonte: Jornal O Globo 01.04.2010 [http://www.oglobodigital.com.br/flip/index.php?ran=orfmV2XBVmQWjap6vYWQ42a18RlTzT4cdTW9d3KHo29rEWgPKW]

Os EUA, que já têm 200 agentes do FBI, da DEA (agência de combate ao tráfico) e de outras instituições de segurança atuando no Brasil, poderão aumentar sua presença, por iniciativa do governo brasileiro, que estuda a criação de uma força tarefa internacional nos moldes da que já existe em Key West (Flórida). A ideia foi apresentada ao chefe do Comando Sul do Pentágono, Douglas Fraser.

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Parceria ampliada
PF e Marinha estudam criar central de inteligência com participação de EUA e outros países

jailton de Carvalho

BRASÍLIA

 A criação, no Rio de Janeiro, de uma força-tarefa internacional de combate ao narcotráfico, tráfico de armas, contrabando, evasão de divisas e imigração legal está sendo avaliada pela Polícia Federal e pela Marinha. A base de serviços de inteligência para investigar crimes de âmbito internacional deve acolher oficiais de ligação dos Estados Unidos e de outros países interessados, por iniciativa brasileira. A proposta tem como modelo a força-tarefa de Key West, nos Estados Unidos, e outra, nos mesmos moldes, em Lisboa.

A ideia da base conjunta com representante de outros países foi apresentada pelo diretor da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa, ao comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, brigadeiro Douglas Fraser, na terça-feira, em Brasília. Os Estados Unidos já têm aproximadamente 200 oficiais de ligação no Brasil. São representantes do FBI, do DEA (agência de combate ao narcotráfico) e de outras instituições policiais e de segurança americanas em atividade no país.

Segundo um dos auxiliares de Corrêa, o brigadeiro gostou da proposta.

Fraser confirmou a conversa, mas não quis fazer comentários. Segundo um assessor da embaixada, a reserva é necessária, já que a iniciativa é de autoridades brasileiras, e não americanas.

 Repressão a crimes transnacionais

O grupo começou os estudos no início do ano e ainda não há prazo para a conclusão do trabalho. A proposta precisa ainda ser aprovada pelo governo.

Pelos planos iniciais da Polícia Federal, a base contará com representantes das Forças Armadas, da Força Nacional, da Receita Federal e do Sistema de Proteção da Amazônia, entre outras instituições encarregadas de atuar na proteção da fronteira. Para a PF, a proximidade física com agentes de outros países ampliará a cooperação entre os órgãos brasileiros e estrangeiros e, a partir daí, facilitará o combate a crimes transnacionais.

Hoje a Polícia Federal já mantém um agente em Key West e planeja mandar outro para Lisboa. Para a PF, a base deve funcionar no Rio porque é o estado de maior presença da Marinha.

A localização permitiria a atuação da força-tarefa nos portos brasileiros e até na repressão a navios piratas em águas brasileiras, caso criminosos que atuam hoje na costa africana tentassem se expandir em direção ao país.

A base, com fortes conexões internacionais, seria uma forma de o país se prevenir contra crimes desta natureza.

Fraser também esteve, na terçafeira, com o ministro da Defesa, Nelson Jobim. O ministro falou sobre a reestruturação a partir do projeto de lei complementar 97, em tramitação no Congresso Nacional. O projeto prevê a ampliação dos poderes de polícia das Forças Armadas na áreas de fronteira, diante da reduzida presença de policiais nestas áreas. Os dois também fizeram um balanço da situação no Haiti.

Fraser disse que é importante que Brasil e EUA continuem trabalhando juntos para apoiar a Minustah (força de paz da ONU), sob o comando brasileiro, na reconstrução do Haiti.

— A Minustah está fazendo um grande trabalho, mas, por causa da catástrofe, o esforço internacional teve que ser ampliado.

COLABOROU Fernanda Godoy

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 ‘O tráfico não respeita fronteiras’

Chefe do Comando Sul do Pentágono diz que países precisam compartilhar informações

Douglas Fraser:  Parceria, cooperação, compartilhamento.

Estas são as palavras que se destacam na fala do chefe do Comando Sul do Pentágono, brigadeiro Douglas Fraser, que encerrou ontem, com uma palestra na Escola Superior de Guerra, uma visita de dois dias ao Brasil, na qual discutiu parcerias com o Ministério da Defesa e a Polícia Federal. “Estamos tentando reforçar essas parcerias (com vários países) porque temos de tratar desse problema sob uma perspectiva regional, e não país por país. Traficantes não respeitam fronteiras”, disse Fraser, em entrevista ao GLOBO. Entre as ações de trabalho coordenado, ele destaca a força-tarefa dos EUA baseada em Key West (Flórida), com representantes de 14 países, inclusive o Brasil. “É um trabalho de compartilhamento de informação.

Esta é a abordagem com a qual queremos trabalhar em toda a região”, diz o comandante, no cargo há nove meses. A exposição fluente e articulada do comandante só emperra em hesitações reveladoras de uma escolha mais cuidadosa de palavras quando o tema é a Venezuela. “Sou pago para ser cético”, afirma .

 Fernanda Godoy
 

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O GLOBO: O lema do Comando Sul é “parceria para as Américas”. Que dificuldades o senhor tem encontrado em passar essa mensagem, tendo em vista que, na América Latina, muitos veem os EUA como um poder que se impõe aos demais, e não como parceiro? 
DOUGLAS FRASER: Eu sinto que isso existe, mas nós, militares, em toda a região, temos muito boas relações com todos os países, com exceção da Venezuela e da Bolívia, e por escolha deles, não nossa. Nós os convidamos para conferências, para exercícios de treinamento, e eles escolheram não participar. Mas com todos os outros países temos excelentes relações, e acho que nossos esforços conjuntos no Haiti confirmam isso.

Os EUA têm uma parceria especial com a Colômbia, que enfrentará eleições presidenciais ainda diante do desafio das Farc. Como o senhor vê a situação do país? 
FRASER: Nós temos apoiado os esforços da Colômbia há anos. Nos últimos dez anos, os EUA investiram cerca de US$ 5 bilhões. Esse apoio tem se dado basicamente em treinamento e monitoramento. E com um número pequeno de tropas; temos restrições do Congresso que limitam esse número a 800 militares e 600 civis, e nunca chegamos a esse limite. A Colômbia tem tido muito sucesso em reduzir a violência e o poder das Farc.
As Farc foram debilitadas, mas ainda são atuantes. Agora mesmo o Brasil ajudou na libertação de um refém mantido em cativeiro por 12 anos. Isso é o que precisamos fazer: trabalhar juntos para reduzir a violência.

Há uma preocupação com as relações entre movimentos como as Farc, o narcotráfico e extremistas? 
FRASER: Minha maior preocupação, ao olhar toda a América Latina, não é com questões militares convencionais.
O que me preocupa é o impacto do tráfico ilícito em toda a região. Tráfico de drogas, de armas, de seres humanos; tudo o que é ilícito leva à instabilidade, à insegurança na região. A Colômbia é um bom exemplo. À medida que a Colômbia teve mais sucesso no combate ao narcotráfico, ele migrou para outras áreas.

Como o México? 
FRASER: Como o México, como a América Central. A violência e os assassinatos cresceram 80% no Panamá no ano passado. A criminalidade na Guatemala, em El Salvador e em Honduras é oito vezes a média mundial. Nós fornecemos monitoramento do tráfego marítimo, atuando em conjunto com as polícias desses países. Estamos tentando reforçar essas parcerias porque temos de tratar desse problema sob uma perspectiva regional, e não país por país. Traficantes não respeitam fronteiras.

O senhor discutiu esse tipo de cooperação com o Brasil também? 
FRASER: Nós discutimos isso com todos os comandantes militares, mas estamos focados na parte naval. O Brasil é o responsável pelo Brasil. O importante são as conexões, ver como os traficantes se movimentam da Colômbia, do Peru, para o Brasil, a Argentina ou através do Caribe, a questão é ligar os pontos. E só podemos fazer isso trabalhando juntos e compartilhando informação. Nosso melhor exemplo, nos EUA e na região, é a Joint Inter Agency Task Force (força-tarefa integrada por diversas agências do governo): uma organização com base em Key West (Flórida) que atua sob o meu comando e reúne militares, polícia, Guarda Costeira. Eles combinam autoridades e capacidades diferentes para trabalharem juntos na redução do tráfico no Caribe e no Pacífico. Nós temos oficiais de ligação de 14 países.
O Brasil tem adidos da Marinha e da Polícia Federal. É um trabalho de compartilhamento de informação, que inclui países europeus, porque o tráfico de drogas também se dirige à Europa e ao Oriente Médio. Esta é a abordagem com a qual queremos trabalhar em toda a região. Não tem de ser nos EUA, basta que a informação circule com eficiência.A reinstalação da Quarta Frota gerou preocupações no continente.

Como o senhor explica a função dela, e como ela se encaixa nesse contexto de segurança regional? 
FRASER: A Quarta Frota é um QG (quartel-general) administrativo.
Sob o Comando Sul, há tropas de cada uma das Forças Armadas dos EUA. A Quarta Frota é uma unidade administrativa que nos permite requisitar e controlar navios da Marinha quando há necessidade. Rotineiramente, ela não tem barcos designados. Eles são designados para missões. O Haiti é um ótimo exemplo. A Quarta Frota deu grande apoio ao Haiti após o terremoto.

Ela pode ser usada para patrulhamento? 
FRASER: Depende da natureza da operação. Não temos foco em patrulhamento da costa. Isso é responsabilidade de cada país.

Outra questão delicada para os EUA é o aumento da influência do Irã e da China na região, não? 
FRASER: Grande parte da atuação desses países é focada nas áreas comercial e política. Isso é normal e não me preocupa. Quanto ao Irã, minha preocupação é que não há exigência de visto para iranianos na Venezuela. Por causa das conexões do Irã com grupos extremistas, vejo aí uma oportunidade. Não vejo evidências, mas vejo uma oportunidade.
E sou pago para ser cético.

O senhor disse recentemente que a Venezuela é uma força desestabilizadora na região. O senhor se referia ao aspecto político ou ao militar? 
FRASER: Não vejo um problema militar convencional. É mais um problema político, por não enxergar um compromisso da Venezuela com os valores democráticos do continente.
Isso tem um efeito desestabilizador sobre as instituições democráticas dentro da região.

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