Se me saísse a loteria….

Título passado para o português falado no Brasil

do blog cheira-me a revolução

Foi durante um jantar. Alguém se pôs a sonhar alto com o que faria caso ganhasse a Lotaria ou o Euromilhões. Casa, carro, férias, trabalhar menos, oferecer uma dentadura à mãe… E quando chegou a vez de um comunista dizer o que faria a tanto dinheiro, alguém diz

Ahhh!, tu não podes [ser rico], és comunista.

É tão frequente, que tenho uma frase pronta para responder em situações semelhantes. Respondi algo como isto:

Nós, comunistas, nada temos contra o ser-se rico, mas antes, com a forma como se fica rico: se por via da exploração de outra pessoa, ou se por via do próprio trabalho.

E, para que fique claro e rasgue com o preconceito, declaro

Adoraria ser rico.

A surpresa levanta a curiosidade, e lá tento explicar-me, dizendo entre muitas outras coisas que a separação mais importante não é entre pobres e ricos, mas entre explorados e exploradores. Mas assim que se usa o termo exploração surge um novo desafio.  É comum pensar-se que a exploração é um conceito meramente subjectivo, isto é, que se é ou não explorado caso se ache bem ou mal remunerado (!). Tinha que me fazer compreender melhor…

Entretanto, a televisão falava da guerra – a desgraça continua – mas o que capta a atenção dos presentes é o jantar estar insonso. Tento explicar aos mais curiosos de onde provem então a exploração (e que afinal de contas a exploração é algo objectivo, isto é, que existe para além de nós).

Não deu para explicar. Afinal, o jantar estava insonso. Isso tornou-se o mais importante. Mas, mais tarde, quase todos os presentes revelaram sentir que não eram remunerados devidamente. Era isso que lhes tinha tentado dizer, mas por outras palavras. Ali, naquele jantar, todos pertencíamos aos explorados, quer soubéssemos ou não disso.

Neste mundo, a exploração está sempre ai, quer se tenha consciência ou não dela. Quer alguma vez se tenha ouvido falar em conceitos de economia como Mais-Valia, ou não. E era este o conceito que queria ter chegado a mostrar. Fica para uma próxima, quando estiverem mais interessados nisto:

Era só pôr sal.

# por Bruno (do colectivo Leitura Capital)

Interpretar o momento (histórico)

do jornal avante

POR SÉRGIO RIBEIRO

Contributo para a transforma��o do mundo

Um dos trechos mais conhecidos de Marx � a sua 11.� tese sobre Feuerbach � �Os fil�sofos t�m apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a quest�o, por�m, � transform�-lo�. Esta �tese� deveria estar sempre presente entre os que se ocupam a interpretar o mundo, a tentar perceber o que vai acontecendo, e porqu�. No entanto, n�o menos importante � que quem tomou o partido de transformar o mundo n�o esque�a que, para bem o transformar, de acordo com o partido que foi tomado, h� que perceber o que se passa, h� que interpretar o mundo.

Confesso ter d�vidas se Marx em 1867, data da edi��o de O Capital (livro primeiro) repetiria, assim, tal qual, o que escrevera em 1845. Mas isto s�o d�vidas minhas e a esclarecer por outras paragens� Quero dizer, por�m, ao come�ar esta reflex�o, que, no momento hist�rico que vivemos, h� que interpretar o que est� a acontecer no mundo.
Uma primeira, e talvez pr�via, preven��o. O momento hist�rico tem limites que v�o muito para al�m dos limites dos humanos, isto �, da dura��o dos momentos � dimens�o dos humanos.
Diria, por isso, que a compreens�o do momento que vivo tem, para mim, as suas ra�zes l� para o fim dos anos 50. O que, para momento, haver� quem considere demasiado tempo, embora eu ache que, historicamente, pouco �, e mais se deva recuar para se chegar ao antes-que-j�-� este momento que vivemos.
Para exemplificar: o que se est� a passar, agora mesmo, a prop�sito dos submarinos e das minhocas que saltam a cada cavadela, das �arquitecturas financeiras� e correlativas �engenharias de interesses� e �artes e manhas� de corrup��o, para-corrup��o e quase-corrup��o, a promiscuidade Estado-privados, pode encontrar-se, qual inf�ncia das tais artes, na cria��o da Siderurgia Nacional.
Ent�o, constituiu-se um cons�rcio germano-belga, em que bancos belgas abriram cr�dito a empresa portuguesa, com aval do Estado, para financiar fornecedores alem�es da instala��o fabril no Seixal. Depois, o pre�o do a�o seria fixado pela empresa e, se o Estado entendesse que o deveria controlar, �a bem da Na��o�, estaria impedido de o fazer pois a empresa lhe diria n�o poder pagar os juros aos bancos belgas, e estes accionariam o aval do Estado.
Ao menos� era para fabricar a�o e n�o para meter coisas enormes a flutuar debaixo de �gua sem se perceber para qu�, mas as ditas �artes e manhas� correlativas, decerto existentes sob formas diversas como contrapartidas e pareceres, n�o eram conhecidas, vasculhadas, �armas� de pol�tica e contra-pol�tica partid�rias.

A internacionaliza��o e os �aparelhos� ou �mecanismos�

Um salto. No tempo. Sem sair do momento.
Quando o processo de integra��o europeia capitalista enveredou pelos alargamentos e, por via destes, em mais que uma velocidade e na divis�o entre Estados-membros com diferentes posi��es (at� geogr�ficas, continentais e insulares anglo-sax�nicas) sobre o processo, o GEM (Grupo de Economia Marxista, belga) editou Contraprojecto para a Europa(1), e uma �ideia quase-nova� que dele retive foi a da no��o de �mecanismo �nico transnacional�(2), que se desenvolvia ao tratar das inter-rela��es entre os estados, as grandes empresas privadas e as estruturas internacionais ou supra-nacionais.
Ent�o com nove estados-membros, as Comunidades Europeias, e todo o sistema capitalista, estavam noutra �encruzilhada�. E se da anterior se sa�ra com o primeiro alargamento, para as seguintes o relat�rio Tindemans foi documento esclarecedor e decisivo.
Brevemente: um n�cleo super-integrado e uma periferia, logo com a Gr�cia, e Portugal e a Espanha (a juntar ao Sul da It�lia, ao Norte da Inglaterra e � Irlanda, mais tarde com os escandinavos e a orla Leste a recuperar da �experi�ncia socialista�, num todo a configurar uma diversificada coroa perif�rica a que nem vir� a faltar, talvez, a Turquia e pa�ses do Norte de �frica).
O que convergiria com a via do federalismo sob comando do n�cleo superintegrado, para que o primeiro passo foi o das elei��es directas, t�mido porque em cada Estado, para um Parlamento Europeu at� ent�o emana��o dos parlamentos nacionais.
Assim como convergiria, na globalidade capitalista e viragem dos anos 70 para os 80, com o liberalismo econ�mico, sepultando keynesianismos, a financeiriza��o e a passagem do equil�brio da �guerra fria� para infiltra��o nos e absor��o dos pa�ses socialistas.

Globaliza��o ou capitalismo em fase de �aldeia-mundo�

Em leitura pessoal, dois livros do meio da d�cada de 90 balizam a procura de perceber o momento. Hist�rico, repita-se.
At� por serem livros �de informa��o� que n�o se pretendem nem cient�ficos nem rever na dita ortodoxia marxista. S�o eles A �Aldeia-Mundo� e o seu Castelo (ensaio contra o FMI, a OMC e o Banco Mundial), de Philippe Paraire, e O horror econ�mico, de Viviane Forrestier(3). A que talvez se pudesse juntar livros de G�rard de Sellys, sobretudo Priv� de public, que relata, jornalisticamente, o assalto privatizador ao servi�o p�blico das comunica��es para aproveitamento capital�stico do �casamento� do telefone com a inform�tica e a televis�o.
No entanto, para estas reflex�es e na inten��o de apenas referir o que ficou retido de leituras que acompanharam o viver da realidade, apenas retenho informa��es que ajudavam a perceber as transforma��es resultantes da cria��o da Organiza��o Mundial do Com�rcio, a juntar �s �inven��es� de Bretton Woods � FMI e BM �, na consolida��o, sem constrangimentos a n�vel de Estados e sistemas, dos mecanismos e aparelhos transnacionais do capitalismo, ali�s como resposta de classe ao desenvolvimento das for�as produtivas.
A outro n�vel, superestrutural, anoto a radicaliza��o ideol�gica do liberalismo, aparentemente pujante mas mergulhado a fundo nas suas contradi��es, privatizando o suscept�vel de dar lucro, e arrasando o n�o ��til� por n�o dar lucro ao lucro� E tudo a passar pela desvaloriza��o do trabalho (vivo), pelo emprego/desemprego, pelo recurso � utiliza��o da forma dinheiro do capital, fict�cia, simb�lica, especulativa, em detrimento das formas mercadoria e produtiva, como rela��o social que �.

O euro, o cr�dito� e o descr�dito

Depois de Maastrich ter sido trampolim, em cujo salto se insistiu at� projectar a Uni�o Econ�mica e Monet�ria e a Uni�o Pol�tica numa Uni�o Europeia, nas novas e forjadas condi��es planet�rias, o abandono da coes�o econ�mica e social e objectivo da converg�ncia era iner�ncia � cria��o da moeda �nica (e do Banco Central Europeu) e, depois, � acelera��o para a federa��o pol�tica e a militariza��o .
A posi��o tomada pelo PCP nesse passo do processo, se isolada no leque partid�rio, encontra agora muitos �parceiros�. Muito mais que a vangl�ria da raz�o a posteriori dir-se-� que os que hoje parecem falar como n�s h� quase d�cada e meia ent�o n�o tinham raz�o (ao menos t�cnica, �neutral�), nem agora a passaram a ter porque, se se confirma estar a acontecer o que foi previsto e prevenido, n�o � isso que os faz transformar o rumo das pol�ticas. Estas s�o de classe, e agudizam as contradi��es que o funcionamento da economia capitalista engendra.
Portugal, o Estado-membro mais obediente, foi o mais prejudicado pela introdu��o do euro no circuito econ�mico. N�o por culpa do instrumento mas da maneira como foi criado e ao servi�o de que interesses. Financeiros e transnacionais.
Porque contribuiu para o desaproveitamento de recursos (como do mar), porque serviu para �embarcar� na sobrevaloriza��o da moeda enquanto se perdia a �arma cambial�, do que derivou grande desfavor para as actividades de exporta��o, porque veio favorecer os pa�ses de que Portugal importava, porque serviu para beneficiar os turistas e para prejudicar o turismo, porque refor�ou o mau uso dos fundos comunit�rios, porque trouxe (pelo BCE) o cr�dito f�cil e barato para compensar o est�mulo ao consumismo e a quebra de poder de compra dos sal�rios at� ao endividamento inultrapass�vel. Porque, sempre ao servi�o do capital financeiro em detrimento da economia real, aqui, neste pa�s poss�vel, nos tornou mais e mais dependente.
Ontem, escreveu-se que assim seria (por exemplo, em N�o � moeda �nica � um contributo(4); hoje, confirma-se que assim foi� mas esconde-se que, ontem, assim foi previsto e prevenido. Porque n�o pode ser reconhecido que as an�lises que levavam a que assim se previsse e prevenisse s�o as mesmas que exigem rupturas com as pol�ticas que se quer prosseguir. Porque s�o estas que, apesar da agudiza��o das contradi��es, servem o capital financeiro e, nesta fase do momento hist�rico, n�o descortinam for�a capaz de as contrariar.

O desnorte e o cerne da quest�o

O facto � que o desnorte � grande e, para al�m das contradi��es, a fric��o inter(e intra) imperialista existe e agrava-se. Falar de situa��es, como a sa�da de alguns pa�ses do euro, que seria impens�vel ver encaradas (e por quem), come�ou a ser letra impressa ou palavra dita.
Mas a rela��o de for�as sociais (de classe) n�o � est�vel e muito menos estagnada. As condi��es objectivas em que se vive, e como aqui se chegou, come�am a ser t�o evidentes que a manipula��o da informa��o � que, hoje, substitui a censura � tem os seus limites. E a tomada de consci�ncia ganha for�a e ser� determinante.
Nesta fase do momento hist�rico, o recurso ao dinheiro em todas as suas formas, desligadas de base material, da economia real (das coisas!), n�o pode anular leis como a da baixa tendencial da taxa de lucro. Porque o trabalho cristalizado � cada vez mais importante relativamente ao trabalho vivo na composi��o org�nica do capital produtivo.
E o cerne das quest�es n�o deixar� de estar, nas condi��es particulares de cada fase do momento, na rela��o social que define o capitalismo, entre os propriet�rios dos meios de produ��o e os assalariados que s�o sua cria��o, sendo a apropria��o de mais-valia o seu alimento vital.
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(1) � em portugu�s, na Editorial Estampa, 1982 (Du Monde Entier, 1979)

(2) � �� Trata-se, brevemente, dum conjunto sistem�tico, de interconex�es entre as engrenagens do Estado, as para-estatais, etc., e o mundo dos neg�cios��

(3) � em portugu�s, nas edi��es avante!, 1998 Le Temps des Cerises, 1995) e Terramar, 1997 (Fayard, 1996)

(IV) � edi��es avante!, 1977

Apresentação do Livro Segundo de “O Capital”

do site do PCP

Sexta, 27 Novembro 2009
Na apresentação pública da tradução portuguesa do Livro Segundo Tomo V de “O Capital”, em que intervieram também José Barata Moura e Sérgio Ribeiro, Jerónimo de Sousa sublinhou a actualidade deste volume perante a actual crise do capitalismo mundial e em relação à qual se multiplicam operações de disfarce, que visam ocultar não só as verdadeiras causas e os verdadeiros responsáveis mas, essencialmente, a naturezaIntervenção de Jerónimo de Sousa,
Secretário-geral do PCP,

Apresentação da tradução portuguesa
do Livro Segundo Tomo V de “O Capital” de Karl Marx

As intervenções que me precederam, proferidas por quem há muito se abalançou no estudo aprofundado e científico da obra de Karl Marx, dispensam-nos de outras e novas considerações acerca do conteúdo deste Livro Segundo de O Capital, a não ser o de realçar a sua importância e a importância da sua tradução em português, quer para os que se entregam à investigação e ao trabalho cientifico, quer para aqueles que assumindo o seu legado se empenham no combate contra a exploração capitalista e por radicais transformações sociais. Aliás, não seria tarefa fácil tecer outras considerações ou contributos mais substanciais que enriquecessem a já ampla visão aqui exposta acerca das temáticas deste segundo livro de O Capital.

Se O Capital, obra maior de Marx, exige de todos os que se entregam à sua leitura um grande esforço de compreensão, este Livro Segundo é de leitura particularmente difícil, onde, para lá da necessária disponibilidade para enfrentar a aridez da linguagem científica, se exige preparação, tempo e estudo sistematizado. Uma tarefa que, num Partido como o nosso, se ultrapassa certamente com dificuldades, na cooperação do trabalho colectivo, no esforço de formação política e ideológica que realizamos há muito e que gostaríamos de ampliar. Também do ponto de vista estritamente partidário o avançar na tradução para português dos livros de O Capital se traduzirá num incentivo à leitura e ao estudo daqueles que, pela opção que fizeram, procuram nos caminhos do conhecimento a força das firmes convicções, mas também o domínio dos instrumentos de análise e de transformação da vida.

A importância da sua tradução é ainda maior, quando sabemos que Portugal é dos poucos países da Europa, senão o único, aonde não existe uma publicação integral de O Capital.

Este Livro Segundo remete-nos para o complexo processo da circulação do capital – para o intrincado processo das suas metamorfoses, prepara-nos para a compreensão em incursões posteriores, como já aqui se chamou a atenção e foi evidenciado e para os processos que conduzem à mundialização da economia capitalista, à sua crescente financeirização e à explicação das causas das crises e da crise com que Portugal está confrontado.

Esta questão assume nos dias de hoje uma particular actualidade perante a crise do capitalismo mundial que, com estrondo, explodiu em Agosto de 2007 ampliando o drama do desemprego, de destruição, da pobreza e da fome e em relação à qual se multiplicam as operações de disfarce que visam ocultar, no plano internacional e nacional, não só as verdadeiras causas e os verdadeiros responsáveis mas, essencialmente, a natureza exploradora do sistema.

Aí os temos tido, em uníssono, a circunscrever as explicações da crise ao deficiente funcionamento da regulação do sistema financeiro e aos “excessos”, à falta de ética e à ambição desmedida de alguns. Procuram elevar à categoria de ciência económica as pseudo-teorias ao serviço das classes dominantes e do capital financeiro. Para eles não existe exploração, nem dominação, nem capital fictício e tudo fazem para difundir a passividade, o fatalismo e a aceitação deste estado de coisas.

Temem que as massas ganhem consciência de que a crise é a consequência de um sistema comandado pelo lucro máximo, que esta é filha da concentração da riqueza e da pauperização da maioria e que ela é o resultado da sobreprodução em relação à procura solvável isto é, do poder aquisitivo efectivo das massas populares.

Procuram por todos os meios esconder o facto linear de que só a força do trabalho cria riqueza.

A multiplicação ilusória e fictícia da riqueza realmente existente através da componente especulativa cria uma autêntica roleta de casino. Mas, a partir do momento em que os títulos de crédito se tornam invendíveis desfaz-se essa aparência de capital. É por isso que aqueles que procuram fazer crer, como acontece em Portugal, que a economia já saiu da crise evocando a animação bolsista – isto é, a especulação bolsista – estão pura e simplesmente a tentar criar um clima favorável a que a especulação continue e se intensifique.

Querem sair da crise mantendo a concentração da riqueza sem aumentar o poder aquisitivo das massas e, por isso, todos se viram para as exportações ou seja para a procura dos outros. Mas como a crise é global e sistémica, só exportando para outros planetas. É por isso que assistimos à intensificação da destruição da capacidade produtiva, às falências, às fusões e concentrações e aos brutais flagelos sociais que lhes estão associados, ao mesmo tempo que prossegue a concentração da riqueza. Procura-se negar, ou pelo menos iludir, a contradição entre o carácter social da produção e a forma capitalista privada da sua apropriação, que o verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital e a sua valorização que constituem o ponto de partida, o objectivo e o fim da produção!

No nosso caso, na nossa situação nacional, aqueles que como PS e PSD têm entregue o país à crescente dominação pelo capital estrangeiro, que vai retirando avultados lucros, aqueles que são os responsáveis pela liquidação do aparelho produtivo e de sectores estratégicos são os mesmos das receitas da moderação salarial, da liquidação de direitos, da defesa do código laboral, isto é, os defensores da intensificação da exploração – da apropriação da mais- valia – como resposta à crise. Para estes a industrialização do país, a substituição da produção estrangeira pela produção nacional, o investimento produtivo, o aumento da produtividade e da competitividade, através da melhoria de gestão e do aproveitamento dos nossos recursos, está fora de moda. Modernidade para estes é o velho modelo assente nos baixos salários e no trabalho sem direitos.

O que a realidade que nos envolve revela, seja para que lado for que o nosso olhar se dirija, é que o capitalismo não resolveu um único dos grandes problemas das massas oprimidas. Os salários baixos, a falta de emprego, a precariedade, o tempo e a intensidade do trabalho, a discriminação da mulher e a falta de direitos, os problemas da habitação e da saúde, esse mundo imenso de problemas, desigualdades e injustiças que aí estão e que o recente relatório da FAO deixava transparecer com a denúncia da existência de mais de mil milhões de esfomeados do mundo.

Os seus detractores afirmam que Marx analisou em O Capital apenas uma fase determinada do capitalismo e que, por isso, a sua teoria se tornou obsoleta e não serve para explicar os problemas do capitalismo contemporâneo. Sem dúvida que mudou muito o mundo desde Marx. O capitalismo conheceu um desenvolvimento em ritmo acelerado. Novos passos na expansão mundial. Descobertas e conhecimentos das ciências. Tecnologias revolucionárias. Inesperado e vertiginoso desenvolvimento das forças produtivas.

O capitalismo da livre concorrência do tempo de Marx e seu objecto de estudo, conheceu a sua transformação em capitalismo monopolista e, em seguida, monopolista de Estado. O aparecimento e crescimento dos grandes consórcios que se transformaram paulatinamente em complexos internacionais de produção e o impetuoso desenvolvimento e complexificação do capital financeiro são outras realidades mudadas do seu tempo.

Mudou muito, sem dúvida, o mundo e o modo de produção capitalista conheceu grandes transformações mas, por muito que tenha mudado, não mudou a essência das relações de produção capitalistas. Não mudou a sua natureza exploradora, cujos mecanismos essenciais Marx revelou na sua teoria económica, cujos princípios fundamentais permanecem válidos, nomeadamente da teoria da mais-valia “pedra angular da teoria económica de Marx”.

É por isso que O Capital é actual. É actual na medida em que o modo de produção capitalista no tempo de Marx, tal como hoje, assenta na apropriação privada por parte dos possuidores dos meios de produção do produto do trabalho social dos que apenas possuem a sua força de trabalho.

Marx não nos legou um “receituário”. Legou-nos sim, para além de um “guia para acção”, instrumentos e conceitos fundamentais para analisar e compreender a realidade que nos rodeia. A actualidade de O Capital e a sua importância não está na receita pronta para solucionar os novos fenómenos e contradições que o desenvolvimento do capitalismo vai manifestando e que nos confrontam. O que é relevante é a partir de Marx analisar a realidade dos nossos dias, procurando simultaneamente um enriquecimento criativo desses conceitos e métodos no seu confronto concreto com o que é novo e a aferição dos resultados com eles obtidos pela acção prática transformadora, pela acção revolucionária neles inspirada.

Essa é a exigência de quem se apresenta com um projecto alternativo para intervir e promover a mudança e a ruptura com um sistema fundado na exploração do trabalho, tal como foi a partir dele, do seu legado, que outros prosseguiram, desde logo Engels que deu um contributo inestimável para que O Capital chegasse até nós, e de seguida Lenine, que o adequou de forma criativa à realidade concreta do desenvolvimento do capitalismo na Rússia.

Foi utilizando as ferramentas do labor científico de Marx que Lenine desbravou os novos caminhos, num trabalho fecundo de análise, apreensão e teorização sobre a realidade do seu tempo e que havia de servir para conduzir, nos planos teórico e na prática, à vitoriosa Revolução de Outubro de 1917 que mudou radicalmente o quadro sociopolítico do mundo e iniciou a primeira experiência de construção do socialismo, dando um forte impulso a todos os movimentos emancipadores e libertadores: anticoloniais, anti-imperialistas, democráticos e socialistas.

A evolução negativa da primeira experiência socialista da História precisará de continuar a ser aprofundada mas, para nós, a sua derrota não se explica pela inadequação das proposições teóricas ou do sistema de teorias que fundamentaram a possibilidade da sua realização histórica e do seu desenvolvimento, mas de outras, entre as quais pesam práticas que se afastaram dos ensinamentos de Marx e Lenine e que conduziram a preocupantes fenómenos de estiolamento teórico e ideológico.

Com a actual crise do capitalismo que assola uma grande parte do mundo, assistimos não só a apelos de um retorno a Marx, da parte de muitos que tinham dado como adquirida a vitória do capitalismo sobre as suas próprias contradições e como irrefutáveis as teses da economia política burguesa dominante, agora presa à matriz do neoliberalismo, mas ao seu inevitável regresso.

Não da parte daqueles que sabem de ciência certa que as suas construções teóricas são pura ideologia que visa justificar e alimentar a exploração e a sobrevivência do sistema que a perpetua, mas da parte de muitos que tendo dado como adquirido a decretada morte da obra de Marx pelas diversas instâncias de controlo político e ideológico, incluindo no sistema de produção científica, se sentem desarmados e sem resposta aos muitos e agravados problemas do mundo de hoje e que a actual crise do capitalismo tão exuberantemente expôs.

Estes apelos à revisitação da obra de Marx, que são bem necessários, terão motivações várias mas confirmam quanto difícil é rasurar a actualidade de Marx e o seu contributo científico, não só para uma nova compreensão do mundo mas, particularmente, para a sua transformação.

Retorno que para nós, comunistas portugueses, foi sempre uma inquestionável necessidade, não para cobrirmos os dias de hoje com as suas citações, nem para rejeitar o desenvolvimento e as contribuições criativas dos que, tal como Álvaro Cunhal, vieram depois e que tomaram a perspectiva dos novos caminhos a desbravar, mas sim para a partir dele colher os desenvolvimentos posteriores e o que de melhor a humanidade vai produzindo, trabalhando com humildade e persistência num esforço para encontrar resposta aos novos problemas e às exigências do nosso combate político.

Temos hoje, com a tradução deste Livro Segundo, mais um instrumento de trabalho, graças ao meritório esforço da Editorial Avante! e do nosso camarada José Barata Moura, para todos os que não se deixam aprisionar nos cantos da sereia do “pensamento único”, do fim da História e das ideologias. Para todos os que querem procurar e desvendar outros caminhos alternativos ou construir no terreno da luta social e política uma alternativa à sociedade, que nos conduza à realização dessa aspiração do homem revolucionário que foi Marx a quem a classe operária, os trabalhadores e porque não dizê-lo a própria humanidade muito devem já que o cientista fundamentou e projectou como uma realidade concretizável – a construção de uma sociedade sem classes e liberta de todas as formas de exploração e alienação.

Por muito difícil que seja o percurso, a sociedade nova – o socialismo – continua a ser a verdadeira alternativa e que emerge como grande exigência da actualidade e do futuro.

Tanto lá quanto cá – a questão é de classe

do blog o castendo

“O marxismo nasceu profundamente vinculado a uma visão global da sociedade e do mundo contemporâneo, à descoberta da identidade de interesses e objectivos fundamentais da classe operária de todos os países, à descoberta de um processo mundial conduzindo à liquidação do capitalismo e à construção da sociedade socialista e comunista. “

Álvaro Cunhal

Por Márcia Silva Postado em Marx

O indissolúvel nexo entre teoria e prática no marxismo

do site carta maior

No segundo texto da série “Marxismo e Século XXI”, Emir Sader trata das relações entre teoria e prática no contexto da obra e do legado de Marx: “Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica”, defende.

“Não se pode separar mecanicamente as questões políticas das questões de organização”.

(Lênin, Discurso de encerramento do 11° Congresso do Partido Comunista da Rússia, citado por Lukacs no encabeçamento do seu ensaio “Notas metodológicas sobre as questões de organização”, em “História e consciência de classe”)

O marxismo foi concebido como teoria transformadora da realidade. Por essa razão, suas primeiras grandes expressões – Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Gramsci, – foram, ao mesmo tempo, indissoluvelmente, teóricos e dirigentes revolucionários. Suas analises e denúncias estavam comprometidas com captar o nervo do real com suas contradições como motores da realidade, para poder compreendê-la na sua dinâmica e decifrar suas alternativas. Seu trabalho teórico estava intrinsecamente comprometido com projetos de transformação concreta e radical da realidade. Daí essa identidade indissolúvel entre trabalho teórico e direção política revolucionária, prática intelectual e trabalho partidário, as fronteiras entre suas atividades como teóricos e como dirigentes revolucionários eram tênues, a ponto que a primeira sistematização da idéia do comunismo – o Manifesto Comunista – foi encomendada politicamente e serviu como documento básico do primeiro partido internacional dos trabalhadores.

A partir do fenômeno que Perry Anderson chamou de “marxismo ocidental” (Nota: in Anderson, Perry, Afinidades seletivas, Boitempo Editorial), – resultado da combinação negativa da stalinização dos partidos comunistas e da repressão fascista – passou a haver uma ruptura entre teoria e prática, retornando, agora sobre o marxismo, a imagem do intelectual desvinculado da prática política, com a correspondente autonomização do discurso teórico. As estruturas partidárias, hegemonizadas pelo stalinismo, bloqueavam elaborações e debates teóricos e políticos alternativos, fazendo com que se produzisse uma nova figura no marxismo: o intelectual desvinculado da prática política. Seu correlato foi a prática política partidária desvinculada da elaboração teórica.

Inevitavelmente a analise e a denúncia passaram a predominar sobre as propostas, as alternativas. Houve um deslocamento dos temas, mas também um deslocamento a favor da teoria desvinculada da prática política. Prática política sem teoria, teoria sem prática – os dois problemas passaram a pesar comum um carma sobre o marxismo e a esquerda. A prática política da esquerda tendeu ao realismo, ao possibilismo, ao abandono da estratégia, enquanto a teoria marxista tendeu ao intelectualismo, a visões especulativas, de simples denúncia, de polêmicas ideológicas em torno os princípios, sem desdobramentos práticos.

Nas décadas mais importantes até aqui da sua trajetória – dos anos 20 do século passado em diante -, a esquerda não pôde contar com a articulação entre seus melhores intelectuais para elaborações que contribuíssem diretamente para enriquecer sua prática política e, ao mesmo tempo, um período de extraordinária riqueza na elaboração teórica do marxismo, não esteve diretamente articulada com a prática, enriquecida por ela e apontando temas e relações concretas de força.

A afirmação de Lênin que encabeça este artigo remete exatamente a isso: não existe um momento de elaboração teórica e depois um momento de aplicação concreta das conclusões teóricas. O marxismo articula intrinsecamente a política e as questões de organização, como uma das expressões da articulação entre teoria e prática. Uma analise marxista que não se articule com projetos de transformação revolucionária, castra o marxismo da sua diferença específica em relação a todas as outras teorias. Um intelectual que se diz marxista e não articula seu pensamento com a prática político-partidária, não assume o marxismo como pensamento dialético, como motor da prática política concreta. Corre todos os riscos de autonomizar a teoria, de desprezar as relações de força políticas, de não captar os movimentos reais da história. Foi o que afetou o marxismo ocidental, que não pôde aliar a imensa criatividade teórica dos autores que podem ser incorporados nessa categoria, à transformação dessa teoria em força material, pela penetração nas massas – conforme a afirmação de Marx. Perdeu a teoria sua dimensão transformadora, perdeu a prática política a imensa capacidade analítica da teoria.

Esse descolamento é politicamente grave, sendo responsável por um forte e reiterado sentimento de parte dos intelectuais, que se reivindicam legítimos representantes da teoria, que pretendem expressar em estado puro, que tem razão contra o abastardamento da política. (O próprio Lukacs expressou isso de forma consciente no novo prefácio de História e consciência de classe, quando confessa que sentia que sempre tinha tido razão e sempre tinha perdido politicamente, deduzindo que devia afastar-se da política.) Que, na realidade, entre a teoria e a realidade – sempre heterodoxa – ficam com a teoria e se isolam da prática, dos caminhos reais da história concreta.

Essa distância se torna ainda mais grave quando o mundo vive situações inéditas – hegemonia capitalista e imperial global, junto a exibição clara de suas debilidades e de retrocesso dos chamados fatores subjetivos da construção de alternativas anticapitalistas -, em que a reflexão teórica articulada com a prática política se torna ainda mais indispensável. O refúgio de setores da intelectualidade na denuncia de capitulações políticas, sem capacidade de propor alternativas, e a trajetória empírica, de adaptação correlações de força desfavoráveis por parte de forças políticas, constitui um quadro negativo, desfavorável à construção de soluções superadoras da enorme crise hegemônica que vivem nossos países e o mundo globalizado.

O exemplo dramático da Venezuela é muito significativo, em que um processo político inovador, corajoso, se choca com a oposição frontal de quase que a totalidade da intelectualidade universitária. Enquanto esta se divide entre um denuncismo de esquerda, sem ingerência política e capacidade propositiva alternativa, o processo político ressente de uma capacidade reflexiva vinculada á sua prática para contribuir a encarar seus dilemas e a definir seu futuro.

Mas o fenômeno se estende, de maneira mais ou menos similar, a todo o continente. Um brilhante pensamento critico não costuma estar acoplado à prática política, enquanto forças políticas novas tem dificuldades para encarar os novos desafios políticos, em suas dimensões teóricas. Se trata de valorizar a reflexão teórica, acoplada organicamente à prática política, e de enriquecer a prática política, iluminada pela reflexão teórica. Exemplos da articulação entre capacidade de elaboração teórica e de direção política fora, na América Latina, o chileno Luis Emilio Recabarren, o cubano Julio Antonio Mella, o peruano José Carlos Mariategui e, mais recentemente, o brasileiro Ruy Mauro Marini e o boliviano Alvaro Garcia Linera – demonstrando a factibilidade dessa articulação e de como ela fertiliza tanto a criação teórica, quanto a prática política.

A imagem do marxista universitário, desvinculado da prática política é uma contradição em termos, uma incoerência, da mesma forma que dirigentes políticos marxistas que não sejam ao mesmo tempo intelectuais revolucionários. O ponto de vista do marxismo é um ponto de vista de partido, desde um partido, desde a acumulação de forças para um objetivo estratégico, programático. Não se trata defender a teoria como cânone teórico intocável, mas de resgatar o marxismo como metodologia – sua única dimensão ortodoxa, segundo Lukacs -, de crítica e de superação da realidade existente.

Marx, teorias das crises do capitalismo e a posição dos comunistas (1)

do portal vermelho

por Sérgio Barroso*

Essa série de artigos retoma o debate sobre a interpretação marxiana – e marxista – das crises capitalistas. Seus objetivos são: a) buscar contribuir para a compreensão do fenômeno integrante da estrutura dinâmica do capitalismo – as crises – segundo a teoria de Karl Marx [1]; b) criticar interpretações anacrônicas do marxismo, algumas na crise global de agora ressuscitadas pela mania catastrofista e escatológica [2]; c) opinar sobre a posição teórica e política dos comunistas no enfrentamento da grande crise atual, a partir das lições emanadas da Grande Depressão (1873-96 e 1929-1939).

 


Na Bolsa de Valores

 

Com efeito, tais objetivos se entrelaçam visando abrir caminhos num panorama marcado por grandes incertezas, o que dificulta horizontes mais claros para combates mais conseqüentes. Noutra palavras, análises reducionistas da teoria de Marx e Lênin frente aos complexos (e singulares) processos, como das grandes crises, resultam “ligeirinho” na substituição dum sistema tático de reforço das posições revolucionárias, pelo discurso estratégico errático.

 

Aspectos fundamentais inseparáveis: dinamismo e crises

 

Na primeira parte da série trataremos da correlação entre a valorização do valor (da mais-valia) como objetivo central da produção capitalista, o que resulta, do ponto de vista sistêmico, sempre em superacumulação, superprodução de capital – que também são ativos financeiros. Sempre que possível referenciando-nos na origem e no desenrolar da crise global que presenciamos.

 

1. Certamente que as crises no capitalismo não podem ser separadas da sua dinâmica própria, intrínseca.  O capitalismo, em seu móvel de acumular por acumular, jamais se interessará pelas “necessidades sociais” das massas trabalhadoras. Isto diz respeito à sua “missão”, a qual, segundo Marx, é produzir em larguíssima escala, até superproduzir capital. Quer dizer, sobreinvestir para fazer crescer a produtividade social do trabalho e suplantar a concorrência, superproduzir para superlucrar, e superacumular capital em excesso e em todas as suas formas, referenciando-se numa dada taxa média de lucro.

 

Portanto, a superprodução de capital – essencialmente de máquinas, equipamentos, instalações, matérias-primas, e ativos financeiros, claro – é uma “novidade” do século 19, então anunciada por Marx contra as teorias Smith e Ricardo. Mais além, constitui imenso equívoco borrar as formas que redesenham as crises que mimetizam o desenvolvimento do capitalismo.

 

Exemplifico. Na crise atual, há quem, muito estranhamente repita que considerar “uma crise da ‘financeirização’” é “unilateralismo”, pois a crise não é só financeira, “apesar da relevância dos problemas nesta esfera”. Ora, primeiro não se trata de “crise de financeirização”, isso é desconversa. Trata-se sim de uma crise gestada num padrão de acumulação capitalista francamente voltado para a acumulação financeira, onde a financeirização dos mercados de riqueza se fez institucional. Segundo, repitamos: o capital nunca foi somente máquinas, equipamentos e instalações, tampouco mercadorias: é também ativos financeiros que rendem juros e dinheiro. Manipulado por capitalistas, o dinheiro produz mais dinheiro por ser reserva de valor, por agir como capital a juros (capital-dinheiro), por potencialmente atrair mais crédito. O capital procura valorizar-se sempre – sinuosamente tal qual uma serpente -movimentando-se entre o dinheiro, os ativos financeiros, as mercadorias ampliando sua base de valorização. Na operação crédito/capital a juros o capital converte-se em mercadoria e exprime-se “cada vez mais como puro capital”, no capital por ações, e outros títulos financeiros que representam o direito de apropriação da riqueza [3]. É uma dimensão do movimento de suas formas, que o gênio Karl Marx denominou de “As três figuras do ciclo”:

 

“Sempre mudando de forma e se reproduzindo, parte do capital existe como capital-mercadoria que se converte em dinheiro; outra, como capital-dinheiro que se transforma em capital produtivo; uma terceira, como capital produtivo que se torna capital-mercadoria. A existência contínua dessas três formas decorre de o ciclo do capital global passar por essas três fases” [4].

 

Por isso que, para Robert Guttmann, “A crise atual, todavia, é diferente. Não apenas emanou do centro, em vez surgir de algum ponto da periferia, como também revelou falhas estruturais profundas na arquitetura institucional de contratos, fundos e mercados que compunham o sistema financeiro novo e desregulamentado. Estamos diante de uma crise sistêmica, que é sempre um evento de proporções épicas e efeitos duradouros. Claras são as distinções da preponderância esmagadora da finança, nesta crise.”

 

 

Valorização, superacumulção e crises

 

2. Assim, conforme Marx: “a força motriz da produção capitalista é a valorização do capital, ou a seja a criação de mais-valia, sem nenhuma consideração para com o trabalhador” [5]. Daí que na dinâmica do capitalismo, a crise, ou seja, as crises são partes constitutivas da sua dinâmica estrutural. O que não quer dizer – que as crises são sempre estruturais desde priscas eras. Crescimento, recessão, recuperação, expansão e instabilidade – também estagnação – são as categorias principais do capitalismo de hoje, portanto historicamente datadas, e seu vetor de acumulação é projetado pela hegemonia da haute finance (Karl Polanyi).

 

Pelo seu caráter incontornavelmente expansivo [6], de outra parte, não seria possível a financeirização – um padrão que passou a ser imprescindível ao dinamismo determinado pela hegemonia da grande finança especulativa e concorrencial -, “brotar” da estagnação (veremos mais sobre isso noutro artigo). A exemplo, nas grandes fases expansivas antecedem a dinâmica das crises, geralmente: monopolização + financeirização + superacumulação (também de riqueza financeira fictícia) + crises [podendo haver ou não estagnação].

 

Está em Marx que o desenvolvimento do moderno sistema de crédito decorre da imperiosa necessidade de centralização de massas de capitais, o que coincide com o processo de autonomização do capital a juros, configurando um circuito financeiro que mobiliza, utiliza e centraliza capital monetário e valoriza capital fictício. É assim que: a) a proliferação de títulos financeiros passa “a ter uma circulação e valorização próprias”; b) as variadas formas de ativos “passam a ser disputadas pelas massas centralizadas de capital”, onde o investimento busca todos os espaços de valorização; onde a sistemática “transformação dos lucros em excedentes financeiros” se submetem “a uma lógica particular de valorização” [7].

 

 

Por suposto, o que importa destacar por enquanto é que o monopólio não apenas reafirma a tendência à superacumulação, como introduz novas determinações que terminam por agravar a instabilidade e a incerteza do cálculo capitalista, próprias desse regime de produção; muito mais ainda na época da “globalização financeira”. E que a teorização dos processos mais recentes que catapultam as crises via circuitos da “finança mundializada” (François Chesnais) são similares aos mecanismos originários das crises desse regime de produção. O que, mais uma vez, na presente crise global, pode ser constatado cabalmente na destruição de vários dos maiores bancos de “investimento”, gigantescos bancos e coração do sistema (exatamente) financeiro dos EUA.

 

 

Aliás, além de superacumulação-produção, devemos insistir em que a desproporção entre os departamentos e a lei de tendência de queda da taxa de lucro são igualmente fenômenos expressivos da dinâmica da crise. Crises que, conforme Marx, em última instância tem como determinação originária o antagonismo irresoluto: apropriação cada vez mais privada X produção cada vez mais expansivamente social.

 

O que veremos no próximo artigo.


Notas

 

[1] É inacreditável, mas há ainda quem pense a crise capitalista quando “a interrupção do processo de circulação do capital ocorre com a paralisação da venda de mercadorias…”. Assim Lênin combatia o rotundo fracasso das teses subconsumistas, costumeiramente copiadas repetidas vezes do marxista Paul Sweezy (“Teoria do desenvolvimento capitalista”): “Marx se limita a manifestar aqui [passagens do Livro II] sobre a teoria da realização uma contradição do capitalismo assinalada já em outras passagens de O Capital, a saber: a contradição entre a tendência à ampliação ilimitada da produção e a necessidade de um consumo limitado (a conseqüência da situação proletária das massas do povo)” (“Observación sobre el problema de La teoria de los mercados”, in: “Sobre El problema de los mercados”, p. 210, Madri, Siglo veinteuno, 1974).

 

 

[2] Os “adivinhadores de crise” são os mesmos que agora tergiversam sobre seu longo passado diuturno militante em prol da “catástrofe iminente” do capitalismo, da “decomposição iminente do padrão dólar”, e procuram confundir a análise as grandes crises do capitalismo, como a que transcorre, inúmeras vezes apontadas previamente como tendências que vinham se plasmando – dado o visível grau de superacumulção geral de capital, expansão, especulação, alavancagem e instabilidade -, com suas orações matinais dogmáticas proclamadas há mais de uma década! Chuta que um dia a casa cai…!

 

[3] Ver: “Capitalismo e crise contemporânea – a razão novamente oculta”, de A. S. Barroso, dissertação de Mestrado, Campinas, Unicamp/IE, 2003. A passagem tem por base observações de Braga, J. C. S. (2000).

 

[4]  Em: “O Capital” Livro 2, v. 3, Cap. IV, p. 106, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, s/data.

 

[5] Em: “Capítulo inédito D’o Capital – resultado do processo de produção imediato”, Marx, p. 20, Porto, Escorpião, 1975.

 

[6] Há sim limite estrutural irreversível na dinâmica estrutural do capitalismo: enquanto investe perenemente em sua base técnica (desenvolvimento das forças produtivas como determinante histórico do desenvolvimento), parar alagá-la, expandir a produção e suplantar a concorrência, Das Kapital tem que reduzir, descartar, até mesmo destruir sua própria base de valorização: o trabalho humano e o tempo social necessário à sua subsistência e o da extração da mais-valia.

 

[7] Ver  todo o Capitulo 2 (“O monopólio do capital”) do estudo que considero uma pequena obra-prima, “A contradição em processo – o capitalismo e suas crises”, do professor Frederico Mazzucchelli, especialmente as pp. 84-90 (Campinas, Unicamp/IE, 2004, 2ª edição).

Eu, Etiqueta – Drummond

Antes de Drummond , Marx já explicava isto no capítulo I do Capital, quando analisa a mercadoria e a questão subjetividade das coisas e a objetividade das pessoas.

Drummond de uma forma brilhante coloca em poema nossa desumanização.

na voz de Paulo Autran segue o Poema    Eu, Etiqueta

EU ETIQUETA

Em minha calça está grudado um nome

Que não é meu de batismo ou de cartório

Um nome… estranho.

Meu blusão traz lembrete de bebida

Que jamais pus na boca, nessa vida,

Em minha camiseta, a marca de cigarro

Que não fumo, até hoje não fumei.

Minhas meias falam de produtos

Que nunca experimentei

Mas são comunicados a meus pés.

Meu tênis é proclama colorido

De alguma coisa não provada

Por este provador de longa idade.

Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,

Minha gravata e cinto e escova e pente,

Meu copo, minha xícara,

Minha toalha de banho e sabonete,

Meu isso, meu aquilo.

Desde a cabeça ao bico dos sapatos,

São mensagens,

Letras falantes,

Gritos visuais,

Ordens de uso, abuso, reincidências.

Costume, hábito, permência,

Indispensabilidade,

E fazem de mim homem-anúncio itinerante,

Escravo da matéria anunciada.

Estou, estou na moda.

É duro andar na moda, ainda que a moda

Seja negar minha identidade,

Trocá-la por mil, açambarcando

Todas as marcas registradas,

Todos os logotipos do mercado.

Com que inocência demito-me de ser

Eu que antes era e me sabia

Tão diverso de outros, tão mim mesmo,

Ser pensante sentinte e solitário

Com outros seres diversos e conscientes

De sua humana, invencível condição.

Agora sou anúncio

Ora vulgar ora bizarro.

Em língua nacional ou em qualquer língua

(Qualquer principalmente.)

E nisto me comparo, tiro glória

De minha anulação.

Não sou – vê lá – anúncio contratado.

Eu é que mimosamente pago

Para anunciar, para vender

Em bares festas praias pérgulas piscinas,

E bem à vista exibo esta etiqueta

Global no corpo que desiste

De ser veste e sandália de uma essência

Tão viva, independente,

Que moda ou suborno algum a compromete.

Onde terei jogado fora

Meu gosto e capacidade de escolher,

Minhas idiossincrasias tão pessoais,

Tão minhas que no rosto se espelhavam

E cada gesto, cada olhar

Cada vinco da roupa

Sou gravado de forma universal,

Saio da estamparia, não de casa,

Da vitrine me tiram, recolocam,

Objeto pulsante mas objeto

Que se oferece como signo dos outros

Objetos estáticos, tarifados.

Por me ostentar assim, tão orgulhoso

De ser não eu, mas artigo industrial,

Peço que meu nome retifiquem.

Já não me convém o título de homem.

Meu nome novo é Coisa.

Eu sou a Coisa, coisamente.