Se me saísse a loteria….

Título passado para o português falado no Brasil

do blog cheira-me a revolução

Foi durante um jantar. Alguém se pôs a sonhar alto com o que faria caso ganhasse a Lotaria ou o Euromilhões. Casa, carro, férias, trabalhar menos, oferecer uma dentadura à mãe… E quando chegou a vez de um comunista dizer o que faria a tanto dinheiro, alguém diz

Ahhh!, tu não podes [ser rico], és comunista.

É tão frequente, que tenho uma frase pronta para responder em situações semelhantes. Respondi algo como isto:

Nós, comunistas, nada temos contra o ser-se rico, mas antes, com a forma como se fica rico: se por via da exploração de outra pessoa, ou se por via do próprio trabalho.

E, para que fique claro e rasgue com o preconceito, declaro

Adoraria ser rico.

A surpresa levanta a curiosidade, e lá tento explicar-me, dizendo entre muitas outras coisas que a separação mais importante não é entre pobres e ricos, mas entre explorados e exploradores. Mas assim que se usa o termo exploração surge um novo desafio.  É comum pensar-se que a exploração é um conceito meramente subjectivo, isto é, que se é ou não explorado caso se ache bem ou mal remunerado (!). Tinha que me fazer compreender melhor…

Entretanto, a televisão falava da guerra – a desgraça continua – mas o que capta a atenção dos presentes é o jantar estar insonso. Tento explicar aos mais curiosos de onde provem então a exploração (e que afinal de contas a exploração é algo objectivo, isto é, que existe para além de nós).

Não deu para explicar. Afinal, o jantar estava insonso. Isso tornou-se o mais importante. Mas, mais tarde, quase todos os presentes revelaram sentir que não eram remunerados devidamente. Era isso que lhes tinha tentado dizer, mas por outras palavras. Ali, naquele jantar, todos pertencíamos aos explorados, quer soubéssemos ou não disso.

Neste mundo, a exploração está sempre ai, quer se tenha consciência ou não dela. Quer alguma vez se tenha ouvido falar em conceitos de economia como Mais-Valia, ou não. E era este o conceito que queria ter chegado a mostrar. Fica para uma próxima, quando estiverem mais interessados nisto:

Era só pôr sal.

# por Bruno (do colectivo Leitura Capital)

A teologia do livre mercado dos Chicago Boys

do portal carta maior

 Recentemente vários acadêmicos receberam uma petição assinada por 111 membros da Universidade de Chicago, explicando que “sem qualquer comunicado a sua própria comunidade, (a Universidade) contratou uma firma de Boston, a Ann Beha Architects, para reformar o prédio do Seminário Teológico Chicago, transformando-o no espaço para o Instituto Milton Friedman de Pesquisa em Economia (MFIRE) e levantou uma agressiva campanha de arrecadação de fundos para o controverso instituto. Seria difícil encontrar uma metáfora mais apropriada para falar do neoliberalismo. O artigo é de Michael Hudson.

 Michael Hudson

 Recentemente vários acadêmicos receberam uma petição assinada por 111 membros da Universidade de Chicago, explicando que “sem qualquer comunicado a sua própria comunidade, [a Universidade] contratou uma firma de Boston, a Ann Beha Architects, para reformar o prédio do Seminário Teológico Chicago, transformando-o no espaço para o Instituto Milton Friedman de Pesquisa em Economia (MFIRE) e levantou uma agressiva campanha de arrecadação de fundos para o controverso instituto”.

Seria difícil encontrar uma metáfora mais adequada do que aquilo que o comunicado à imprensa caracteriza como “conversão do prédio do Seminário num templo do neoliberalismo econômico”. Até o acrônimo MFIRE parece simbolicamente apropriado. O M pode bem servir para Money, na equação do Prof. Friedman MV =PT (Money x Velocity = Price x Transactions). E o setor Fire compreenderia finanças, seguros e investimentos imobiliários – o setor do “almoço grátis” cuja acumulação os monetaristas de Chicago celebram.

Economistas clássicos caracterizaram a renda e o acúmulo de lucros no setor FIRE como “renda não recebida”, liderada pelos ganhos de capital, que John Stuart Mill descreveu como o que os senhores da terra fazem “quando estão dormindo”. Milton Friedman, por outro lado, insistiu que “não existe almoço grátis” – como se a economia não dissesse afinal respeito ao almoço grátis e a como obtê-lo. E a principal maneira de ganhá-lo é desmantelando o papel do governo e vendendo o patrimônio público a crédito.

Como disse ironicamente Charles Baudelaire, o demônio vence no ponto em que convence o mundo de que ele não existe. Parafraseando isso podemos dizer que a vitória econômica dos rendimentos do almoço grátis obtém-se no ponto em que os reguladores governamentais e os economistas acreditam que seu retorno não existe – e então, não precisam ser taxados, regulados ou subjugados.

Com “livre mercado” os Chicago Boys querem dizer conceder livre trânsito ao setor financeiro – na direção oposta à idéia dos economistas clássicos de libertar os mercados do rentismo e dos juros. Enquanto a religião tradicional buscou estabelecer preceitos de regulação, o Instituto Friedman vai promover a desregulação. Substituir fisicamente a escola de teologia por um “templo do neoliberalismo econômico” é irônico se se considera que, em princípio, aquilo que todas as grandes religiões têm em comum em um ponto ou no outro for a oposição à cobrança de juros. O judaismo chamou a isso de “começar do zero” (Levítico, 25) e o Cristianismo baniu completamente o juro, citando as leis do Êxodo e do Deuteronômio.

Os Chicago Boys então inverteram a teologia tradicional, embora a economia tenha começado a ser ensinada enquanto disciplina acadêmica em cursos de filosofia moral nos séculos 18 e 19. As mais importantes universidades do mundo foram fundadas para formar estudantes para o clero. O curso de filosofia moral envolvia política econômica e lidava vastamente com as noções de reforma econômica e taxação da acumulação de capital financeiro em nome do interesse público como uma prerrogativa legal. A disciplina era jogada no rol da “economia” em boa medida para excluir dela as análises políticas, e as distinções entre investimento produtivo e improdutivo, bens de capital e reais, valor e preço.

Os economistas clássicos viam o rentismo e os juros como remanescentes da conquista da Europa feudal da terra. E viam a privatização do dinheiro e da finança como uma dívida institucionalmente baseada e monopolizada. Os economistas clássicos procuraram taxar essa “renda não recebida” para regular os monopólios naturais ou para torná-la de domínio público.

Desnecessário dizer que essa história do pensamento econômico não será ensinada no Centro Friedman. A primeira coisa que os Chicago Boys fizeram no Chile quando lhes foi dado o poder depois do golpe militar de 1973 foi fechar todos os departamentos de economia do país – e de fato, todo departamento de ciência social fora da Universidade Católica, onde eles mandavam. Eles entenderam que “livre mercado” para o capital exigia controle total do currículo educacional e da mídia cultural como um todo.

O que os livres mercados entendem é que sem uma autoridade Inquisitorial você não pode ter um livre mercado “estável” – quer dizer, um livre mercado para os predadores financistas que presumivelmente são os maiores financiadores do Centro Friedman da Universidade de Chicago. Os monetaristas da Escola de Chicago detiveram poder de censura sobre os maiores jornais de referência em economia, e publicar neles se tornou pré-condição para o progresso na carreira de economistas acadêmicos. O resultado tem sido limitar o escopo dos economistas para a celebração da escolha racional do “livre mercado” e da mente estreita da ideologia do “direito e da economia” oposta às idéias da justiça moral e da regulação econômica que formaram a base de tantas religiões do Ocidente.

Eu experimentei esse espírito inquisitorial quando trabalhava no Laboratório da Escola da Universidade de Chicago. Lembro do grande cartaz dependurado acima do quadro negro da sala Mr. Edgett de ciência social, em 1953: “Dê a todos eles o que os Rosenberg receberam”. Depois que o Ato da Liberdade de Informação tornou os arquivos do FBI públicos, meus colegas de classe tiveram acesso aos relatórios sobre eles e suas orientações políticas, escritos por professores da Universidade de Chicago e seus associados no Shimer College.

Quem teria antecipado que a economia iria terminar sendo mais de direita e autoritária, mais explicitamente oposta à idéia mesma de direitos humanos e justiça distributiva do que a teologia? Ou esta última disciplina teria sido então invertida? Os economistas clássicos eram reformistas, afinal de contas, lutando pelo mercado livre contra a “renda não recebida” – o “almoço grátis” da renda da terra das aristocracias herdeiras da Europa e contra o monopólio rentista administrado pelas corporações de comércio real criadas por governos europeus a fim de pagar por suas dívidas de guerra. Mas os monetaristas de Chicago buscam desregular os monopólios e as leis de usura, favorecendo o rentismo em vez da economia “real” do trabalho e do capital. Seu foco é na defesa do lucro da propriedade e da finança e no compromisso com os dispositivos de garantia: empréstimos bancários, ações e títulos, para os quais exigem corte de taxação. E para fomentar o mercado de alavancamento de ações, os Chicago Boys defenderam a privatização do patrimônio público, começando no Chile, depois de 1973.

Assim, o que foi invertido não é apenas a idéia clássica de mercados livres, mas o coração econômico dos primórdios da religião. Hoje, os Chicago Boys consideram que quem mais precisa de salvação são a alta finança, o investimento imobiliário e os monopólios, na sua luta para reverter os sete séculos passados de reforma econômica clássica desde que o Papa debateu como definir um Preço Justo (custos socialmente necessários da produção) com que os bancos deveriam arcar, no século XIII.

Essa medida parece tratar-se largamente do levantamento de fundos, mas essa não é a verdade da maior parte das religiões em nossos dias? A Universidade de Chicago foi financiada por John D. Rockefeller, dando a deixa para Upton Sinclair chamá-lo de “O Standard Oil da Universidade” no The Goose Step. Quando eu trabalhei lá, nos anos 50, Lawrence Kimpton tinha substituído Robert Hutchins como Chanceler, e em 1961 se tornou gerente geral de planejamento (e subsequentemente, diretor) da Standard Oil de Indiana. Seu ato mais famoso (fora a supervisão do projeto da bomba atômica Manhattan) foi suprimir a The Chicago Review, que publicava excertos do Almoço Nu de William Burroughs. Significativamente, a razão que ele deu era que a publicação poderia desencorajar a doação de fundos para a Universidade.

O senhor Rockefeller, ao menos, pôs devidamente sua suspeita sobre “aqueles que necessitam”. Num espírito contrastante, a esposa de Herman Kahn me disse que certa vez, numa festa, Milton Friedman respondeu a sua sugestão de melhorias no bem estar público e na assistência em saúde, assim: “Por que você quer subsidiar a produção de órfãos e pessoas doentes?”. Esse não é exatamente o espírito religioso clássico.

O problema com o Instituto Friedman é que sua doutrina econômica obteve notoriedade no período Pinochet, na onda dos Chicago Boys no Chile. Privatizar empresas públicas, “libertar” mercados de leis abusivas e induzir a desregulação são a antítese de quase todas as religiões, cujas diretrizes propostas, afinal, eram socializar seus membros e criar um estado moral.

O monetarismo friedmanista tem caracterizado a ideologia pós-moderna que, como a religião, tem suas próprias vacas sagradas e ídolos – e uma Inquisição. Em vez de suspeitar dos descrentes, como no Islã, temos a transferência da cobrança de impostos da religião do capital financeiro para o trabalho que está do lado de fora do templo. Como disse o comunicado de imprensa: “Grande protesto…focou-se no ataque ao forte viés ideológico do Instituto, orientado para o fundamentalismo de mercado, na tradição de Friedman. Dessa maneira ou de outras, sua natureza vai de encontro à tradição da Universidade da livre investigação e do livre debate”.

Bem, eu não estou muito certo quanto a como essa tradição recente de livre debate foi. Mas o comunicado conclui com uma nota, dizendo que “PARA MAIORES INFORMAÇÕES, CONTATAR: Robert Kendrick, Professor de Música (rkendric@uchicago.edu, 773-702-8500 begin_of_the_skype_highlighting              773-702-8500      end_of_the_skype_highlighting) ou Bruce Lincoln, Caroline E. Haskell, Professores de História das Religiões (blincoln@uchicago.edu, 773-702-5083 begin_of_the_skype_highlighting              773-702-5083      end_of_the_skype_highlighting)”.

(*) Michael Hudson é ex-economista de Wall Street e atualmente um Pesquisador destacado na Universidade do Missouri, Kansas City (UMKC), e presidente do Instituto para o estudo das tendências de longo prazo da economia (Institute for the Study of Long-Term Economic Trends ISLET). É autor de vários livros, incluindo Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire (new ed., Pluto Press, 2002) [Super Imperialismo: A Estratégia Econômica do Império Ameicano] e Trade, Development and Foreign Debt: A History of Theories of Polarization v. Convergence in the World Economy. [Comércio, Desenvolvimento e Dívida Exerna: Uma História das Teorias da Polarização versus Convergência na Economia Mundial

Tradução: Katarina Peixoto

Crise e armamentismo

Já postei este artigo aqui. Contudo, nunca é demais para que todos compreendam o porque de cada vez mais, ser importante  que os EUA invada e destrua os países.

Este artigo de Sérgio Ribeiro está muito elucidativo e bem didático .

da revista O militante , de agosto de 2009

Escrito por Sérgio Ribeiro   
06-Jul-2009
Poucas frases serão tão clarificadoras como «tempo de crise é tempo de oportunidades» (e em português poderá dizer-se de… novas oportunidades). 

Poucas frases serão tão clarificadoras do cinismo brutal de um sistema, de uma formação social, do capitalismo, quando dita com a intenção de dizer que tempo de crise é tempo de mais acumular, de mais concentrar e, por isso mesmo, de mais explorar, de mais desempregar, de mais excluir socialmente.
Mas, também, poucas frases serão tão clarificadoras por trazer à discussão política questões de fundo, do que possa contribuir para o esclarecimento e a tomada de consciência, indispensáveis nesta fase da luta de classes em que a vertente ideológica se impõe como imprescindível para mobilizar para a luta.
De uma outra/mesma maneira «tempo de crise é tempo de negócios». E sendo a crise, na nossa leitura da História, uma constante que atravessa os tempos do capitalismo, porque este tem, no seu bojo, os germens da sua destruição, logo acrescento que todo o tempo do capitalismo é tempo de crise, com explosões periódicas da mesma crise que transporta consigo ao longo do seu tempo, não o fim da História mas, apenas, o seu tempo. Histórico, finito, efémero.
A crise do capitalismo resulta do seu próprio, intrínseco, funcionamento, que parte, no circuito económico, da aplicação de capital sob a forma de dinheiro, se alimenta da criação de valor que apropria e que, depois, é incapaz de realizar, no final do circuito, incapaz de transformar em mais dinheiro todo o valor criado, pelo que as «saídas» dos períodos de explosão da crise inerente ao sistema estão na destruição de forças produtivas, do que produz, sobretudo do que cria valor, do trabalho, dos homens possuidores da mercadoria força de trabalho.
Por isso, serão as armas a mercadoria mais natural do capitalismo pois, ao ser consumida, destrói-se, como o consumo deve fazer das mercadorias, e, ademais, tem a virtualidade de destruir forças produtivas!
Por isso, a inevitável militarização da economia capitalista. 
Por isso, a decisiva importância do complexo industrial-armamentista, no imperialismo – e no espaço e na sua organização cupulares.
Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz (SIPRI), os gastos militares a nível mundial aumentaram 45% entre 1998 e 2007, sendo também de 45% a percentagem das despesas dos Estados Unidos nesse total. Só em 2007 esse aumento foi de 6%, e não encontrei dados para 2008 embora seja evidente que o crescente aumento acompanha os sinais de explosão de crise.
E o relatório do SIPRI sublinhava que em território estado-unidense as despesas militares alcançaram, nesse ano de 2007, nível que ultrapassava o da Segunda Guerra Mundial, e lembre-se a propósito, que a actualmente tão referida «crise de 1929-30» antecedeu o surto de radicalismo de direita (e de diversão radical esquerdista de fachada socialista), e culminou com a guerra de 1939-45 com o resultante enormíssimo salto na indústria armamentista e as «experiências» de bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki.
Entretanto, o negócio das armas nunca sofreu hiatos, embora de quando em vez dê saltos. Se entre 1996 e 2005 o comércio mundial de armas parecia estabilizado, em torno de 55 mil milhões de euros, em 2006 (segundo artigo de Michel Chabrol) deu um salto de 22% para 67 mil milhões de euros, continuado em 2007, ano que, segundo a Thales, antiga Thomson-CSF, sociedade de electrónica especializada em aéro-espacial, defesa e tecnologias de informação… «foi um bom ano».
Este mercado é apenas partilhado por um escasso número de países, pois 5 países – Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, França e Israel – realizam 90% das vendas mundiais, com os EUA a terem uma quota de 55%. No momento deste artigo (Fevereiro de 2008) afirmava-se que «os observadores prevêem que o mercado do armamento vai continuar numa rampa ascendente». Previsão para que não eram indiferentes os primeiros sinais de explosão de crise. 
E merecerá destaque, talvez, que nestes dez anos de referência, a Rússia aumentou em quase 1000% (965%) as suas despesas militares, segundo dados do Forecast International, prevendo-se que atinja 46,6 mil milhões de dólares em 2010 (mais de 35 mil milhões de euros).
Ora as mercadorias que o sistema produz e de que faz negócio não são produzidas e comercializadas para ficarem em armazém. São produzidas e comercializadas para serem utilizadas, consumidas. E a mercadoria-armas mais ainda que quaisquer outras. Os momentos de explosão de crise, a necessidade de destruir forças produtivas para abater capacidades de produção, e para incentivar novos negócios, são oportunidades a aproveitar, acumulando e concentrando mais capital financeiro. 
Como escrevia Istvan Meszaros, Professor Emérito de Filosofia e Teoria Política na Universidade de Sussex (Reino Unido), «Não é a primeira vez na História, nos nossos dias, que o militarismo pesa na consciência dos povos como um pesadelo. (…) Basta remontar ao século XIX, quando o militarismo como importante instrumento da tomada de decisões políticas se afirmou, com a erupção do imperialismo moderno à escala mundial, em contraste com as suas variedades iniciais, muito mais limitadas». 
Mas, neste processo histórico, em que se desenvolvem as forças produtivas capazes de libertar os seres humanos do jugo da natureza mas também capazes de criar instrumentos (por vezes os mesmos) de destruição e morte, as armas de hoje não são as do começo da guerra de 1939-45, nem mesmo as que, no final dessa guerra, já tanto tinham evoluído tecnicamente.
Como ainda sublinha Meszaros, antes, os intervenientes nas guerras eram os Estados nacionais; não importava quão monstruosos fossem os danos provocados, a racionalidade da acção militar estaria assegurada se a guerra viesse a ter vencedores e vencidos.
Agora, com a evolução tecnológica e as correspondentes transformações nas relações sociais internacionais, a situação é qualitativamente diferente. 
O objectivo da guerra possível na fase actual de desenvolvimento histórico, em conformidade com os requisitos do imperialismo, passou a ser não vencível (como escreveu Meszaros), não o de fazer vencedores e vencidos mas o de destruir, e tanto!, que pode dela (ou delas) resultar a destruição da Humanidade, o que de nenhum modo se poderá considerar como racional, mas teria de se qualificar como irracionalidade total.
As armas já disponíveis neste começo do século XXI existem pela primeira vez na História e a sua capacidade de destruição é capaz de exterminar não apenas o adversário, e não importa se este é real ou se foi criado para combater o inimigo de classe ou, apenas, para ser o alvo consumidor da mercadoria-armas, mas toda a Humanidade. E não se pode ter a ilusão de que estas armas serão as últimas a serem desenvolvidas. Outras, ainda mais eficazmente destruidoras, poderão surgir. Tem de se afirmar, sem ambiguidades, que a ameaça de utilização das armas como instrumento estratégico, até para impedir que outros tenham acesso a conquistas que são da Humanidade, é humanamente inaceitável. 
A luta por rupturas, por uma verdadeira alternativa ao actual curso da História, pelo socialismo, é – também e por isso – uma luta pela Paz, uma luta pela Humanidade.
(*) Intervenção no Seminário Internacional «Não ao militarismo e ao Tratado de Lisboa!», promovido pelo PCP em 22 de Maio.

Terceirização: um avanço para o atraso(artigo DIAP)

Seg, 29 de Dezembro de 2008
Cláudio José Montesso*

“Chegamos a uma época em que a terceirização passou a ser uma realidade no Brasil, até mesmo nos órgãos públicos”

Os magistrados do trabalho brasileiros, historicamente, sempre combateram a terceirização de mão-de-obra utilizada como forma de mera redução de custo e de precarização das relações de trabalho. Chegamos, porém, a uma época em que a terceirização passou a ser uma realidade no Brasil, até mesmo nos órgãos públicos. A conseqüência disso é a habitual falta de pagamento de direitos trabalhistas, fomentando um grande número de ações na Justiça do Trabalho.

É bom recordar que o assunto continua ligado a escândalos envolvendo empresas prestadoras de serviços para órgãos públicos, os quais, não raro, são chamados a responder pelas dívidas trabalhistas que elas deixam para trás. Isso sem considerar que, muitas vezes, a terceirização acaba servindo para abrigar apadrinhados políticos no setor público, driblando a exigência constitucional do concurso. Continue lendo

Textos do Prof. Theotonio dos Santos

do blog do Prof. Theotonio do Santos

GREMIMT – TEXTOS PARA DISCUSSÃO

Primeira Série

Texto nº 1
Economia Política Marxista: um balanço

Texto nº 2
O Desenvolvimento Latino-americano: Passado, Presente e Futuro

Texto nº 3
Modernidade e Neoliberalismo: uma falácia

Texto nº 4
Corrupção, Impeachment e Poder Cidadão

Texto nº 5
Crises Econômicas e Ondas Longas na Economia Mundial

Texto nº 6
Sistema Econômico Mundial: Gênese e Alcance Teórico de um Conceito

Texto nº 7
A Politização da Natureza e o Imperativo Tecnológico

Texto nº 8
The Future of Geopolitical Alignments

Texto nº 9
Recuperação Econômica Internacional: Dificuldades e Possibilidades

Texto nº 10
Os Fundamentos Teóricos do Governo Fernando Henrique Cardoso

Texto nº 11
A Revolução Científico-Técnica. Nova Divisão do Trabalho e o Sistema Econômico

Texto nº 18
Quelques Idées Sur L´étude du Système Monde

Texto nº 20
O Papel do Estado num Mundo em Globalização

Texto nº 21
Las nociones de “Alta Cultura” y “Cultura Popular” y su interacción durante el siglo XX

Texto nº 22
A Teoria da Dependência: Um balanço Histórico e Teórico

Texto nº 23
América Latina: Democratização e Ajuste Estrutural

Texto nº 24
O Manifesto Comunista e o Marxismo como Projeto

Texto nº 32
O Neoliberalismo como Doutrina Econômica

Para download clique aqui

Convites golpistas’ nas Américas porão à prova o governo Obama

do adital

Escrito por Carlos Walter Porto-Gonçalves
08-Jul-2009

Embora a história do Brasil acuse a presença nefasta de ações contra a democracia perpetradas pelos Estados Unidos, nem de longe a expressão La Embajada tem para nós o mesmo sentido que em outros países latino-americanos. No mundo andino, e sobretudo centro-americano e caribenho, a expressão é sinônimo do poder que, em última instância, decide. Desde a Doutrina Monroe (1823) que o caráter imperial dos EUA se desdobrava na América atualizando as piores tradições imperiais européias, que remontam ao Império Romano (é só ver a arquitetura da Casa Branca), ungida pela idéia de Destino Manifesto denunciado, em 1826, por Simon Bolívar.

Para aqueles que colocavam em dúvida a sagaz e imediata compreensão de Bolívar do papel dos Estados Unidos, os eventos de 1845-1848 falam por si, quando, em guerra contra o México, os Estados Unidos tomam o Novo México, a Califórnia e o Arizona e completam sua atual face geográfica coast to coast, indo do Atlântico ao Pacífico.
Desde então, o destino da América Central e do Caribe ficaria indelevelmente ligado às políticas do Pentágono e La Embajada se tornaria, de fato, base da rede de controle geopolítico da região. Desde então, a obsessão para criar um canal ligando o Atlântico ao Pacífico se torna parte estratégica do controle geopolítico por parte dos Estados Unidos e a Colômbia veria seu território amputado com a criação do Panamá, em 1903, um país criado para que os EUA tivessem o controle do canal. Continue lendo

As lições de Honduras

do Correio da Cidadania

Escrito por Theotonio dos Santos
08-Jul-2009

Conta-se uma reveladora brincadeira entre os presidentes latino-americanos:

- Sabe por que não existem golpes de Estado nos Estados Unidos?

- Não!

- Porque nos Estados Unidos não existe embaixada dos Estados Unidos.

Além do mais, sabemos que os golpes nos Estados Unidos se dão através do assassinato, puro e simples, de seus presidentes (como no caso de John Kennedy) ou com a ajuda da Suprema Corte para impedir a recontagem dos votos (como no caso Bush).

Apesar destes e de muitos outros precedentes, vemos agora os líderes do Partido Democrata se indignar com a negativa de recontagem de votos no Irã, acusado de ser uma tremenda ditadura.

No entanto, qual a lição de Honduras? Pela primeira vez na história, os Estados Unidos apóiam a condenação de um golpe de Estado na América Latina, permitindo que se realize uma condenação unânime de um ato de força militar em todas as organizações internacionais.

Isso quer dizer que dessa vez a embaixada americana não participou do ato de força? Desgraçadamente não. De maneira indiscreta, um deputado da direita hondurenha revelou publicamente a conspiração que mantinham os golpistas com a embaixada dos EUA. O fez em memorável sessão de primitivo disfarce democrático no qual se realizou a “eleição” do “sucessor” do presidente Zelaya, que havia renunciado segundo a carta falsa lida por este bisonho “sucessor”, que se esqueceu de forjar uma carta de renúncia do vice-presidente, a quem caberia substituir o presidente seqüestrado. Essa sessão foi transmitida pela Radio Globo de Honduras, última a ser silenciada pelos “democratas” do “governo provisório”. Continue lendo

O internacionalismo de massas na resistência ao imperialismo

Por José Reinaldo Carvalho*

Um dos aspectos fundamentais da atuação do PCdoB é a luta antiimperialista, essência de sua linha política. Mesmo quando estão na ordem do dia lutas estritamente internas – como a questão nacional, a ampliação da democracia, as melhorias sociais e os processos internos de reivindicação popular -, ainda que se analise o cenário apenas do ponto de vista brasileiro, a questão antiimperialista está presente. Isso porque não se pode conceber a questão nacional desligada de um sistema de dominação imperialista que foi montado secularmente no Brasil e cujo desmonte é uma obra que depende de medidas muito complexas resultantes de um processo revolucionário.

Ademais, a luta antiimperialista está intrinsecamente ligada ao combate cotidiano do povo brasileiro contra o sistema de dominação da grande burguesia monopolista e financeira, entrelaçadas com os potentados internacionais que tentam subjugar o país ou mantê-lo em sua órbita de poder geopolítico. Para as forças democráticas, patrióticas e populares brasileiras, isto significa que não há uma “muralha da China” a separar a questão nacional das questões democrática e social.

A luta contra sistema de dominação imperialista em nosso país só pode ser conduzida vitoriosamente se se tomar isto em consideração, pois esta consciência terá como corolário a fixação de alvos e tarefas ajustados à realidade, à correlação de forças, ao nível da batalha em suas distintas etapas. Não haverá fórmulas simples, mas a luta antiimperialista se favorecerá de formulações programáticas corretas, métodos amplos e políticas de alianças que correspondam ao propósito de unir, organizar e mobilizar ponderáveis forças sociais e políticas. Continue lendo