Boris Casoy não cometeu uma “gafe”

do blog do Altamiro Borges

O repórter Fábio Pannunzio, que já produziu algumas boas reportagens na TV Bandeirantes, saiu em defesa do âncora da emissora, Boris Casoy, que se desmascarou na virada do ano ao humilhar dois garis que desejaram feliz 2010. Sua frase repugnante – “Que merda. Dois lixeiros desejando felicidades… do alto de suas vassouras… Dois lixeiros… O mais baixo da escala do trabalho” – pegou muito mal. Milhares de internautas espalharam o vídeo e espinafraram o preconceituoso.

Em seu sitio, Fábio Pannunzio, que eventualmente substitui o âncora no Jornal da Noite, afirma que considera as reações exageradas. Após esclarecer que “conheço Boris Casoy há apenas dois anos”, ele ainda tenta justificar “a frase infeliz”. Seria apenas uma “gafe”, como tantas outras da televisão. “Outras dezenas de casos correlatos aconteceram sem que seus protagonistas fossem crucificados por seus credos, origem étnica, preferência sexual ou o quer que seja. Por isso, não é justo nem razoável que Boris Casoy continue sendo vítima desse massacrante cyberbullying”.

Direitismo e preconceitos de classe

No texto “Em defesa de Boris Casoy”, Fábio Pannunzio comete vários erros. As pessoas sensatas não “crucificam” o âncora “por seu credo, origem ética ou preferência sexual”. Não se combate preconceitos com preconceitos. Casoy, sim, é que nunca escondeu os seus piores preconceitos, principalmente os de classe. Com suas ironias, risadinhas e trejeitos, ele vive desqualificando os trabalhadores, principalmente os que lutam por seus direitos. Seu ódio aos ativistas do MST que lutam pela reforma agrária é visceral, escancarado; todas as greves são motivo de seu veneno.

A forma ácida como agride o presidente Lula também revela o seu “nojo de classe”. Não há nada de jornalismo, mas sim ranço ideológico. Ele não admite um operário, ex-sindicalista, no Palácio do Planalto. Trata o presidente como um analfabeto, ignorante, bronco. Não é para menos que ele se tornou um expoente da oposição de direita e foi cogitado pelo banqueiro Bornhausen, ex-presidente do PFL, atual Demo, para ingressar com o pedido de impeachment de Lula. Casoy, que prestou assessoria a políticos da ditadura, parece sentir saudades daquele período sombrio.

“O destino acerta suas contas”

O próprio Pannunzio afirma conhecer o apresentador há “apenas dois anos”. Pelas regras do bom jornalismo, ele deveria investigar melhor a longa trajetória de Boris Casoy. Isto ajudaria a entender porque ele humilhou os garis, ataca os grevistas, estigmatiza o MST e ironiza o presidente Lula. Não é verdade que o apresentador cometeu somente uma “gafe”. O vazamento do áudio permitiu ouvir o que ele realmente pensa, desnudou sua concepção elitista e direitista – de viés fascista.

Essa concepção está presente, agredindo os telespectadores da Band, todos os dias. Ela é antiga e somente ficou mais explícita na fase recente, talvez por ódio a um trabalhador no Palácio. Celso Lungaretti, veterano jornalista, conhece bem a trajetória desta figura escrota. Num texto didático, intitulado “O destino acerta suas contas”, ele conta um pouco da sua biografia, que confirma que não houve “gafe”, mas sim puro direitismo e preconceito de classe. Num dos trechos, ele relata:

“Um dos líderes da ala jovem do CCC”

“Casoy é elitista, racista, conservador e reacionário desde muito cedo. Um velho companheiro que com ele cursou Direito no Mackenzie me contou: aos 23 anos, Casoy era um dos líderes da ala jovem do Comando de Caça aos Comunistas, que tinha nessa faculdade um de seus focos principais. Mais: nos idos de 1964, Casoy chegou a ser citado em reportagem da revista Cruzeiro como membro destacado da juventude anticomunista. A quartelada o beneficiou, claro: ele foi homem de imprensa de um ministro do governo Médici e do secretário da Agricultura de São Paulo, Herbert Levy, outra figurinha da direita”. Sobre a sua projeção na imprensa, ele recorda:

“Isto aconteceu quando o comando do II Exército aproveitou uma frase imprudente do cronista Lourenço Diaféria (sobre mendigos urinarem na estátua de Caxias) para intervir na Folha. Os militares exigiram a destituição do diretor de redação Cláudio Abramo (trotskista histórico), o afastamento de profissionais (demitidos ou realocados) e o abrandamento da linha editorial. O proprietário Octávio Frias de Oliveira, que sempre se definiu como comerciante e não jornalista, negociou. Servil, aceitou substituir Abramo por um homem de absoluta confiança do regime militar: Casoy”. Como se observa, a humilhação dos garis não foi apenas uma “frase infeliz”.

3 pensamentos sobre “Boris Casoy não cometeu uma “gafe”

  1. Olá Márcia

    Muito prazer…vim ver suas “leituras” sobre o Bóris Casoy. Hoje é 8 de jan., portanto já se passaram vários dias e milhares de comentários sobre este caso, blogs afora.
    Para mim este assunto ainda não está surrado, razão pela qual estou ainda fuçando a net e clicando no tema. Quero entender melhor o que se passa, em relação a este clamor popular anti-Bóris, no qual eu me incluo. Mas não sou jornalista, nem de longe, apenas usuário desta “arte”.
    Achei o seu texto acima bem elaborado, lúcido e informativo. Diferencia-se de muitos que estão postado por aí. Com direito até de balançar um pouco para o lado esquerdo. Tranquilo, quanto a isto.
    Gostaria apenas de dar o meu palpite sobre a “gafe do Bóris”, até não considerando o seu background direitista. Seguinte: o grande erro (viés) do Bóris atualmente é ser um âncora de noticiário. Erro dele e, por osmose, da emissora em que está. Suas convicções, antipatias e preconceitos poderiam ser “respeitadas” se ele as externasse nos lugares apropriados. Num partido de direita, numa seita ou grupo ideológico que comungasse com seus ideais. Nunca…nunca…em uma bancada de noticiário, com uma concessão pública e um microfone na mão. Esta é a minha revolta com este cara e, descubro agora, com tantos quantos (jornalistas ou veículos de comunicação) agem da mesma forma. Ou seja, aprendí, com a “gafe do Bóris”, que o Brasil tem um jornalismo (agora atiro pra todo lado) medíocre, mal formado. E aí, pra prosseguir na conversa…poderíamos falar das escolas que formam os profissionais, dos jovens que estão por aí, iniciando nesta belíssima carreira, cheios de ideais, etc. etc. Meus pensamentos e comentários são nesta linha e acho que deveria ter muita gente debatendo esses aspectos, no “gancho do Bóris e seus garis”.

  2. Prezado Godoy,

    Obrigada por acessar meu blog. porém não entendi seu questionamento sobre a matéria do jornalista Altamiro Borges está em meu blog, uma vez que os créditos são a primeira coisa que coloco quando copio ou retiro seja o que for de outro blog ou outro tipo de fonte.
    O meu blog é de divulgação, posso até escrever uma coisa ou outra mas o próprio nome já traduz qual foi minha intenção ao criá-lo ” Márcia e suas leituras”, isto é, colocar o que leio, neste grande mundo da web.

    Abraços e volte sempre
    Marcia Silva

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