José Reinaldo: O desafio é falar claro para as amplas massas

 do portal do PCdoB

Desde a última reunião do Comitê Central, o jornalista e dirigente José Reinaldo Carvalho assume novas funções: ele é o Secretário Nacional de Comunicação do PCdoB e editor do Portal Vermelho.

Nesta entrevista ele fala do desafio que consiste em colocar as ferramentas de comunicação do partido a serviço de sua histórica política aglutinadora de frente única, de um jornalismo democrático, popular, patriótico e da propagação articulada da mensagem do Partido e dos aliados.

Por José Carlos Ruy 

José Reinaldo: Comunicação tem a responsabilidade de ser porta-voz do Partido

Partido Vivo: Após muitos anos como responsável pelas Relações Internacionais do PCdoB, você está de volta às origens, aos veículos de comunicação do Partido, como secretário de Comunicação e editor responsável pela publicação do portal Vermelho. Qual o significado desse novo momento?

José Reinaldo Carvalho: Pois bem, estou de volta, com entusiasmo, à velha e boa “agitação e propaganda” — como qualificávamos antes o sistema de comunicação dos comunistas. De fato, atuei intensamente nos veículos da imprensa partidária, como diretor e editor d’A Classe Operária, o nosso órgão central, editor da revista Princípios, sob a liderança do camarada João Amazonas, e responsável pela redação e edição de documentos da direção nacional, também sob a inspiração do camarada Amazonas, de quem fui colaborador próximo. A rigor, nunca me afastei do trabalho de “agitação e propaganda”, pois na condição de secretário de Relações Internacionais foi intensa a minha atividade como redator e conferencista. Foi nessa condição que publiquei inúmeros artigos, ensaios e livros sobre política internacional. De modo que me sinto à vontade e desafiado, compreendendo que hoje são inéditas e maiores as exigências, num patamar que desvenda desafios de nova qualidade. Eu os assumo com o mais elevado respeito e admiração pelos meus antecessores imediatos, com quem muito aprendemos: os camaradas Pedro Oliveira, Altamiro Borges e Bernardo Jofilly, este último o pioneiro do Vermelho. Mas, como diz o poeta, “com a certeza na frente e a História na mão”, e lembrando como êmulos, além do já citado João Amazonas, outros inesquecíveis camaradas que dirigiram a agitação e propaganda do Partido ou nela atuaram, a exemplo de Maurício Grabois, Carlos Danielli, Pedro Pomar, Rogério Lustosa, entre outras referências. E deve-se destacar: contando com o coletivo que já atua na área, formado por militantes lúcidos, dedicados e profissionais competentes, empenharei o melhor das energias para corresponder à confiança depositada pelo Partido. O mais importante é que o fio vermelho que vem sendo tecido de há muito continue se movimentando no seu incessante tear.

Partido Vivo: A quais desafios você se refere essencialmente?

JRC: Na sua tessitura fundamental, a Comunicação tem a enorme responsabilidade de ser porta-voz do Partido, de difundir em larga escala, para as amplas massas do nosso povo a sua propositiva mensagem de esperança e luta nas transformações necessárias ao advento de uma nova sociedade, em sintonia com a realidade concreta e sem artificialismos nem tergiversações. Sem perder a plasticidade nem a amplitude, é necessário transmitir essa mensagem com clareza e frontalidade. Trata-se de, em conjunto com a direção coletiva liderada pelo camarada Renato Rabelo, e em sinergia com todas as áreas da atividade partidária – transmitir de maneira viva e clara as grandes ideias-força que conformam o arcabouço político, ideológico e revolucionário do nosso Partido. E, bem claro, um arcabouço revolucionário não somente porque repele ideias de acomodação a uma ordem injusta, caduca e opressiva, mas porque somente vê perspectivas de saída para este quadro anacrônico nas transformações necessárias ao bem-estar, prosperidade e inserção altiva, soberana e digna do País e de seu povo numa ordem mundial conflitiva e em processo de rearrumação.

Partido Vivo: Em que consiste a materialização deste pensamento?

JRC: Nisso devemos enfatizar aspectos ideológicos e políticos. O Partido Comunista do Brasil tem uma identidade: trata-se da organização política dos comunistas que luta pelo socialismo no Brasil e no mundo, um partido de classe, das amplas massas trabalhadoras e demais camadas populares que formam o povo brasileiro, que potencialmente reúna a atenção e as esperanças de todo o contingente dos que se encontram em maioria e em contradição antagônica com o sistema capitalista, um partido patriótico e internacionalista, portador e veiculador de uma ideologia e de uma teoria de interpretação e transformação do mundo — o socialismo científico, o marxismo-leninismo, doutrina sempre jovem, com seu método dialético de apreensão e transformação da realidade, em constante renovação, que não se esgota nas formulações dos seus fundadores e se atualiza no prumo revolucionário. O Partido acaba de aprovar um novo Programa, que sintetiza toda uma linha política e aponta as tarefas da luta patriótica, democrática e popular, pelo socialismo na etapa em curso. E que, com amplitude e flexibilidade, responde às exigências da inserção dos comunistas no leito natural das batalhas políticas da atualidade no Brasil e no mundo.

Partido Vivo: A crise do socialismo no Leste Europeu, ocorrida há 20 anos, não comprometeu a identidade comunista?

 JRC: Tanto a noção de Partido Comunista quanto a de ideologia, de um modo genérico, sofrem contestações de toda a ordem. Tornou-se lugar comum a disseminação da equivocada premissa de que, desde então, inexistem esquerda e direita, náufragos de um emergente surto político. Nessa onda de equívocos, o liquidacionismo que campeou no movimento comunista e entre as esquerdas em sentido mais amplo, quando ocorreu a contra-revolução dos anos 1989 – 1991, apregoava o “esgotamento da forma-partido” e o “fim das ideologias”. Entretanto, a agitação e a propaganda do Partido não devem ser defensivas nem subordinadas quanto ao exame dessas questões. Devemos encetar a luta política e ideológica com clareza e frontalidade, em amplíssima e firme defesa da ideologia partidária e de seu lugar na vida política.

Partido Vivo: Voltando à questão anterior, você se referia a aspectos ideológicos e políticos…

JRC: Pois é. O outro aspecto essencial é a clareza quanto à mensagem política do Partido Comunista. O referido Programa — o Programa Socialista do PCdoB, ao qual designamos “o caminho para o socialismo no Brasil” — aprovado em seu 12º Congresso, em novembro do ano passado, é um instrumento dessa política que afirma um novo tempo de rupturas. Requer a propagação, com o máximo de lucidez, pedagogia e criatividade, das suas ideias: a luta anti-imperialista e antioligárquica; a plataforma em defesa da soberania nacional, denominada Projeto Nacional de Desenvolvimento; e a plataforma de reformas estruturais, em que se encontram sintetizadas, em elevado nível de formulação, as lutas patrióticas, democráticas e sociais do povo brasileiro na atual fase de desenvolvimento da luta pelo socialismo em nosso País. Também aqui há que se ter firmeza, didática, clareza e frontalidade no enfrentamento do dogmatismo, do sectarismo, do liberalismo e do oportunismo, de direita ou “de esquerda”. Há ainda uma terceira ordem de questões no esforço para vincar as ideias-força que formam o arcabouço político-ideológico do PCdoB, que se relaciona à tática geral e às tarefas políticas centrais da conjuntura. Aqui igualmente não há nem pode haver espaço para titubeios ou tergiversações e a mensagem deve ser a mais cristalina possível. O Partido luta para continuar e aprofundar as mudanças ocorridas em nosso país desde a primeira eleição do presidente Lula, em 2002. Com opiniões próprias, com diferenciações, mas sem perder o rumo geral, sob a compreensão de que vivemos um momento de transição e de acumulação de forças, o governo Lula desempenha papel progressivo, uma vez que escolheu o lado da nação e do povo e pode ser influenciado pela crescente luta e pressão das massas, que buscam preservá-lo de recuos e vacilações e impulsioná-lo rumo a novos avanços quanto às políticas interna e externa, buscando a ruptura com as políticas macroeconômicas que privilegiam o rentismo em prejuízo do indispensável impulso ao incremento do desenvolvimento nacional com progresso social e valorização do trabalho. É preciso saber combinar, na agitação e propaganda, tal como na luta política cotidiana, a tática e a estratégia, a intervenção no quadro político conjuntural das forças reunidas nos movimentos patrióticos e populares e o rumo revolucionário. Nessa perspectiva, o Portal Vermelho é um forte elemento aglutinador do movimento unido do povo brasileiro pelas transformações requeridas em nosso País. Partido Vivo: A comunicação significa hoje um campo de batalha decisivo não só da luta de ideias, mas, sobretudo da luta política, quando a grande mídia transformou-se numa espécie de partido conservador que defende as teses dos setores mais reacionários da sociedade. Como você encara o papel que os comunistas e sua mídia podem desempenhar nessa batalha? JRC: Entre os patriotas de relevante vulto no panteão dos brasileiros notáveis por sua inabalável firmeza, o saudoso Leonel Brizola dizia, muito antes da contra-revolução de 1989, que a grande mídia era “o partido único das classes dominantes”. Esse comitê de algumas famílias conservadoras submerso em graves contradições é hoje a principal arma de difusão do pensamento, das opiniões e da linha política do imperialismo e das classes dominantes — ainda aferradas ao monopólio da propriedade territorial, entre outros obstáculos ao pleno desenvolvimento das nossas potencialidades produtivas, atribuindo, por exemplo ao MST as mazelas de uma chocante realidade. Os grandes meios de comunicação são os arautos do conservadorismo, do neoliberalismo, do militarismo e do belicismo das forças que se encontram no centro hegemônico do poder no mundo contemporâneo. Nesse sentido são cúmplices dos crimes que tais forças cometem, a exemplo dos genocídios na ex-Iugoslávia, no Iraque, no Líbano, na Palestina, no Afeganistão e nos quatro cantos do mundo. O incremento dessa política belicista e de agressão aos povos, monitorada pelos “falcões” do imperialismo, mobiliza imensos recursos financeiros e técnicos e corrompe grande número de porta-vozes por toda parte. No paroxismo dessa missão, essa mídia mente, calunia, difama, deforma, tergiversa, desinforma e, conforme o caso e de acordo com suas possibilidades, investe contra os regimes democráticos e os movimentos sociais. Por isso foi “batizada” como PIG (Partido da Imprensa Golpista), expressão largamente divulgada pelo brilhante jornalista Paulo Henrique Amorim. A mídia do nosso Partido, e de outras forças de esquerda no Brasil e no mundo, conta com poucos recursos financeiros, técnicos e profissionais. No entanto dispõe, como já assinalei, das imensas perspectivas contidas na crescente democratização das informações em sua missão fundamental de falar às amplas massas, com clareza e veracidade.

Partido Vivo: Que perspectivas você vê para os veículos de comunicação do Partido e para a Classe Operária que, nos últimos anos, foi motivo de muito debate e experiências, e passou por mudanças significativas… E o Portal Vermelho?

 JRC: As mais amplas, saudáveis e promissoras possibilidades, desde que saibamos basear-nos e conduzir-nos fundamentalmente na justa, correta e dialética linha política de frente única do Partido, na força das suas ideias e da nossa militância orgânica e dos seus quadros, na nossa capacidade de mobilizar amigos e aliados. Da habilidade quanto ao uso dos meios disponíveis, ao nosso alcance. Ao longo da história, nossa imprensa passou por diferentes fases. O órgão central do Partido, que no próximo Primeiro de Maio completará 85 anos, permanece vivo e atuante, depois de ter enfrentado a repressão e a vida clandestina, além das imensas dificuldades materiais. Trata-se de superar suas dificuldades e fazê-lo adquirir uma vitalidade compatível com os desafios contemporâneos postos para a comunicação orgânica e de massas dos comunistas. Seu papel repõe como nosso dever o de indicar com precisão e justeza qual o lugar que deve ocupar na vida partidária e no trabalho de comunicação na época atual. Desde logo dizemos: não estamos plenamente satisfeitos, pois a Classe pode significar mais e oferecer mais ao Partido e ser melhor utilizada pelos comunistas. Temos o desafio também de penetrar com maior eficiência, eficácia e impacto, mediante a nossa influência, da nossa militância às nossas lideranças e autoridades investidas na estrutura pública, nos grandes meios de comunicação de massas, assim como nos meios alternativos das rádios e tevês comunitárias. Além disso, devemos qualificar a nossa presença no horário político gratuito, ao qual temos direito pelo menos duas vezes por ano. O Vermelho é uma arma poderosíssima, que se encontra ao nosso alcance e de uma base progressivamente mais extensa de comunistas que têm acesso aos produtos da revolução tecnológica – que hoje incorpora crescentes setores da sociedade, dos estudantes ao povo trabalhador, passando pela intelectualidade e seus formadores de opinião. O portal Vermelho soube desde o início beneficiar-se dessa revolução tecnológica, que apresenta como um de seus mais importantes produtos, na área da comunicação, a internet. Aqui também não devemos ser auto-indulgentes; não nos darmos por satisfeitos e exigirmo-nos mais. Os comunistas devem apropriar-se cada vez mais das ferramentas que tal revolução enseja, instruir-se e qualificar-se ao máximo no seu uso, sem perder a perspectiva do jornalismo militante e vivo, disponibilizando tais ferramentas a serviço do jornalismo democrático, popular, patriótico, enfim da difusão da mensagem do Partido e dos aliados. O Vermelho — nele compreendidos a Rádio e a TV Vermelho, o Partido Vivo e os cadernos estaduais — deve gerar cada vez mais conteúdos próprios, tornando sempre nítida a nossa mensagem política e ideológica, com vivacidade, dinamismo e elevado nível estético. Para termos êxito, devemos esforçar-nos para dominar plenamente e usar ilimitadamente as possibilidades da internet. Aí se absorve a ubiquidade, a instantaneidade, a interatividade, a conectividade social, os chamados hiper-textos e hiper-links, os recursos multimídia e o relacionamento com a produção independente e alternativa. Esta hoje se expressa através da imensa rede de blogues, mini-blogues, páginas, portais etc., seus protagonistas e sua audiência, atraindo-os para as nossas relações políticas de afinidade e unidade quanto às transformações políticas e sociais.

Partido Vivo: Que interfaces há entre os veículos de comunicação do Partido e a área internacional?

JRC: Há interfaces plenas desses veículos não apenas com todas as áreas de atuação do Partido, mas com intensa ênfase na nossa política voltada para o movimento comunista e anti-imperialista mundial. Nossa mensagem é internacionalista e deve ser difundida com essa ampla e diversificada feição, de acordo com o conteúdo que se apresenta inclusive em nossas sucessivas participações nos congressos, encontros e seminários de partidos comunistas, de movimentos anti-imperialistas, de organizações de massas e no Fórum Social Mundial. É grandiosa a dimensão da luta política internacional, as políticas do imperialismo estão presentes em toda a parte, as crises e os conflitos mundiais são cada vez mais agudos, de modo que a divulgação de informações, análises e opiniões nesse domínio deve continuar como um dos aspectos mais importantes do trabalho de comunicação do Partido. Há uma imensa rede de portais, páginas e blogues internacionais que se inserem nesse amplíssimo relacionamento, desde os que são confeccionados pelos partidos comunistas e outras forças antiimperialistas, neles incluídos os movimentos e organizações sociais. Vamos tornar mais aconchegantes nossos vínculos com todo esse diversificado espectro.

Partido Vivo: Quais as tarefas mais imediatas da Secretaria de Comunicação do PCdoB?

JRC: A primeira medida da Direção partidária na área da comunicação é a edição inicial de um milhão de exemplares do Programa aprovado no 12º Congresso. Outras reimpressões serão necessárias ao longo do ano de 2010. Simultaneamente, já estamos viabilizando medidas para produzir, com nova qualidade, o programa de rádio e TV de 10 minutos e as inserções do horário gratuito que irão ao ar no dia 22 de abril. No plano editorial, depois de uma avaliação interna e externa, serão apresentadas medidas para aperfeiçoar os métodos de trabalho e enriquecer o conteúdo e a estética do Vermelho. No plano da mobilização partidária, convocamos para os dias 26 e 27 de fevereiro a reunião do grande coletivo da Comunicação, quando faremos o planejamento de curto e médio prazos.

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