Entre salvar o euro e o europeu

do monitor mercantil

 

 Assis: banco comercial é financiador, não especulador (Foto: Nando Neves)

Economista alerta que fanatismo fiscal impede Europa de voltar ao crescimento

Na opinião do economista José Carlos de Assis, integrante do Conselho Editorial do MM, a crise atual põe a Europa diante de um impasse sobre seu futuro: optar entre o euro ou os europeus. “Se as políticas econômicas na região continuarem sendo determinadas pelas agências de risco será o caos. Esta crise é profunda e, provavelmente, a Europa será a última a sair dela, em razão das políticas contracionistas e ortodoxas do Banco Central Europeu (BCE)”, disse.

De acordo com o economista, somente as operações de conversão de moedas giram US$ 3 trilhões por dia: “O grande problema é banco comercial poder atuar como banco de investimento. O papel dos comerciais é tomar a curto prazo e emprestar a longo, mas hoje toma e empresta a curto prazo. A força de crescimento da economia é a expansão monetária em cima de depósitos à vista, mas parece que a maioria dos economistas não consegue entender isso”, criticou.

Para Assis, em vez de apostar na ortodoxia monetária e fiscal, os europeus deveriam proibir os bancos comerciais de operarem como bancos de investimento:

“A situação mundial esbarrou nas contradições do capitalismo, como previu Marx. O primeiro passo é mudar profundamente o sistema bancário, criando um sistema que obrigue os bancos comerciais a financiarem a pequena e a média empresa, que geram emprego, mesmo que seja necessário estatizar o sistema ou criar uma forma de governança que não seja o banqueiro.”

O economista disse ainda que a Grécia é apenas a ponta do iceberg do risco de depressão na Europa: “Se o critério é o déficit fiscal, não é só a Grécia que apresenta problemas, mas a Europa inteira, sobretudo Espanha, Portugal e Itália, mas também a Inglaterra, com déficit nominal superior a 10% do PIB”, contabiliza

Nota sobre o Relatório da Conferência da ONU sobre a Crise (*)

O professor Ladislau Dowbor analisa o relatório final da conferência promovida pela ONU para debater a crise econômica mundial: “visão sistêmica, articulação das dimensões econômica, social e ambiental, prioridade à geração de empregos, visão de longo prazo, menos dependência do mercado, reforço do Estado. São grandes eixos, e seria difícil pedir demais de uma instituição multilateral onde cada documento deve recolher uma amplíssima gama de apoios. Mas a visão ajuda a deslocar as dimensões estreitas dos que vêm na crise apenas um problema de regulação financeira”.

Ladislau Dowbor

La Crisis representa “una importante oportunidad de efectuar cambios significativos(…). En adelante, nuestra respuesta debe centrarse en la creación de empleo, el aumento de la prosperidad, el mejoramiento del acceso a la salud y a la educación, la corrección de los desequilibrios, la formulación y utilización de vías de desarrollo sostenibles desde los puntos de vista ecológico y social y la adopción de una clara perspectiva de género. Nuestra respuesta también debe reforzar las bases de una globalización justa, inclusiva y sostenible, apoyada en un multilateralismo renovado.”(10)

A nota acima, extraída do Relatório, dá uma idéia da ampla visão de resposta à crise, muito além da dimensão financeira. A amplitude da visão fragiliza, por outro lado, a praticidade das medidas. De toda forma, pelo peso da instituição, é importante ter uma idéia geral do documento, mesmo que seja provisório e comedido. Como o documento, com 16 p., é bastante curto, e disponível no link abaixo, apontamos aqui apenas alguns pontos que nos pareceram mais relevantes.

O relatório afirma a gravidade da crise: “El mundo se enfrenta a la peor crisis financiera y económica que se há registrado desde la Gran Depresión.” Busca também resgatar o papel das Nações Unidas no processos: “Las Naciones Unidas, dadas su composición y legitimidad universales, están bien posicionadas para participar en los diversos procesos de reforma encaminados a mejorar y fortalecer el eficaz funcionamiento de la arquitectura y el sistema financieros internacionales.”(2)

Ponto importante, articula a crise financeira com o conjunto de ameaças que temos no horizonte:

“Esta crisis está vinculada a múltiples crisis y problemas globales interrelacionados, como el aumento de la inseguridad alimentaria, la volatilidad de los precios de la energía y los productos básicos y el cambio climático, así como la falta de resultados que ha habido, hasta ahora, en las negociaciones comerciales multilaterales y la pérdida de confianza en el sistema económico internacional.” (7)

Ou seja, aponta para a dimensão sistêmica da crise, com impacto tanto econômico (queda de 2,6% do PIB mundial projetada para 2009) como social (fome e subnutrição deverão atingir mais de um bilhão de pessoas).

Os impactos da crise estão bem resumidos:(8)

“En todo el planeta la crisis ha tenido efectos graves y de amplio alcance, pero diferenciados, o los ha agudizado. Desde que comenzó, numerosos Estados han informado de sus efectos negativos, que varían según el país, la región y el nivel de de desarrollo y de gravedad, y que abarcan, entre otros, los siguientes:

• Incremento rápido del desempleo, la pobreza y el hambre
• Desaceleración del crecimiento, contracción económica
• Efectos negativos en las balanzas comerciales y la balanza de pagos
• Disminución de los niveles de inversión extranjera directa
• Fluctuaciones amplias e inestables de los tipos de cambio
• Aumento de los déficits presupuestarios, caída de las recaudaciones fiscales y reducción del margen fiscal
• Contracción del comercio mundial
• Mayor volatilidad y caída de los precios de los productos básicos
• Disminución de las remesas a los países en desarrollo
• Reducción brusca de los ingresos del turismo
• Inversión generalizada de las corrientes de capital privado
• Menor acceso a los créditos y a la financiación del comercio
• Menor confianza del público en las instituciones financieras
• Reducción de la capacidad de mantener redes de seguridad social y prestar otros servicios sociales, como los de salud y educación
• Incremento de la mortalidad infantil y materna
• Derrumbe de los mercados inmobiliarios.

A lista de medidas a serem tomadas, qualificadas de “decisivas e imediatas”, é extremamente geral: (11)

“Nos comprometemos a colaborar de manera solidaria para dar una respuesta mundial coordinada y amplia a la crisis y a adoptar medidas encaminadas, entre otras cosas, a:

• Restablecer la confianza, reactivar el crecimiento económico y crear empleo pleno y productivo y trabajo decente para todos
• Salvaguardar los beneficios económicos, sociales y de desarrollo
• Prestar apoyo suficiente a los países en desarrollo para que puedan afrontar los efectos humanos y sociales de la crisis a fin de preservar y consolidar los beneficios económicos y de desarrollo que tanto les ha costado conseguir, incluidos los progresos alcanzados en el logro de los Objetivos de Desarrollo del Milenio
• Asegurar la sostenibilidad de la deuda de los países en desarrollo a largo plazo
• Tratar de proporcionar a los países en desarrollo suficientes recursos para el desarrollo sin imponer condiciones injustificadas
• Reconstruir la confianza en el sector financiero y restablecer el crédito
• Promover y revitalizar un comercio y una inversión abiertos y rechazar el
proteccionismo
• Fomentar una recuperación inclusiva, ecológica y sostenible y seguir
prestando apoyo a los esfuerzos que despliegan los países en desarrollo para lograr el desarrollo sostenible
• Reforzar la función del sistema de las Naciones Unidas para el desarrollo en la respuesta a la crisis económica y sus efectos en el desarrollo
• Reformar y reforzar el sistema y la estructura financieros y económicos
internacionales, según corresponda, para adaptarlos a los desafíos actuales
• Promover la buena gobernanza a todos los niveles, incluso en las instituciones financieras y los mercados financieros internacionales
• Afrontar los efectos humanos y sociales de la crisis.

Em termos da regulação, o documento aponta para a gravidade do “excesso de confiança nos mecanismos de autoregulação do mercado”, e para a necessidade de se resgatar o papel do Estado, afirmando “la necesidad de una intervención más efectiva por parte del Gobierno para lograr un equilibrio apropiado entre el interés del mercado y el interés público.”(9).

“Estamos todos juntos nesta crise”, afirma o relatório, o que tem uma certa dimensão irônica, pois na fase dos ganhos financeiros evidentemente não estávamos. Mas de toda maneira, é real a visão global do processo: “La crisis actual ha revelado cuán integradas están nuestras economías, cuán indivisible es nuestro bienestar colectivo y lo insostenible que resulta centrarse de forma prioritaria en los beneficios a corto plazo.”(42)

Portanto, visão sistêmica, articulação das dimensões econômica, social e ambiental, prioridade à geração de empregos (“job-intensive recovery from the crisis”), visão de longo prazo, menos dependência do mercado, reforço do Estado. São grandes eixos, e seria difícil pedir demais de uma instituição multilateral onde cada documento deve recolher uma amplíssima gama de apoios. Mas a visão ajuda a deslocar as dimensões estreitas dos que vêm na crise apenas um problema de regulação financeira.

(*) Conferencia sobre la crisis financiera y económica mundial y sus efectos en el desarrollo Distr. General 22 de junio de 2009 – Os números entre parêntesis no nosso texto representam o parágrafo do Relatório. O Relatório, provisório, está disponível em espanhol em:

A crise financeira sem mistérios (III)

adital

16.03.09 – MUNDO

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Ladislau Dowbor *
Adital –

(Continuação)As medidas propostas: salvar o sistema ou transformá-lo?

Naturalmente, dado o peso político do sistema especulativo mundial engendrado nas últimas décadas, predomina na mídia e nas tomadas públicas de posição a busca de um simples conserto, um “arreglo” como dizem os hispânicos, que permita aos especuladores voltar aos bons dias. Inclusive, quase não se encontram explicações sobre os mecanismos: a mídia se concentra no que se tem chamado de “economia de elevador”, jogando diariamente cifras sobre porcentagens de ganhos e perdas, e entrevistando magos que decifram o futuro dos altos e baixos, sobre os quais em geral não têm a mínima idéia. A palavra chave, que protege o consultor, é sempre que “o mercado está nervoso”, o que implica cientificamente que tudo é possível.

s a realidade é que algumas coisas mudaram de forma irremediável, constituindo deslocamentos sistêmicos. Primeiro, há o fato que a credibilidade dos Estados Unidos e o seu papel de liderança planetária, já fortemente abalados pelos golpes desferidos contra as Nações Unidas, as guerras irresponsáveis, o uso escancarado da tortura, e o desprezo geral pela concertação internacional – afundaram de maneira impressionante. Houve um deslocamento geopolítico sistêmico em direção ao mundo multipolar.

Segundo, se já depois do calote de Nixon em 1971, com a desvinculação do dólar da sua cobertura em ouro, já se falava na morte do sistema Bretton Woods, hoje a visão torna-se muito mais ampla, pois houve uma falência generalizada dos mecanismos de regulação que se acreditava serem funcionais. Em particular, a regulação financeira havia sido montada como instrumento destinado a impedir o comportamento irresponsável por parte dos países em desenvolvimento, e a crise surge nos países que se propunham como modelo. Não há instrumentos de regulação multilateral para esta situação. A imagem de um Bretton Woods II, no sentido de uma reformulação sistêmica dos processos regulatórios e das regras do jogo, está no horizonte.

Um terceiro ponto importante, é que diferentemente da crise de 1929, em que cada país se recolheu em posturas defensivas para lamber as suas feridas em mercados protegidos, desta vez há uma atitude concertada e multilateral para se enfrentar a crise. A rapidez com a qual se levantaram recursos para salvar instituições cuja credibilidade é baixíssima, mas cujo poder de estrago é imenso, aponta para uma nova cultura de construção de políticas multilaterais, mas também para o imenso poder político dos especuladores, que tudo farão para conter mudanças estruturais.

Quarto, e particularmente importante para nós, com a reunião do G20 em 15 de novembro de 2008, há pela primeira vez um reconhecimento planetário de que o mundo dito “em desenvolvimento” existe não apenas como fonte de matérias primas e de problemas, mas como fator essencial da construção de soluções. (26)

Finalmente, o abalo planetário da confiança nas instituições financeiras não tem volta, pois são milhões os que foram prejudicados nas suas poupanças ou aposentadorias, e circulam em todos os meios de comunicação as contabilidades duplas, o uso dos paraísos fiscais para fraudar tanto o público como as obrigações fiscais, a falsificação dos dados sobre a situação real das instituições, o compadrio que preside às atividades das agências de avaliação de risco. No caso da Enron, depois da WorldCom e da Parmalat, houve uma ofensiva de propaganda em defesa do sistema, sugerindo a imagem das maçãs podres (bad apples) num sistema saudável. Hoje, esta imagem mudou, e a reconstrução da confiança só se dará no quadro de mudanças sistêmicas. São muitas bad apples. Esta mudança de contexto ainda não chegou a Basileia.(27)

Não é o caso aqui de entrar no detalhe da enxurrada de propostas que surgem, veremos apenas os rumos gerais. É interessante consultar as 47 propostas elencadas na sequência da reunião do G20 em novembro de 2008, a bateria de sugestões desenvolvidas por Barack Obama para reequilibrar a economia norte-americana (indo bastante além do mercado financeiro), a consulta organizada por Eichengreen a um conjunto de especialistas dias antes da reunião do G20, as propostas preliminares do Comitê de Supervisão Bancária de Basiléia. Trata-se por enquanto de propostas, não mais do que isto.

Da mesma forma como Bretton Woods exigiu dois anos de preparação por equipes técnicas, não se fará uma reformulação real em pouco tempo. Trata-se, até agora, de uma ampla lista de idéias. E não devemos perder de vista que os responsáveis (e beneficiários) do sistema jogarão a carta do tempo, esperando que a crise amaine para que nada mude. Elencamos a seguir alguns elementos destas primeiras propostas, sabendo que ainda carecem do arcabouço técnico de sua sistematização e do poder político de sua implementação.

Agrupando as propostas segundo os seus eixos de impacto, as mais significativas vêm na área da governança, já que claramente ninguém estava governando coisa alguma.(28) A principal questão envolve a existência ou não de um instrumento supranacional de regulação financeira global, na linha de uma World Financial Organization (WFO) análoga à Organização Mundial do Comércio (WTO na sigla inglesa). Dado o caráter internacional dos processos especulativos, a sua evolução para sistemas racionais de canalização de capitais em função de necessidades reais do desenvolvimento terá de alguma forma ser coordenada ao nível mundial. Na reunião do G20, qualquer opção neste sentido foi vetada pelos Estados Unidos, que colocaram nas resoluções a afirmação de que os problemas serão resolvidos antes de tudo pelos “reguladores nacionais”. Os Estados Unidos assim preservam a sua capacidade de agir mundialmente, mas de se regularem nacionalmente. Com esta visão, evidentemente, simplesmente não haverá regulação. (29)

Sobra então a cosmética relativa às organizações multilaterais existentes. Isto envolve a capitalização do Fundo Monetário Internacional, cujos recursos, da ordem de 250 bilhões de dólares, são ridículos frente à dimensão dos rombos financeiros gerados pelos bancos. Propõe-se igualmente a redistribuição dos votos no Fundo, retirando o poder de veto dos EUA. O BIS deveria também passar a ser administrado de forma mais ampla e receber maiores poderes e assim por diante. Continuamos, no entanto, no quadro destas propostas, com o dilema central: a finança se tornou mundial, mas não há nada que se pareça com um banco central mundial. Fluxos mundiais versus regulação nacional; processos globais versus gestão fragmentada. Who’s in charge?

Neste plano tem sido ainda colocado um argumento central: com a regulação fragmentada atual, qualquer país que passe a exercer algum controle sobre o movimento de entrada e saída de capitais, visando assegurar o seu uso produtivo e evitar os movimentos pró-cíclicos, passa imediatamente a ser discriminado nos movimentos, tanto pelos investidores institucionais como pelas agências de risco. A regulação, nestas condições, ou é planetária ou ineficiente.

Os conteúdos da regulação reforçada proposta são relativamente óbvios, e não muito misteriosos: trata-se antes de tudo de limitar a alavancagem, que atingiu conforme vimos níveis absurdos. Trata-se também de assegurar a transparência dos processos, e de organizar o acesso às informações não apenas individualmente, mas em termos sistêmicos. (30). Uma exigência igualmente óbvia é o controle da dupla contabilidade, que se generalizou, bem como o controle dos paraísos fiscais e das fraudes associadas ao “off-shore” financeiro. As agências de avaliação de risco ganhariam um quadro regulatório (“regulatory framework”) e não poderiam ser financiadas por quem avaliam. (31)

Este tipo de recomendações constitui uma visão de que o sistema deve se manter, mas a sua governança deve melhorar. O problema básico, naturalmente, é o das próprias condições da governança. O elefante no meio da sala – o que não dá para não ver, e que é grande demais para mover – é o pequeno clube de gigantes mundiais que maneja todo este processo, que desencadeou o caos e que chamamos por alguma razão misteriosa de “forças de mercado”. A delicadeza com que se trata este grupo comove. Na declaração do G20 de 15 de novembro, merece apenas três linhas: “As instituições financeiras também (!) devem arcar com a sua parte da responsabilidade na confusão (turmoil), e deveriam fazer a sua parte para superá-la, inclusive reconhecendo as perdas, melhorando a informação (disclosure) e fortalecendo a sua governança e práticas de gestão de risco”.(32)

Claessens é dos poucos que coloca com clareza a necessidade de “um novo regime para os grandes bancos internacionais”: “One internally consistent approach, perhaps the only one, is to establish a separate regime for large, internationally active financial institutions. This would mean an ‘International Bank Charter” with accompanying regulation and supervision, liquidity support, remedial actions as well as post-insolvency recapitalisation fund in case things go wrong. The idea is that a separate international college of supervisors, with professionals recruited internationally, would regulate, license and supervise these institutions” (33). Em troca destas mudanças, os grupos poderiam “agir livremente”.

No conjunto, é óbvio que um sistema onde um país detém o poder de emitir uma moeda cujo uso é internacional, é estruturalmente desequilibrado. Qualquer proposta de se regular gigantes planetários sem haver um sistema supranacional efetivo é estruturalmente ineficaz. Na realidade, estamos aqui no reino do “wishful thinking”, de propostas destinadas a negociar a transição até sairmos magicamente do fundo do poço, para saudar a volta dos happy days e esperar a próxima crise.(34)

A grande incógnita neste início de 2009, é o próximo presidente dos Estados Unidos, que recebe um país profundamente desmoralizado e caótico nos planos político, militar, econômico e, sobretudo, ético. O caos gerado nesta presidência Bush, em que o poder de fato foi exercido não por um presidente, mas por corporações, políticos corruptos e fundamentalistas religiosos, abre espaço para mudanças profundas. Se as forças que estão se agregando em torno a Barack Obama terão dinamismo suficiente para gerar mudanças institucionais, é um ponto de interrogação, mas em todo caso é um potencial e uma oportunidade. Aliás, a crise, ao cimentar a eleição de Obama, algo de positivo já trouxe.

A convergência das crises: um outro desenvolvimento, outras instituições

Tivemos, portanto, de imediato numerosas propostas de consertos do sistema, sem mexer na sua lógica. A intenção é claramente mostrar que no futuro será diferente, pois teremos governos severos e austeros que cobrarão resultados. Haverá postura e ética no sistema reformado. E os grupos responsáveis por tudo isto, que, aliás, aparecem tão pouco na mídia quando os dias são bons, passarão a se comportar de maneira socialmente responsável. As propostas surgem mesmo sem muita base institucional ou elaboração técnica, porque uma massa de poupadores no planeta está sendo atingida diretamente – da classe média para cima – pelo derretimento das suas poupanças e das suas esperanças de aposentadoria.(35) E na medida em que o caos financeiro gerado pelos especuladores está atingindo os produtores efetivos de bens e serviços, é o povo em geral que passa a sofrer as consequências. Dentro do sistema, há uma clara consciência da volatilidade política da situação. Propostas, em consequência, surgem rapidamente. A sua implementação – a não ser os trilhões demandados pelos grandes grupos – obedecerá a outros ritmos.

O caos sistêmico gerado e a clara perda de governança econômica, frente ao desespero de uma imensa massa de pessoas prejudicadas, estão gerando um novo clima político. Estão se abrindo possibilidades de se colocar na mesa propostas mais amplas no sentido de um desenvolvimento que tenha pé e cabeça. Mais precisamente, gera-se um espaço para que surjam alternativas de desenvolvimento, e para que – não parece um objetivo exorbitante – o nosso próprio dinheiro sirva para fins úteis. Não se deve sonhar excessivamente – muito do espaço político gerado dependerá da profundidade da crise – e esta é uma incógnita. Mas é importante sim organizar alternativas sistêmicas, pois o que estamos sofrendo é uma crise estrutural de curto e médio prazos dentro de um quadro de crises mais amplas que se avizinham, particularmente nos planos social, climático, energético, alimentar, de água e outros.

As propostas que estão surgindo vêm de pessoas como Jeffrey Sachs, que propõe que o uso dos recursos financeiros seja formalmente vinculado à construção das Metas do Milênio.  Stiglitz trabalha com uma visão de fazer os objetivos de qualidade de vida nortearem a alocação de recursos, e não apenas o chamado Produto Interno Bruto. Hazel Henderson  resgata a importância da taxa Tobin, que cobraria um imposto sobre transações internacionais especulativas para financiar um desenvolvimento socialmente mais justo. Ignacy Sachs trabalha com a visão de uma convergência da crise financeira com a crise energética e a necessidade de repensarmos de forma sistêmica o nosso modelo de desenvolvimento. Não se trata aqui de um idealismo excessivo, e sim de uma apreciação fria dos nossos desafios.

O gráfico que apresentamos abaixo constitui um resumo de macro-tendências, num período histórico de 1750 até a atualidade. As escalas tiveram de ser compatibilizadas, e algumas das linhas representam processos para os quais temos cifras apenas mais recentes. Mas no conjunto, o gráfico permite juntar áreas tradicionalmente estudadas separadamente, como demografia, clima, produção de carros, consumo de papel, apropriação da água, liquidação da vida nos mares e outros. A sinergia do processo torna-se óbvia, como se torna óbvia a dimensão dos desafios ambientais. (36)

O comentário do New Scientist sobre estas macrotendências foca diretamente o nosso próprio conceito de crescimento econômico:
The science tells us that if we are serious about saving the Earth, we must reshape our economy. This, of course, is economic heresy. Growth to most economists is as essential as the air we breathe: it is, they claim, the only force capable of lifting the poor out of poverty, feeding the world’s growing population, meeting the costs of rising public spending and stimulating technological development – not to mention funding increasingly expensive lifestyles. They see no limits to growth, ever. In recent weeks it has become clear just how terrified governments are of anything that threatens growth, as they pour billions of public money into a failing financial system. Amid the confusion, any challenge to the growth dogma needs to be looked at very carefully. This one is built on a long standing question: how do we square Earth’s finite resources with the fact that as the economy grows, the amount of natural resources needed to sustain that activity must grow too? It has taken all of human history for the economy to reach its current size. On current form, it will take just two decades to double.


Estamos aqui entre pessoas que entenderam que se trata de um sistema que sem dúvida deixou de funcionar, e que está portanto em crise, mas que sobretudo é um sistema que quando funciona é inviável. As soluções têm de ser mais amplas. Esta visão mais ampla pode – e apenas pode – viabilizar mudanças mais profundas.

A crise financeira tem esta particularidade de ser pouco transparente em termos de dinâmicas e de soluções, para a população em geral. Não é muito viável se colocar na rua grandes manifestações relativas à mudança dos mecanismos de regulação do BIS de Basileia. A grande defesa do sistema absurdo de especulação que enfrentamos, é que pouquíssimas pessoas entendem o que se passa. Mas se os mecanismos são obscuros, os impactos são visíveis, e estes sim podem mobilizar.

A perda de empregos por parte de gente que estava cumprindo bem as suas funções produtivas, porque uns irresponsáveis gostam de ganhar dinheiro com poupança dos outros, gera indignação. A perda da base de sobrevivência de cerca de 300 milhões de pessoas no planeta que viviam de pesca artesanal, porque grandes empresas de pesca oceânica estão acabando com a vida nos mares, está gerando outra faixa de irritações políticas. O caos climático está trazendo as primeiras amostras do seu potencial, e está gerando outros desesperos, além de tomadas mais amplas de consciência. A contaminação da água doce por excessos de quimização, insuficiências clamorosas de saneamento, e esgotamento de lençóis freáticos, está levando a um conjunto de crises setoriais que envolvem desde a redução da pesca até à tragédia de 1,8 milhão de crianças que morrem anualmente por não ter acesso à água limpa, e à ameaça de regiões rurais que dependiam de uma segunda safra com irrigação.

Não é o caso aqui de fazer um elenco das nossas tragédias. Mas o fato é que, com um pouco de recuo, já não são crises setoriais, e representam sim uma crise mais ampla de governança local, nacional, regional e planetária. Há uma convergência de problemas que se avolumam, cuja sinergia os torna mais ameaçadores, e cuja raiz comum encontra-se ao fim e ao cabo no fato que os nossos mecanismos atuais de governança não são suficientes. Com a globalização, financeirização e oligopolização de grandes eixos de atividades econômicas, o mercado perde de forma acelerada as suas funções reguladoras. E as alternativas, particularmente a capacidade de planejamento e de intervenção organizada, formas participativas e descentralizadas de gestão, gestão em rede e sistemas de parcerias,  estão engatinhando. E o papel central do Estado, obviamente, tem de ser resgatado, nas numa visão muito mais horizontal e participativa.

Ignacy Sachs resume bem o dilema: que desenvolvimento queremos? E para este desenvolvimento, que Estado e que mecanismos de regulação são necessários? Não há como minimizar a dimensão dos desafios. Com 6,7 bilhões de habitantes – e 70 milhões a mais a cada ano – que buscam um consumo cada vez mais desenfreado, e manejam tecnologias cada vez mais poderosas, o nosso planeta mostra toda a sua fragilidade. A questão básica que se coloca para a reformulação do sistema de intermediação financeira é que é criminoso o desperdício das nossas poupanças e do potencial mundial de financiamento no cassino global, quando temos desafios sociais e ambientais desta dimensão e urgência, e que necessitam vitalmente de recursos.

O desperdício de recursos financeiros nas dinâmicas atuais é avassalador. Segundo as Nações Unidas, “medidos em termos de paridade de poder de compra do ano 2000, o custo de se liquidar a pobreza extrema – o montante necessário para puxar 1 bilhão de pessoas para cima da linha de pobreza de $1 por dia – é de $300 bilhões”.(37). A realidade é que a utilidade marginal do dinheiro, em termos de sua capacidade de gerar qualidade de vida, decresce rapidamente quanto mais se eleva a renda. Em outros termos, quanto mais os recursos são orientados para a baixa renda, maior é a utilidade. Em termos prosaicos, rendem mais. Assegurar a renda mínima planetária faz todo sentido, é uma forma simples, com as tecnologias atuais, de multiplicar o valor real dos recursos. Como, além do mais, os recursos que chegam à base da pirâmide são transformados em demanda efetiva, e não em especulação, estimulando, portanto, a produção e o emprego, é a própria produtividade sistêmica dos recursos que aumenta. A solução que permite enfrentar simultaneamente os dramas sociais, os desafios ambientais e a racionalidade no uso de recursos econômicos está na resposta organizada às necessidades mais prementes da base da pirâmide. Estamos vivendo a era do desperdício. É tempo de orientar os recursos para os seus usos mais produtivos.

As alternativas não serão construídas da noite para o dia. Algumas medidas são óbvias, e já estão sendo amplamente discutidas: controlar os paraísos fiscais, taxar os movimentos especulativos, organizar sistemas de controle e regulação sobre os intermediários financeiros, voltar a separar as atividades propriamente bancárias dos investidores institucionais, criar sistemas locais de financiamento e assim por diante.

Mas numa visão mais abrangente, temos de estar conscientes de que estamos enfrentando a construção de uma nova institucionalidade. O planeta não sobrevive – e muito menos o bípede curiosamente chamado de homo sapiens – sem amplos processos colaborativos, visão de longo prazo, planejamento e intervenções sistêmicas. O papel do Estado precisa ser resgatado, já não como socorro de iniciativas corporativas irresponsáveis, mas como articulador de um desenvolvimento mais justo e mais sustentável, e com forte participação da sociedade civil organizada.

Um outro mundo não é apenas possível, é necessário. O desafio para o mundo progressista é aproveitar as janelas de oportunidade que a crise financeira nos abre, para sistematizar uma visão alternativa. Temos de mostrar que uma outra gestão é possível.

Viável? Lamentavelmente, esta não é a questão. As medidas terão de ser tomadas. O aquecimento global, por exemplo, está se dando, e a opção de se queremos ou não enfrentá-lo não está na mesa, e sim o como. A crise financeira representa apenas uma oportunidade – e não uma garantia – para organizarmos uma convergência de forças da sociedade interessadas num desenvolvimento que tenha um mínimo de viabilidade econômica, de equilíbrio social e de sustentabilidade.

Notas:

(26) A composição do Comité de Basileia de Supervisão de Bancos é eloquente: “The Basel Committee on Banking Supervision provides a forum for regular cooperation on banking supervisory matters. It seeks to promote and strengthen supervisory and risk management practices globally. The Committee’s members come from Belgium, Canada, France, Germany, Italy, Japan, Luxembourg, the Netherlands, Spain, Sweden, Switzerland, United Kingdom and United States.” www.bis.org/press/p081120.htm. A era colonial não está tão longe.
(27) O PressRelease do presidente do Comité: Mr Wellink emphasised that the Committee’s efforts will be “carried out as part of a considered process that balances the objective of maintaining a vibrant, competitive banking sector in good times against the need to enhance the sector’s resilience in future periods of financial and economic stress”. Trata-se portanto de manter um sistema visto como “vibrante e competitivo”, com algumas salvaguardas. www.bis.org/press/p081120.htm
(28) O lema do BIS de Basileia comove: “The BIS is an international organization that fosters cooperation among central banks and other agencies in pursuit of  monetary and financial stability”.
(29) “We will implement reforms that will strengthen financial markets and regulatory regimes so as to avoid future crises. Regulation is first and foremost the responsibility of national regulators who constitute the first line of defense against market instability.” (Declaração final do G20, ponto 8 -  www.nytimes.com/2008/11/16/washington/summit-text.html)
(30) Vários estudos preliminares apontam para o fato que as instituiçoes financeiras faziam o seu cálculo de risco individualmente, mas considerando que o ambiente externo se manteria estável. Assim, ninguém fazia a avaliação de risco sistêmico, nem organizava informações a respeito. Stijn Claessens, do FMI, se refere ao fato que o próprio sistema de informações é inadequado: “The crisis has highlighted the size of information gaps we face, both nationally and internationally. More and better information is needed if markets and authorities are to better assess the build-up of systemic risk. Addressing this requires a review of rules on transparency, disclosure and reporting” – What G20 Leaders must do…p. 30
(31) Willem Buiter, da London School of Economics, sugere: “Make it impossible to combine rating activities with other profit-seeking activities in the same legal entity” – What G20 leaders must do… p. 19
(32) Statement from G-20 Summit, 15 november 2008, ponto 8.
(33) Stijn Claessens, idem, p. 31
(34) As propostas no Fórum de Davos 2009 mostram essa falta total de realismo frente às novas dinâmicas, com um pequeno catecismo chamado “5I Framework” (Insight, Information, Incentives, Investments, Institutions), na linha das bobagens tipo 5 S e semelhantes que ensinamos lamentavelmente nas ciências de gestão. O lema do World Economic Forum nos aparece como bastante cínico: “Committed to Improving the State of the World”. WEF, Global Risks 2009, p. 14 – http://www.marsh.pt/documents/globalrisks2009.pdf
As visões sistematizadas no Fórum Social Mundial 2009 hoje aparecem com toda a sua dimensão de bom senso
(35) Com bom humor, o Economist de 6-12 de dezembro de 2008 mostra na capa um imenso buraco negro, e a manchete “Where have all your savings gone” (para onde foram todas as suas poupanças). O título é uma brincadeira com a música “Where have all the flowers gone” cantada por pessoas alegres em 1968. Mas na realidade, é a poupança de uma imensa massa de pessoas que foi para o buraco, e estas pessoas não estão nada alegres. Na realidade, não desapareceu riqueza, o mundo continua a contar com o mesmo número de casas, de carros etc. É o direito sobre estas casas e outros bens que mudou de mãos. Esta apropriação de riquezas por quem não as produziu, e inclusive desorganiza os processos produtivos, constutui um dos elementos centrais da deformação do sistema.
(36) New Scientist, October 18, 2008, p. 40; para acessar o gráfico online veja http://dowbor.org/ar/ns.doc; o dossiê completo pode ser consultado em www.newscientist.com/opinion; os quadros de apoio e fontes primárias podem ser vistos em http://dowbor.org/ar/08_ns_overconsumption.pdf; contribuiram para o dossiê Tim Jackson, David Suzuki, Jo Marchant, Herman Daly, Gus Speth, Liz Else, Andrew Simms, Suzan George e Kate Soper.
(37) “Measured in 2000 purchasing power parity terms, the cost of ending extreme poverty – the amount needed to lift 1 billion people above the $1 a day poverty line – is $300 billion”. United Nations, Human Development Report 2005, p. 38. Sobre a renda mínima e a sua universalização, ver os trabalhos de Eduardo Suplicy, em particular Renda de Cidadania, Cortez/Perseu Abramo, São Paulo, 2006 .
[Autor de "Democracia Econômica" (Vozes), "O que é poder local" (Brasiliense) e de numerosos estudos sobre desenvolvimento. Os seus trabalhos estão disponíveis na íntegra, em regime copyleft, em http://dowbor.org]

* Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e consultor de diversas agências das Nações Unidas

A crise financeira sem mistérios (II)

13.03.09 – MUNDO

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Ladislau Dowbor *
Adital –

(Continuação)
Convergência dos dramas econômicos, sociais e ambientais

Especulação e concentração de renda

Num plano mais amplo, portanto, o próprio sistema é desequilibrado em termos de alocação e de apropriação de recursos, mesmo quando não há crise. Marjorie Kelly produziu nesta área um estudo particularmente interessante, intitulado “O direito divino do capital”. Analisando o mercado de ações dos Estados Unidos, Kelly constata que a imagem das empresas se capitalizarem por meio da venda de ações é uma bobagem, pois o processo é marginal: “Dólares investidos chegam às corporações apenas quando novas ações são vendidas. Em 1999 o valor de ações novas vendidas no mercado foi de 106 bilhões de dólares, enquanto o valor das ações negociado atingiu um gigantesco 20,4 trilhões. Assim que de todo o volume de ações girando em Wall Street, menos de 1% chegou às empresas. Podemos concluir que o mercado é 1% produtivo e 99% especulativo”. Mas naturalmente, as pessoas ganham com as ações e, portanto, há uma saída de recursos: “Em outras palavras, quando se olha para as duas décadas de 1981 a 2000, não se encontra uma entrada líquida de dinheiro de acionistas, e sim saídas. A saída líquida (net outflow) desde 1981 para novas emissões de ações foi negativa em 540 bilhões”… “A saída líquida tem sido um fenômeno muito real – e não algum truque estatístico. Em vez de capitalizar as empresas, o mercado de ações as tem descapitalizado. Durante décadas os acionistas têm se constituído em imensos drenos das corporações. São o mais morto dos pesos mortos. É inclusive inexato se referir aos acionistas como investidores, pois na realidade são extratores. Quando compramos ações não estamos contribuindo com capital, estamos comprando o direito de extrair riqueza”.(16)

Esta forma de drenar a riqueza produzida pelas empresas está baseada num pacto de solidariedade nas próprias corporações, em que os acionistas são bem remunerados pelos seus aportes iniciais, e os administradores levam salários nababescos (na faixa de dezenas e frequentemente centenas de milhões de dólares anuais mais opções) (17). Encontramos aqui a boa e velha mais valia, onde a produtividade do trabalho aumenta de forma acelerada graças às novas tecnologias, mas a participação da remuneração do trabalho declina. O FMI apresenta uma tabela bem clara referente aos países mais desenvolvidos:

Constatamos que a parte da renda destinada à remuneração do trabalho cai sistematicamente entre 1980 e 2005 nos países avançados. É o efeito prático mais direto do neoliberalismo. É interessante lembrar que em 1980 se inicia, com Reagan e Margareth Thatcher, a onda neoliberal. E é bom recorrer às estatísticas do Fundo, pouco suspeito no caso.(18)

A compreensão deste “pano de fundo” é importante, pois não se trata apenas de um sistema bom que entrou em crise por movimentos conjunturais: a financeirização dos processos econômicos vem há décadas se alimentando da apropriação dos ganhos da produtividade que a revolução tecnológica em curso permite, de forma radicalmente desequilibrada. Não é o caso de desenvolver o tema aqui, mas é importante lembrar que a concentração de renda no planeta está atingindo limiares absolutamente obscenos.(19)

A imagem da taça de champagne é extremamente expressiva, pois mostra quem toma que parte do conteúdo, e em geral as pessoas não têm consciência da profundidade do drama. Os 20% mais ricos se apropriam de 82,7% da renda. Como ordem de grandeza, os dois terços mais pobres têm acesso a apenas 6%. Em 1960, os 20% mais ricos se apropriavam de 70 vezes a renda dos 20% mais pobres, em 1989 são 140 vezes. A concentração de renda é absolutamente escandalosa, e nos obriga de ver de frente tanto o problema ético, da injustiça e dos dramas de bilhões de pessoas, como o problema econômico, pois estamos excluindo bilhões de pessoas que poderiam estar não só vivendo melhor, como contribuindo de forma mais ampla com a sua capacidade produtiva.

Esta concentração não se deve apenas à especulação financeira, mas a contribuição é significativa e, sobretudo, é absurdo desviar o capital de prioridades planetárias óbvias. The Economist traz uma cifra impressionante sobre esta apropriação do excendente social, gerado essencialmente por avanços tecnológicos da área produtiva, pelo setor que simpaticamente qualifica de “indústria de serviços financeiros”: “The financial-services industry is condemned to suffer a horrible contraction. In America the industry’s share of total corporate profits climbed from 10% in the early 1980s to 40% at its peak in 2007″ Gera-se uma clara clivagem entre os que trazem inovações tecnológicos e produzem bens e serviços socialmente úteis – os engenheiros do processo, digamos assim – e o sistema de intermediários financeiros, comerciais e advocatícios que se apropriam do excedente e deformam a orientação do conjunto. (20)

A evolução paralela da queda dos salários no PIB, e do aumento dos lucros financeiros, que aparece nos gráficos abaixo de Foster e Magdoff, torna o processo evidente.

Growth of financial and nonfinancial  -  Wage and salary disbursements as a percent-age of GDP  -  profits relative to GDP (1970 = 100)


O cassino tornou-se um entrave central no processo de desenvolvimento em geral. Além da extração tradicional de mais-valia através da políticas salariais nas empresas, gerou-se assim um instrumento de concentração de renda no nível macroeconômico, por meio dos circuitos financeiros desregulados, processo que temos qualificado de mais-valia social.

Desta forma, a crise, pela força do seu impacto, está simplesmente restabelecendo uma verdade elementar: o sistema financeiro não é um fim, é apenas um meio que deve facilitar as atividades socialmente úteis, com uma razoável remuneração no processo. Até o Economist, durante tantos anos defensor dos “investidores especulativos”, explicita o dilema: “In fact, the choice hinges on the interests of the economy as a whole. After all, it is taxpayers and savers who pay for the financial crises”. O relatório cita ainda James Tobin: “I suspect we are throwing more and more of our resources, including the cream of our youth, into financial activities remote from the production of goods and services, into activities that generate high private rewards disproportionate to their social productivity”.(21). É um sistema que gerou um profundo divórcio entre quem contribui produtivamente para a sociedade e quem é remunerado.

Os lucros financeiros no Brasil

Finalmente, e antes de entrar nas propostas, um comentário sobre a situação particular da intermediação financeira no Brasil. Basicamente, cinco grupos dominam o mercado. A ANEFAC, Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contábeis, apresenta mensalmente a taxa média de juros efetivamente praticada junto ao tomador final, pessoa física ou pessoa jurídica.(22)

Taxas de juros setembro/2005 X outubro/2008 – Pessoa Física


Constatamos aqui taxas de juros da ordem de 140% na média geral, atingindo níveis estratosféricos no cheque especial, no cartão e nos empréstimos pessoais das financeiras. Estes juros são da ordem de 6 a 7% (ao ano) no máximo na Europa.

Taxas de juros setembro/2005 X outubro/2008 – Pessoa Jurídica


Para pessoa jurídica, os juros anuais se mantêm em 68% durante 3 anos, sendo que os juros correspondentes na Europa seriam da ordem de 3% ao ano. É importante lembrar que neste período a taxa básica de juros Selic caiu de 19,75% para 13,75%, ou seja, 6 pontos percentuais (queda de 30,4%), sem que houvesse redução da taxa média para pessoa jurídica ou para pessoa física no mercado financeiro.

A situação aqui é completamente diferente dos bancos dos países desenvolvidos, que trabalham com juros baixos e alavancagem altíssima. Essencial para nós, é que sustentar no Brasil juros que são da ordem de mil por centos relativamente aos juros praticados internacionalmente, só pode ser realizado mediante uma cartelização de fato. Para dar um exemplo, o Banco Real (Santander Brasil) cobra 146% no cheque especial no Brasil, enquanto o Santander na Espanha cobra 0% (zero por cento) por seis meses até cinco mil euros. Os ganhos dos grupos estrangeiros no Brasil sustentam assim as matrizes. Lembremos ainda que a Anefac apresenta apenas os juros, sem mencionar as tarifas cobradas. Os resultados são os spreads fantásticos e lucros impressionantes que o setor apresenta, sobre um volume de crédito no conjunto bastante limitado (39% do PIB) para uma economia como o Brasil. A intermediação financeira tornou-se assim um fator central do chamado “custo Brasil”, e um vetor central da concentração de renda, e portanto de travamento dos processos produtivos. Os lucros são tão impressionantes, que ao abrigo deste cartel mesmo grupos de comércio, em vez de se concentrar em prestar bons serviços comerciais, hoje se concentram na intermediação financeira.(23)

No período 2001-2008 menos da metade dos ganhos de produtividade do trabalho foi repassada ao trabalhador. A relação desigual entre o aumento de produtividade do trabalho e a remuneração (CUT – Custo Unitário do Trabalho) aparece claramente na pesquisa do IBGE e nos comentários do IPEA. (24)

A Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física do IBGE indica, por exemplo, que entre 2001 e 2008, houve aumento de produção física da indústria brasileira na ordem de 28,1%, com ganhos de produtividade do trabalhador de 22,6%. A folha de pagamento por trabalhador, em  contrapartida, cresceu, em termos reais, 10,5% no mesmo período de tempo. Por conta disso, o Custo Unitário do Trabalho (CUT) – entendido como a razão entre o rendimento real médio por trabalhador ocupado e a produtividade – apresentou queda de 10,2% no mesmo período de tempo. Noutras palavras, a remuneração dos trabalhadores não tem acompanhado plenamente os ganhos de produtividade da indústria brasileira.  Se não são os salários a incorporar completamente os ganhos de produtividade, não podem ser percebidos sinais de pressão sobre os custos de produção, o que poderia sugerir alguma pressão inflacionária. Sem o repasse pleno da produtividade aos trabalhadores, estimula a expansão do estrato superior na distribuição de renda no Brasil.


Esse processo apenas acelera uma tendência histórica. Junta-se aqui o efeito concentrador da intermediação financeira, com o não repasse dos aumentos da produtividade do trabalho aos trabalhadores No caso brasileiro, a queda da participação da remuneração do trabalho na renda nacional, durante os anos 1995 – 2004 foi da ordem de 45% para 35%, o que representa ao mesmo tempo uma queda mais acelerada do que a verificada nos países desenvolvidos vistos anteriormente e um nível absurdamente baixo.

O crescimento econômico, em particular na segunda gestão Lula, permitiu simultaneamente o aumento da renda dos estratos superiores e a melhoria muito significativa do rendimento dos trabalhadores. O salário mínimo na gestão Lula teve um aumento real de 46,05%, o que atinge cerca de 25 milhões de trabalhadores e 18 milhões de aposentados. Em 2009, a partir de fevereiro, o salário mínimo passou para 465 reais (160 euros). De certa forma, o Brasil já adotou uma política anticíclica antes da crise ao expandir o consumo na base da sociedade. Mas sejamos realistas: o ponto de partida é muito baixo e a desigualdade herdada é extrema. Uma política keynesiana ainda terá de subir vários degraus no Brasil.(25)

O Brasil tem evidentemente um grande trunfo na mão, que é a possibilidade de usar os bancos oficiais para reintroduzir concorrência no mercado cartelizado, permitindo ao mesmo tempo dinamizar a economia ao estimular consumo e investimento. Este mecanismo, ao que tudo indica, está sendo progressivamente implantado. O sistema de intermediação financeira dos grandes grupos terá de evoluir para mecanismos de concorrência, inclusive porque a cartelização é ilegal. No curto prazo, no entanto, parece claro que o funcionamento protegido da concorrência de um grupo de gigantes com lucros imensos gera, paradoxalmente, uma situação mais estável do que a da sobre-exposição dos grupos financeiros dos países desenvolvidos. O problema aqui é de que em vez de termos intermediários financeiros que facilitam as iniciativas econômicas, temos atravessadores que as encarecem. A intermediação financeira tornou-se aqui num dos principais instrumentos de concentração de renda e de desequilíbrios sociais.

No geral tanto nos países desenvolvidos, como no Brasil, cada vez mais os lucros corporativos estão alimentando atravessadores financeiros, gerando uma ampla classe de rentistas. A questão, vista do ponto de vista de “quem paga”, tende a deslocar-se, na visão das pessoas, para pensar melhor em “a quem pagamos”. Trata-se de poupanças da população. Este ponto é essencial, pois tratando-se de um cassino gerado com dinheiro da população, proteger os especuladores pode legitimamente ser apresentado como uma proteção à própria população, pois é o dinheiro dela que está em risco. Isto gera, evidentemente, uma posição de chantagem, e uma correspondente posição de poder. E permite deixar de lado o que deve ser a questão central da canalização das poupanças: não se os intermediários estão ganhando ou perdendo dinheiro, mas a que agentes econômicos, a que atividades, a que tipo de desenvolvimento e com que custos ambientais devem servir estas poupanças. Bastará assegurar que não quebre um sistema cujo produto final não está servindo?

Para o Brasil, paradoxalmente, a crise financeira pode representar uma oportunidade. Somos o país da desigualdade. A metade da população ainda precisa ter acesso ao consumo básico diversificado, incluindo nisto não só o alimento e outros bens de primeira necessidade, mas também o consumo de bens sociais como saúde e educação, de infraestruturas sociais como redes de saneamento e redes de banda larga de comunicação e assim por diante. Em outros termos, uma expansão dos programas, em grande parte já desenvolvidos pelo governo, tem a virtude de ao mesmo tempo começar a resgatar a nossa imensa dívida social, e de dinamizar, através da maior demanda agregada (consumo popular e investimento público), as próprias atividades empresariais. Reorientar as nossas capacidades de financiamento cada vez mais neste sentido – ainda que reduzindo a dimensão do rentismo financeiro e das atividades especulativas – faz todo sentido.

(Continua…)

Veja também – A crise financeira sem mistérios (I)
Notas:

(16) Marjorie Kelly – The Divine Right of Capital – Berrett-Koehler, San Francisco, 2001, páginas 33 e 35 – Reproduzimos aqui um segmento do que estudamos mais amplamente no ensaio Democracia Econômica, Vozes, 2008 – Ver também http://dowbor.org
(17) As diversas classificações de pagamento aos administradores corporativos, com os valores, podem ser encontradas em http://toomuchonline.org/ExecPayScoreboard.html
(18) Fonte do gráfico: IMF, Finance&Development, June 2007, p. 21
(19) Há imensa literatura sobre o assunto. O gráfico acima é do Relatório de Desenvolvimento Humano 1998 das Nações Unidas; para uma atualização em 2005, ver Human Development Report 2005, p. 37. Não houve mudanças substantivas. Uma excelente análise do agravamento recente destes números pode ser encontrada no relatório Report on the World Social Situation 2005, The Inequality Predicament, United Nations, New York 2005; O documento do Banco Mundial, The next 4 billion, que avalia em 4 bilhões as pessoas que estão “fora dos benefícios da globalização”, é igualmente interessante – IFC. The Next 4 Billion, Washington, 2007; estamos falando de dois terços da população mundial. Para uma análise ampliada do processo, ver o nosso Democracia Econômica, ed. Vozes 2008, bem como o artigo Inovação Social e Sustentabilidade, ambos disponíveis em  http://dowbor.org
(20) The Economist, A Special Report on the Future of Finance, January 24th 2009, p. 20; é interessante notar que há pouca divergência nestes dados entre o FMI e The Economist de direita, e uma visão mais de esquerda de Foster e Magdoff. A convergência das cifras também reforça a confiabilidade.
(21) The Economist, A Special Report on the Future of Finance, January 24th 2009, p. 22
(22) Ver Pesquisa mensal de juros, http://www.anefac.com.br/m3_preview.asp?cod_pagina=10782&cod_idm=1
(23) Segundo pesquisa industrial divulgada pelo O Estado de S. Paulo “na média entre outubro e dezembro, período mais agudo da crise mundial, que fez subir o custo dos financiamentos, os desembolsos para pagamentos de juros foram 11% superiores aos gastos com salários”. Pesquisa da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) sobre os gastos da indústria brasileira com pagamentos de juros (O Estado de S. Paulo, 02/02/09). O lucro de um grupo, o Bradesco, foi de 7,6 bilhões de reais em 2008, quanto o orçamento do Programa Bolsa Família, que atinge 48 milhões de pessoas, é de 11 bilhões. O “assistencialismo”, evidentemente, não é bem onde se comenta. Até uma pessoa tão pouco suspeita de proximidades com a esquerda como Marcos Cintra, clama contra o cartel de bancos comerciais no Brasil e os spreads escandalosos. (It’s the Spread, Stupid – Folha de São Paulo 2 de fevereiro de 2009), p.3 – Para os não familiarizados, vale lembrar que a formação do cartel significa que todos praticam juros e tarifas semelhantes, e que portanto não temos escolha. Trata-se assim de um imposto privado, e na medida em que cartel é crime, trata-se tecnicamente de crime contra a ordem econômica. A maravilha, é que não há culpado. O culpado é um ente invisível chamado misteriosamente de “mercado”.
(24) IPEA – Pobreza e riqueza no Brasil metropolitano -  n.7, agosto de 2008, p. 11 – Documento disponível em http://www.ipea.gov.br/sites/000/2/comunicado_presidencia/
ReducaoPobreza_CPresi7.pdf

(25) Ver dados em http://www.brasil.gov.br/noticias/em_questao/.questao/eq762
[Autor de "Democracia Econômica" (Vozes), "O que é poder local" (Brasiliense) e de numerosos estudos sobre desenvolvimento. Os seus trabalhos estão disponíveis na íntegra, em regime copyleft, em http://dowbor.org]

* Doutor em Ciências Econômicas pela Escola Central de Planejamento e Estatística de Varsóvia, professor titular da PUC de São Paulo e consultor de diversas agências das Nações Unidas

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A crise mundial está só no começo

do blog do miro

Os últimos dados econômicos indicam que a crise capitalista será mais destrutiva do que muitos imaginavam. Ela está mais para tsunami do que para “marolinha”. Não dá ainda para prever sua dimensão ou duração, mas ninguém mais duvida dos enormes estragos que causará e muitos se recordam do desastre do crash de 1929, que só atingiu o seu pico quatro anos depois – em 1933. Os países capitalistas centrais estão derretendo. A economia dos EUA, apesar do socorro dos cofres públicos, não dá qualquer sinal de recuperação. Como descreve uma excelente reportagem do jornal Avante, do Partido Comunista Português, o cenário é dramático, desesperador.

“Com a economia e o desemprego a baterem todos os recordes negativos, os trabalhadores dos EUA enfrentam a fome e a degradação das condições de vida. Somente em fevereiro, segundo dados oficiais, registrou-se a perda de cerca de 700 mil empregos, cifra idêntica às apuradas em dezembro de 2008 e janeiro deste ano. Estes números elevam a taxa de desemprego para 8,1%, a mais alta dos últimos 25 anos… Desde dezembro de 2007, a economia norte-americana já perdeu quase 4,5 milhões de empregos, a maior perda desde a II Guerra”. O jornal cita a queda de 6,2% do PIB no último trimestre de 2008, a retração de 21,1% nos investimentos privados, a redução de 23,6% nas exportações e o abrupto aumento dos dependentes de cupons alimentares, já usados por 31 milhões de pessoas que passam fome e privações – um em cada dez estadunidenses.

O descolamento dos “emergentes”

As potências capitalistas da Europa vivem um quadro semelhante. O Financial Times divulgou nesta semana dados sobre a indústria no Reino Unido, França e Suécia, que comprovam a brutal retração econômica. Tecnicamente, a Europa já está em recessão. O PIB recuou 1,5% no último trimestre do ano passado, marcando o pior período desde a criação da zona do euro, em 1999. A recessão impulsiona o Banco Central Europeu (BCE) a cortar novamente a taxa básica de juros – que já se encontra no seu nível histórico mais baixo, de 2% – e aumenta a pressão pela estatização integral do sistema financeiro, que está totalmente apodrecido e contagia o restante da economia.

Mesmo nos chamados países emergentes, o cenário é preocupante e questiona a complicada tese sobre o “descolamento”. Na China, com uma economia altamente dependente das exportações, as vendas externas tiveram em fevereiro a maior retração desde 1998, com queda de 25,7% na comparação com o mesmo mês do ano passado. Foi o quarto recuo consecutivo das exportações chinesas. No Brasil, a forte retração de 3,6% no PIB no último trimestre de 2008 ascendeu a luz vermelha e forçou o Banco Central a recuar na sua política criminosa de juros estratosféricos. A produção industrial tem encolhido e o desemprego se torna rapidamente uma dura realidade.

Limites imanentes do capitalismo

Estes dados, entre outros, parecem confirmar as previsões mais pessimistas sobre a gravidade da crise. Em recente palestra em Buenos Aires, o intelectual francês François Chesnais afirmou que a economia capitalista vive “uma verdadeira ruptura, num processo de crise com características comparáveis à crise de 1929, ainda que se desenvolva num contexto diferente. É preciso recordar que aquela crise se desenvolveu como processo: começou em 1929, mas seu ponto culminante se deu depois, em 1933, e abriu caminho para uma longa fase de recessão. Digo isto para sublinhar que vivemos as primeiríssimas etapas de um processo de amplitude e temporalidade. Estamos diante de um desses momentos em que a crise exprime os limites históricos do capitalismo”.

Citando uma passagem do livro O Capital, de Karl Marx, ele lembra que “o verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital… O meio empregado – desenvolvimento incondicional das forças produtivas – choca-se constantemente com o fim perseguido, que é um fim limitado: a valorização do capital existente. Por conseguinte, se o regime capitalista de produção constitui um meio histórico para desenvolver a capacidade produtiva material e criar o mercado mundial correspondente, envolve ao mesmo tempo uma contradição constante entre essa missão histórica e as condições sociais de produção próprias deste regime”.

“Uma catástrofe para a humanidade”

Sem cair numa visão fatalista, Chesnais prevê que o sistema terá dificuldades para superar a crise e retorna a Marx com outra brilhante citação: “A produção capitalista aspira constantemente a superar os limites imanentes a ela, mas só pode superá-los recorrendo a meios que voltam a levantar diante dela os mesmos limites, e ainda com mais força”. A ofensiva neoliberal, com a desregulação financeira e o desmonte do keynesianismo, foi a resposta do capital à crise capitalista já presente nos anos 70. Mas ela não superou os limites imanentes do sistema e, ainda, agravou-os. “Um dos métodos escolhidos pelo capital para superar seus limites se tornou fonte de novas tensões, conflitos e contradições”.

Os outros dois meios usados pelo capital para enfrentar sua crise foram: a criação descontrolada de capital fictício e a ampliação do mercado mundial, com a incorporação da China. O primeiro já teria sucumbido. “Toda a etapa de liberalização e de globalização financeira dos anos 80/90 foi baseada na acumulação de capital fictício, sobretudo em mãos dos fundos de investimento e de pensão”. Este mecanismo entrou em colapso nos EUA. “Agora, eles estão desmontando este processo. Mas dentro dessa desmontagem, há processos de concentração do capital financeiro… Há uma fuga para frente que não resolve nada [...] e isso é um fator de perturbação ainda maior”.

Quanto à China, ele não arrisca a prever sua capacidade de resistência. Mas, numa abordagem polêmica, avalia que ela não se manterá imune. “A China é realmente um lugar decisivo, porque até as pequenas variações na sua economia determinam a conjuntura de muitos outros países do mundo”. Com base nesta análise, Chesnais prevê que a crise mundial será mais grave do que se previa há alguns meses. Diante das críticas ao seu “catastrofismo”, enfatiza: “Na realidade, creio que estamos diante do risco de uma catástrofe, mas não do capitalismo e sim da humanidade”.

A “tempestade global” e o Brasil

No mesmo rumo, a economista Maria Conceição Tavares também teme que a crise só esteja no início. “Estamos diante de uma tempestade global. Não é apenas a violência que assusta; é o fato de que sua origem financeira torna tudo absolutamente opaco no horizonte da economia mundial. Mente quem disser que sabe o que virá e quanto tempo vai durar. Minha percepção é que será uma guerra de resistência”. Para ela, a atual crise “é dramaticamente mais séria que a de 29. Ela ainda não alcançou a proporção daquela, mas o núcleo financeiro dos EUA está carcomido. Os maiores bancos praticamente agonizam. Baixas dessa magnitude não ocorreram nem em 29”.

Quanto ao Brasil, motivo maior de preocupação da brasileiríssima Conceição Tavares, ela se diz preocupada, mas sempre otimista. “O Brasil tem condições de segurar o manche e agüentar… A luta será dura. Mas, pela primeira vez na história, o país enfrenta uma crise mundial sem ter que carregar o setor público nas costas. E isso é inédito. Nesta crise, o Estado não está afundado em dívida externa, para não dizer totalmente quebrado, como ocorreu nos anos 90. Significa mais do que não ter um peso morto. Significa um Estado em condições de amparar o investimento, o emprego e o capital de giro da economia… Basta ter determinação política”. A questão é: será que o governo Lula está disposto a enfrentar a tempestade com ousadia e determinação política

A crise na era senil do capitalismo

site resistir ( Portugal) – COM A GRAFIA DE PORTUGAL

por Jorge Beinstein [*]

Incerteza

é a palavra que melhor define o clima psicológico actual. Todos os precedentes capitalistas desta crise demonstraram-se imprestáveis na hora de entender o que está a acontecer. A imagem da “terra incógnita”, da entrada num território desconhecido vai-se impondo entre as elites das grandes potências. Num artigo recente aparecido em

The Independent,

Jeremy Walker resume bastante bem esta nova percepção:

“Encontramo-nos num mar desconhecido, ninguém sabe para onde vamos. A única coisa que sabemos é que a tormenta econômica prossegue a sua marcha” [1]

Por sua vez, James Rickards, uma figura chave do aparelho de inteligência estado-unidense (formalmente é assessor financeiro do gabinete do secretário da Defesa) apresentou em 17 de Dezembro de 2008 um relatório auspiciado pela U.S. Navy onde traça quatro cenários catastróficos sobre o futuro dos Estados Unidos. Um (como não podia deixar de ser na era Bush) a descrever um mega ataque terrorista que se aproveitaria da extrema debilidade da economia para assestar um golpe mortal no Império. Outro, centrado numa suposta agressão financeira da China a vender maciçamente no mercado dólares e títulos públicos estado-unidenses provocando assim o derrube das suas cotações. Um terceiro cenário apresenta a queda livre do dólar e as consequências desastrosas para a sociedade imperial e o resto do mundo. E finalmente um quarto cenário, talvez o mais importante, denominado “Derrube existencial”, que prognostica uma depressão prolongada com redução do Produto Interno Bruto da ordem dos 35% ao longo dos próximos 6 ou 7 anos, com uma taxa de desemprego que logo chegaria aos 15%, etc. [2]

A ilusão da auto-regulação do mercado financeiro esfumou-se. Os gurús da especulação ocultaram-se ou mudaram de discurso procurando outros deuses: os da intervenção estatal, os quais há umas poucas décadas haviam lançado no baú dos velhos objectos inúteis. Nos fins de 2008 numerosas revistas especializadas de todos os continentes, algumas destinadas ao grande público, mostravam a fotografia de lord Keynes desenterrado para salvar-nos do desastre. Mas até agora a nova-velha magia intervencionista demonstrou a mais completa impotência. Vários milhões de milhões de dólares, euros e outras moedas fortes (fortes?) foram lançados no mercado em espectaculares
operações de salvamento com resultado nulo. O mercado não se auto-regula, mas tão pouco aceita ser regulado. Uma avalanche de acontecimentos sepultou por completo os prognósticos conservadores dos triunfadores da Guerra Fria.

O futuro já não será mais-do-mesmo e ao fundir-se essa linearidade burguesa da história ressurge com uma força inusitada, o que Mircea Eliade denominava “o terror da história”. Neste caso, diante de uma provável sucessão de factos em que os poderes e valores dominantes não sejam respeitados, ultrapassados por forças hostis. É no seio das classes dominantes que esse terror cresce velozmente.

A crise financeira é gigantesca, mas também o são as “outras crises”, umas mais visíveis ou virulentas que outras a convergirem até formar um fenómeno inédito. Para tomar um só exemplo, a crise energética que se exprime por agora no estancamento e na próxima redução da produção petrolífera global, foi até há pouco um catalisador decisivo da especulação e da inflação (até antes da queda económica do último trimestre de 2008) e aguarda-nos num futuro não muito longínquo para assestar-nos novos golpes inflacionários, quando a extracção descer mais alguns degraus ou quando a depressão económica se detiver. Por outro lado, a crise energética está associada à crise alimentar e ambas assinalam a existência de um impasse tecnológico geral que se estende ao meio ambiente e ao aparelho militar-industrial, tudo isso concentrado e exacerbado a partir do colapso financeiro nos Estados Unidos, o centro do mundo.

É possível afirmar que as diversas crises não são senão aspectos de uma única crise, sistémica, do capitalismo como etapa da história humana. [3]



Ciclos

Um componente importante dessa crise psicológica é a constatação de que certos ciclos que pareciam reger o funcionamento económico deixaram de funcionar. Trata-se da destruição da crença em que após um determinado número de meses ou de anos de vacas magras chegaria o das vacas gordas e que o sistema continuaria o seu caminho ascendente.

Os ciclos decenais descobertos por Juglar por volta de 1860 atravessaram boa parte do século XIX exprimindo as oscilações do jovem capitalismo industrial, ainda que no fim do mesmo essas rotinas tenham-se tornado opacas. Por volta de 1885, numa nota anexa ao Livro III do Capital, Engels assinalava que “se verificou uma viragem desde a última grande crise geral (1867). A forma aguda do processo periódico com o seu ciclo de dez anos que se vinha observando até então parece haver cedido o lugar a uma sucessão antes crónica e longa de períodos relativamente curto e ténues de melhoria dos negócios e períodos longos de depressão…”. E atribuía essa mudança à nova configuração económica internacional marcada pelo desenvolvimento rápido dos meios de comunicação, pela ampliação do mercado mundial e pelo fim do monopólio industrial inglês [4]

. Os velhos ciclos decenais tendiam a desaparecer porque o capitalismo havia sofrido mudanças estruturais decisivas. Mas isso não afectou outras rotinas do sistema, como as ondas longas de Kondratieff, etapa de aproximadamente entre 50 e 60 anos

[N.T.]

(a primeira metade de ascensão económica e a segunda de descida) que se vinham sucedendo a partir da revolução industrial inglesa. Ao longo da história do capitalismo foram registados quatro ciclos de Kondratieff. O primeiro iniciou-se em fins do século XVIII e concluiu-se em meados do século XIX. O segundo terminou durante a última década desse século e o terceiro durante os anos 1940 quando se iniciou um quarto ciclo, cuja etapa de prosperidade chegou até fins dos anos 1960, até 1968 se acompanharmos a proposta de Mandel que prefere estabelecer cortes históricos precisos [5]

A partir desse momento a taxa de crescimento da economia mundial impulsionada pelos países capitalistas centrais descreveu uma tendência descendente no longo prazo que não se deteve até hoje e que deveria prolongar-se num futuro previsível (ver Gráfico 2).

Se aceitarmos a periodização de Mandel, a fase descendente do primeiro Kondratieff teria durado uns 22 anos, a do segundo 20 anos e a do terceiro 26 anos. A média é de aproximadamente 22,6 anos, mas a descida do quarto Kondratieff já estaria a durar uns 40 anos (em 2008) e não é demasiado ousado prever o seu prolongamento pelo menos um lustro mais. Seguindo o modelo teórico, a recuperação deveria ter começado em meados da década passada. Isso não se verificou e tão pouco aconteceu na actual (ver Gráfico 3)

Pior ainda, cada fase ascendente costuma ser associada às grandes inovações tecnológicas que modificaram os sistemas de produção e os estilos de consumo. Assim aconteceu durante a primeira revolução industrial com a máquina a vapor e a expansão da indústria têxtil, em meados do século XIX com o aço e o desenvolvimento das ferrovias, em fins do século XIX com a electricidade, a química e os motores, e em meados dos anos 1940 com a electrónica, a petroquímica e os automóveis no arranque do quarto Kondratieff. Assim “devia ter sucedido” na década dos anos 1990, atravessada por grandes inovações na informática, biotecnologia e novos materiais. Contudo, essas mudanças técnicas não modificaram positivamente o curso dos acontecimentos. Ao contrário, acentuaram as suas piores características. A informática por exemplo:   quando avaliamos o seu impacto segundo a importância da actividade econômica envolvida constatamos que a sua principal aplicação se verificou na área do parasitismo financeiro, cujo volume de negócios (uns mil milhões de milhões de dólares) equivale actualmente a cerca de 19 vezes o Produto Mundial Bruto.

Isto permite-me colocar a hipótese de que assim como ocorreu há cerca de um século com os ciclos decenais de Juglar podemos actualmente sustentar que as ondas longas de Kondratieff perderam a sua validade científica. A fase descendente do quatro Kondratieff foi triturada pela nova realidade. A economia mundial completamente hegemonizada pelo parasitismo financeiro obedece a uma dinâmica radicalmente diferente da que vigorou durante a era do capitalismo industrial.

Frente a essa evidência não faltam peritos e acadêmicos desejosos de encontrar uma nova rotina restauradora da ordem. Alguns propõem regressar a ciclos mais curtos e violentos estilo Juglar (retorno ao século XIX?), outros misturam Juglar e Kondratieff introduzindo alguns adornos provenientes da psicologia social, outros realizam manipulações econométricas no ciclo Kondratieff conservando assim a esperança numa futura recomposição ascendente do sistema. É o caso de Ian Gordon, renomado especialista norte-americano em prognósticos económicos que não tem dúvida em fabricar um super “quarto Kondratieff”estado-unidense de quase 70 anos, correndo para a direita o início da sua etapa ascendente (desde 1940 a 1950) estendendo-a até os anos 1980 e propor o fim do descida (e o começo de um novo e maravilhoso quinto Kondratieff caitalista) para fins da segunda década do século XXI [6] .

Senilidade

O fim das rotinas e a entrada num tempo de desordem geral estão assinalar-nos que o mundo burguês não se encontra perante uma enfermidade passageira, uma “crise cíclica” mais no interior do grande ciclo, único e supostamente vigoroso do capitalismo e sim perante uma crise de enorme amplitude onde as enfermidades multiplicam-se não por um capricho do destino e sim porque o organismo, o sistema social universal, está muito velho.

O capitalismo mundial entrou na etapa senil [7] no anos 1970 quando o parasitismo se tornou hegemónico. Ao longo da referida década e do primeiro lustro dos anos 1980 ocorreram factos decisivos nos Estados Unidos, dentre eles o princípio do declínio da produção petrolífera, a decisão do governo Nixon de acabar com o padrão dólar-ouro, a derrota no Vietname a que a seguir acrescentaram-se os défices comerciais e fiscais crônicos e a subida incessante das dívidas pública e privada, a concentração de rendimentos, o consumismo, a elitização e degradação do sistema político, etc. Tudo isso redundou, nos princípios do século XXI, quando se desinchou a bolha bursátil, numa situação extremamente grave à qual o Império respondeu com uma desesperada fuga para a frente: radicalizou a sua estratégia de conquista da Eurásia desenvolvendo grandes operações militares (Iraque, Afeganistão) e reanimou a especulação financeira inchando a bolha imobiliária e, graças a ela, voltando a inchar a bolha bursátil. Perante a crise do parasitismo financeiro decidiu impulsionar um onda parasitária muito maior que a anterior. Não se tratou de um “erro estratégico” e sim uma consequência estratégica lógica inscrita na dinâmica dominante do sistema de poder.

Um primeiro indicador de senilidade é a decadência dos Estados Unidos,

resultado de um longo processo de degradação. A “globalização” desenvolvida desde os anos 1970 implicou um triplo processo: o aburguesamento quase completo do planeta (a cultura do capitalismo tornou-se verdadeiramente universal ao derrotar a URSS e integrar a China), a financiarização integral do capitalismo (hegemonia parasitária) e a unipolaridade, a instalação do Império norte-americano como poder supremo mundial. É o principal consumidor global e área central dos negócios financeiros internacionais ao que se acrescenta o facto decisivo da “norte-americanização” da cultura das classes dominantes do mundo. É por isso que o declínio (senilidade) dos Estados Unidos, para além das suas consequências económicas (ou incluindo suas conseqüências económicas) constitui o motor da decadência universal do capitalismo.

O Império foi em simultâneo verdugo e vítima do resto do mundo. O seu consumismo parasitário teve como contrapartida os bons negócios comerciais e financeiros das burguesias da União Europeia, China, Japão, Índia, etc. O inchaço parasitário estado-unidense foi o amortecedor fundamental da crise de superprodução crónica das grandes potências, mas a bolha imperial agora está a desinchar e o capitalismo global entra na depressão.

Um segundo indicador de senilidade é a interacção entre dois fenómenos: a hipertrofia financeira global e a desaceleração no longo prazo da economia mundial (ver o Gráfico 2).

Em princípios do século XXI chegámos à financiarização integral do capitalismo. As tramas especulativas impuseram sua “cultura” curtoprazista e depredadora que passou a ser o núcleo central da modernidade. Presenciamos um círculo vicioso. A crise crónica de superprodução iniciada há quatro décadas comprimiu o crescimento económico desviando excedentes financeiros para a especulação, cujo ascensão operou como um mega aspirados de fundos retirados ao investimento produtivo. Hoje a massa financeira mundial estaria a chegar aos mil milhões de milhões (10 15 ) dólares (só as operações com produtos financeiros derivados registadas pelo Banco da Basileia superam os 600 milhões de milhões de dólares.

A economia mundial cresce cada vez menos. Além disso enfrenta um tecto energético que bloqueia o seu desenvolvimento, o que nos sugere o tema da crise energética, ou seja, da incapacidade tecnológica do sistema para superar a armadilha do esgotamento dos recursos naturais não renováveis. Não esqueçamos que o capitalismo industrial pôde alçar voo a partir dos fins do século XVIII porque conseguiu tornar-se independente dos recursos energéticos renováveis que o submetiam aos seus ritmos de reprodução e impor a sua lógica aos recursos não renováveis: o carvão, seguido mais adiante pelo petróleo. Essa proeza depredadora (que nos levou ao desastre actual) foi um pilar decisivo da construção do seu sistema tecnológico articulador de complexa e evolutiva rede de procedimentos produtivos, produtos, matérias-primas, hábitos de consumo, etc, enlaçando o desenvolvimento científico e as estruturas de poder.

A crise energética está associada à crise alimentar, à qual deveríamos acrescentar a crise ambiental, para revelar um terceiro indicador de senilidade: o bloqueio tecnológico. É útil o conceito de limite estrutural do sistema tecnológico, definido por Bertrand Gille como o ponto no qual o referido sistema é incapaz de aumentar a produção a um ritmo que permita satisfazer necessidades humanas crescentes [8] . Não se trata de necessidades humanas em geral, ahistóricas, e sim de exigências sociais historicamente determinadas. É possível assim formular a hipótese de que o sistema tecnológico do capitalismo estaria a chegar ao seu limite superior para além do qual vai deixando de ser o pilar decisivo do desenvolvimento das forças produtivas para converter-se na ponta de lança da sua destruição.

O capitalismo está agora a gerar um enorme desastre ecológico, resultado de uma  rigidez civilizacional decisiva que o impede de superar uma dinâmica tecnológica que conduz à depredação catastrófica do meio ambiente. Cada vez que isso ocorreu no passado pré-capitalista foi porque a civilização que engendrou o referido sistema técnico havia chegado à sua etapa senil (a destruição do meio ambiente é na realidade auto-destruição do sistema social existente).

Um quarto indicador de senilidade é a degradação estatal-militar, posta em evidência pelo fracasso da aventura dos falcões norte-americanos mas que exprime uma realidade global. O Estado intervencionista permitiu controlar as crises capitalistas verificadas desde os princípios do século XX, sua ascensão esteve sempre associada à do militarismo, às vezes de maneira visível e outras, após a Segunda Guerra Mundial, sob disfarce democrático (se observarmos a evolução dos Estados Unidos desde os anos 1930 comprovaremos que o “keynesianismo militar” constituiu até hoje a espinha dorsal do seu sistema).

Mas finalmente o desenvolvimento das forças produtivas universais, até chegar à sua actual degeneração parasitária-financeira, acabou por ultrpassar os seus reguladores estatais submergindo-os na maior das suas crises. O neoliberalismo aparentou ser a expressão de uma globalização superadora dos estreitos capitalismos nacionais. Na realidade tratava-se do vigoroso monstro financeiro a devorar o seu pai estatal-produtivo-keynesiano. Agora, encurralados pela crise, os dirigentes das grandes potências retornam ao intervencionismo estatal que resulta ser impotente perante a maré financeira.

Esta decadência estatal inclui a do militarismo moderno evidenciado pelo atolamento militar do Império no Iraque e do conjunto do Ocidente no Afeganistão. Trata-se de um fenómeno duplo. Por um lado, a ineficácia técnica desses super aparelhos militares para ganhar as guerras coloniais. Por outro, o seu gigantismo parasitário a operar como acelerados da crise. O caso norte-americano é exemplar (e sobre determinante): a hipertrofia bélica surge como um factor decisivo para os défices fiscais e a corrupção generalizada do Estado.

Um quinto indicador de senilidade é a crise urbana desencadeada na era neoliberal e que se agravará exponencialmente ao ritmo da crise actual. Desde princípios dos anos 1980, quando o
desemprego e o emprego precário nos países centrais tornaram-se crónicos e quando a exclusão e a pobreza urbana expandiu-se na periferia, o crescimento das grandes cidades foi cada vez mais o equivalente de involução das condições de vida das maiorias. A decomposição das cidades é claramente visível na periferia, mas não é exclusividade sua. Trata-se de um fenómeno global ainda que seja no mundo subdesenvolvido que se sucedam os primeiros colapsos, expressões mais agudas de uma onda multiforme, irresistível.

Crise

Desde a sua origem o capitalismo industrial experimentou uma longa sucessão de crises de superprodução. No século XIX tratou-se de crises cíclicas de crescimento uma
civilização jovem. Após cada grande turbulência o sistema expandia-se, mas deixando sequelas negativas que se foram acumulando até finalmente engendrar uma força parasitária-financeira
que nos princípios do século XX tornou-se dominante. Nesse momento o capitalismo entrou na sua era de m”aturidade”.

A intervenção estatal junto aos parasitismos militar e financeiro conseguiu controlar as crises, das quais emergiram fenómenos de decadência que deram um salto qualitativo ao desencadear da crise de superprodução dos fins dos anos 1960. Esta última foi amortecida, o sistema global continuou a crescer mas sobre a base da expansão exponencial da depredação ambiental e do parasitismo, principalmente financeiro. Este passou a controlar por completo o conjunto do mundo burguês, inaugurando a era senil do capitalismo.

Neste novo contexto foi-se preparando a grande explosão que hoje presenciamos, cujo disparador foi o colapso financeiro de 2008. A partir do mesmo o capital global vai passando (rapidamente) da condição de um sistema velho a crescer cada vez menos e com maiores custos sociais para se
tornar abertamente uma força destruidora das forças produtivas e do seu contexto ambiental (da “destruição criadora” schumpeteriana do século XIX à destruição depredadora do século XXI).

As civilizações anteriores ao capitalismo não liquidadas por factores exógenos (invasões, catástrofes naturais, etc) foram-no por devastadoras e prolongadas crises de sub-produção em que a sua rigidez técnica (produto do envelhecimento cultural) bloqueava o desenvolvimento produtivo e desencadeava uma catástrofe ecológica. O motor dessas tragédias foi sempre o predomínio paralisante do parasitismo acumulado durante o longo ciclo civilizacional.

A burguesia proclamava haver terminado com as crises sub-produção das antigas civilizações graças ao excepcional dinamismo tecnológico do sistema, o qual só podia sofrer crises de super-produção – sempre controladas graças ao crescente refinamento dos seus instrumentos de intervenção (que o neoliberalismo não eliminou e sim potenciou ao pô-los ao serviço da depredação financeira). Ridicularizavam os catastrofistas, especialmente os marxistas, que aguardavam a crise geral e final de superprodução que nunca chegou. Contudo, as referidas crises foram acumulando um potencial parasitário que agora começa a gerar uma crise de superprodução planetária, a maior da história humana. Se neste caso quiséssemos continuar a utilizar o conceito de crise cíclica, teríamos de fazê-lo com referência ao ciclo quase bicentenário do capitalismo — que acaba de entrar no período de aceleração da senilidade, de multiplicação de enfermidades e de colapsos.

Quatro esperas inúteis

Tendo presente este contexto de crise sistémica, civilizacional, que fazer referência a quatro esperas inúteis que florescem nos círculos de poder e nas suas periferias cortesãs.

A primeira delas, que sobre determina as outras três, é a da chegada de um quinto ciclo de Kondratieff, de uma nova prosperidade produtiva do capitalismo, aguardado durante a década passada e a actual. Não pode chegar porque a estrutura económica que engendrava esse tipo de ciclos no passado desapareceu vítima do parasitismo financeiro.

A segunda refere-se à chegada milagrosa de um novo keynesianismo que, empunhando a espada do intervencionismo estatal, cortaria a cabeça aos malvados especuladores financeiros e instalaria no centro do palco os bons capitalistas produtivos. O novo herói keynesiano não chegará porque o seu instrumento decisivo, o Estado, é impotente frente à maré financeira e muito mais ainda frente ao oceano da crise sistémica, além de a longa festa neoliberal tê-lo degradado profundamente. Por outro lado os bons capitalistas produtivos não aparecem em lado nenhum, o que realmente aparecem por todos os lados são os génios da especulação financeira.

A terceira espera inútil é a do renascimento do Império depois de quase quatro décadas de decadência, sobrecarregado de dívidas, enlouquecido pelo consumismo, com uma cultura produtiva seriamente deteriorada. Não existe nenhum indício sério desse suposto renascimento.

Finalmente, a quarta espera inútil é a de um novo Império capitalista ou uma nova aliança imperial, um novo centro do mundo burguês. A junção total entre as grandes potências descarta totalmente essa expectativa (a referida junção é o resultado de um longo processo de integração que acabou por conformar um sistema global fortemente inter-relacionado).

Notas

(1), DeDefensa.org, 17/12/2008 – Faits et comentaires- “Notre temps de la Terra Incognita” (www.dedefensa.org).

(2) Eamon Javers, “Four really, really bad scenarios”, Politico.com, 17 de diciembre de 2008, (www.politico.com/news/stories/1208/16663.html).

(3), Jorge Beinstein, “Los rostros de la crisis. Reflexiones sobre el colapso de la civilización burguesa”, Rebelión: http://www.rebelion.org/docs/75463.pdf,

Espai Marx: www.moviments.net/espaimarx

(4), Carlos Marx, “El Capital”, Libro III, Capítulo 30, nota 3, páginas 458 e 459, Fondo de Cultura Económica, México, D.F, 1966.

(5) Ernest Mandel, “Las ondas largas del desarrollo capitalista”, Ediciones Siglo XXI de España, Madrid, 1986.

(6) Ian Gordon, The Long Wave Analyst (http://www.thelongwaveanalyst.ca/cycle.html).

(7) O conceito de capitalismo senil foi elaborado nos anos 1970 por Roger Dangeville (Roger Dangeville, “Marx-Engels. La crise”, editions 10/18, Paris 1978) e retomado por vários autores na presente
década (Jorge Beinstein, “Capitalismo Senil”, Edições Record, Rio de Janeiro, 2001), Samir Amin , “Au delà du capitalisme senile”, Actuel Marx -PUF, Paris 2002).

(8) “Histoire des techniques”, sous la direction de Bartrand Gille, La Pléiade, Paris, 1978.

[N.T.] Pode-se discutir a existência real dos referidos Ciclos de Kondratieff e a sua validade científica. Muitos consideram que tal teorização é sobretudo especulação. Grande parte dos economistas marxistas nega a existência de ciclos de Kondratieff.

[*] Economista, argentino.

original encontra-se em El Viejo Topo, Barcelona, n° 253, Fevereiro 2009

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

Faturamento da indústria tem queda recorde de 13,4% em janeiro, informa CNI

do site do globo.com

Faturamento da indústria tem queda recorde de 13,4% em janeiro, informa CNI

Eduardo Rodrigues – O Globo

BRASÍLIA – O faturamento real da indústria de transformação no Brasil caiu 13,4% em janeiro na comparação com o mesmo mês do ano passado. Foi o pior resultado registrado desde o início da série da pesquisa, em 2003, e o único de dois dígitos. Frente a dezembro, o recuo de 4,3% em termos dessazonalizados foi o pior já observado em janeiro. Os dados constam na pesquisa Indicadores Industriais, divulgada nesta segunda-feira pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Diante dos dados e da elevada base de comparação de 2008 (quando o Produto Interno Bruto ainda teve desempenho bastante positivo, na casa de 5%), a CNI já crê que a atividade industrial poderá ficar estagnada ou até mesmo apresentar retração em 2009:

Mesmo que a atividade industrial recupere parte do patamar no segundo semestre de 2009, ainda assim, dificilmente, vai recuperar a média de 2008

- Mesmo que a atividade industrial recupere parte do patamar no segundo semestre de 2009, ainda assim, dificilmente, vai recuperar a média de 2008 – explicou Flávio Castelo Branco, chefe da Unidade de Política Econômica da CNI.

Devido ao fraco desempenho de dezembro, as horas trabalhadas apresentaram alta, de 1,3%. Mas, sobre janeiro de 2008, houve uma queda de 6,5%. O uso da capacidade de instalada recuou 1 ponto percentual sobre dezembro, para 78,4%, voltando ao nível de novembro de 2003, ano em que a economia ficou praticamente estagnada. Sobre janeiro de 2008, o indicador recuou 5,1 pontos percentuais. Em setembro, estava em 83%.

Os dados sobre emprego e renda também mostram o quadro de desaceleração aguda. O indicador emprego caiu pela terceira vez consecutiva, 0,7% sobre dezembro. Desde outubro, a queda é de 2,4%. Foi também a primeira vez na série histórica em que não houve aumento das contratações em relação ao mesmo mês do ano anterior: o recuo foi de 0,1%. A massa salarial caiu 17,8% em janeiro sobre dezembro, o que é normal devido ao décimo terceiro e outros pagamentos. Sobre janeiro de 2008, o total de salários pagos no setor ainda cresceu, 2,1%

A Crise e a Arrogância do Ocidente

do site adital


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Leonardo Boff *
Adital –

Em todos os paises se estão buscando saídas para a crise atual. Mais que crise, no meu modo de ver, estamos diante de um ponto de mutação de paradigma que está prestes a ocorrer. Mas está sendo protelado e impedido pela arrogância, típica do Ocidente. O Ocidente está perplexo: como pode ele estar no olho da crise, se possui o melhor saber, a melhor democracia, a melhor consciência dos direitos, a melhor economia, a melhor técnica, o melhor cinema, a maior força militar e a melhor religião?

Para a Bíblia e para os gregos essa maneira de pensar, constituía o supremo pecado, pois as pessoas se colocavam no mesmo pedestal da divindade. Eram logo castigadas ao desterro ou condenadas à morte. Chamavam essa atitude de hybris, quer dizer, de arrogância e de excesso. Paul Krugman, Nobel de economia de 2008, no dia 3 de março no New York Times:”Se você quer saber de onde veio a crise global, então veja a coisa dessa forma: estamos vendo a vingança do excesso; foi assim que nos atolamos nesse caos; e ainda estamos procurando uma saída”. Não se dizia antes greed is good? A ganância, que é excesso, é boa?

Arrolemos outra citação do insuspeito Samuel P. Huntington em O choque de civilizações: “É importante reconhecer que a intervenção ocidental nos assuntos de outras civilizações provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global  num mundo multicivilizacional”. Huntington explica que é a arrogância que o move a estas intervenções. Os ocidentais pretendem saber tudo melhor. Johan Galtung, norueguês, um dos mais proeminentes mediadores de conflitos do mundo, trabalhou três anos tentando mediar a guerra no Afeganistão. Afastou-se, decepcionado e irritado, denunciando: “a arrogância ocidental impede qualquer acordo; este só é possível à condição de os talibãs se submeterem totalmente aos critérios ocidentais”.

Talvez a forma mais refinada de arrogância foi e é vivida pelo Cristianismo, especialmente sob o atual Pontífice. Rebaixou as outras Igrejas negando-lhes o titulo de Igrejas. Impugnou as demais religiões como caminhos para Deus.

Mas tem antecessores mais severos: Alexandre VI (1492-1503) pela bula Inter Caetera dirigida aos reis de Espanha determinava: “pela autoridade do Deus Todo-Poderoso a nós concedida em São Pedro, assim como do Vicariato de Jesus Cristo, vos doamos, concedemos e entregamos com todos os seus domínios, cidades, fortalezas, lugares e vilas, as ilhas e as terras firmes achadas e por achar”. Nicolau V (1447-1455) pela bula Romanus Pontifex fazia o mesmo aos reis de Portugal. Concedia “a faculdade plena e livre para invadir, conquistar, combater, vencer e submeter a quaisquer sarracenos e pagãos em qualquer parte que estiverem e reduzir à servidão perpétua as pessoas dos mesmos”.

Dá para ir mais longe no excesso e na hybris? Apagou-se totalmente a memória do Nazareno que pregava o amor incondicional e que todos somos irmãos e irmãs.

A arrogância do Ocidente impede que os chefes de Estado, face à atual crise, se abram à sabedoria dos povos e busquem uma solução a partir de valores compartilhados e de uma visão integradora dos problemas da Casa Comum, ferida ecologicamente. Nos discursos de Barack Obama ressoa a arrogância tipicamente norteamericana de que os EUA ainda vão liderar o mundo. É uma liderança montada sobre 700 bases militares espalhadas por todo o mundo e munidas com armas de destruição em massa capazes de dizimar a espécie humana e deixar atrás de si uma Terra devastada. Essa liderança arrogante não a queremos.

* Teólogo

“Bancos torcem para que juros despenquem no Brasil”

do site carta maior

OCTÁVIO DE BARROS

 

Durante seminário do CDES, economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros, afirma que bancos apostam na capacidade de o Brasil superar a crise e admite redução do spread bancário. Bancos propõem também o fim da tributação sobre a intermediação financeira e a redução do depósito compulsório. “O sistema bancário brasileiro torce para que os juros básicos despenquem no país, pois isso traduz uma economia mais vibrante e com menos riscos”, disse o economista.

BRASÍLIA – “Os bancos têm o maior interesse que os juros básicos sejam os menores possíveis. No Brasil, os melhores resultados dos bancos ocorreram justamente em períodos aonde a taxa de juros básica era mais baixa. No passado, isso pode ter sido diferente, mas, no momento que o Brasil atravessa nos últimos anos, isso já foi superado largamente. O sistema bancário brasileiro torce para que os juros básicos despenquem no país, pois isso traduz uma economia mais vibrante e com menos riscos”.

Impensável há alguns anos, a declaração acima foi feita pelo economista-chefe de um dos maiores bancos privados brasileiros, Octávio de Barros, do Bradesco, durante o seminário internacional do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), realizado nos dias 5 e 6 de março em Brasília para discutir a crise econômica global. As palavras de Barros, que também defendeu a redução do spread bancário e o aumento dos investimentos para enfrentar a crise, mostram que, ao menos no discurso, os grandes bancos parecem mais dispostos a privilegiar o crescimento do país em lugar de se preocupar apenas em fazer crescer cada vez mais seus lucros astronômicos.

Barros sugeriu apoio à redução do spread bancário, apontado por muitos como símbolo maior da ganância dos banqueiros: “Como intelectual e pesquisador, eu dou a maior força para que nós avancemos de forma acelerada nessa discussão sobre o spread bancário. O comportamento que observamos no spread e na taxa de juros no Brasil revela uma deterioração da percepção de risco num sentido amplo. É muito possível supor que, no momento em que se destensione a economia mundial, o spread se reduza. Isso é plausível, assim como a redução da taxa de juros”, disse.

O economista, no entanto, pediu a seus interlocutores para não “demonizar” os bancos privados nessa questão do spread: “A parte de lucro que cabe aos bancos é apenas uma fração do spread bancário. Algo como um quinto, segundo a Febraban, ou um quarto, segundo o Banco Central. O spread tem outros componentes, como o risco de inadimplência, a tributação, os compulsórios e os custos de observância dos riscos que os bancos correm por força da inflação”.

O Brasil, segundo Barros, terá mesmo que apertar o cinto em 2009: “O investimento total público e privado terá queda de 3,4% no país, que sofrerá também uma queda de 2,5% do PIB. Por maior e mais relevante que seja o esforço público, ele não compensa a queda do investimento privado. A economia vai operar de forma ociosa durante um ano e meio, temos de nos preparar para isso”, disse.

Esse cenário, no entanto, “não deve ser motivo de preocupação para os brasileiros”, afirma o economista, pois existe a expectativa de sua reversão: “O crescimento projetado para o Brasil em 2010 é de 3,5% e, mesmo em 2009, o investimento aqui vai cair menos do que em outros países emergentes. O processo de desenvolvimento deflagrado no Brasil não vai parar, pois o custo da desmobilização total do desenvolvimento seria muito alto. O país vai voltar a crescer de forma mais acentuada já em 2010”.

Papel dos emergentes

De acordo com a projeção realizada pelos bancos privados, o Brasil deve se colocar em 2009, graças aos efeitos da crise sobre os países desenvolvidos, como o país com o quarto maior crescimento do mundo: “O Brasil deve crescer 0,6%, atrás somente da China (6,5%), da Índia (5,5%) e da Indonésia (2%). Haverá uma mudança grande de paradigma na economia mundial. O mundo, nos próximos cinco anos, vai crescer bem abaixo da média histórica, mas o Brasil está na contramão do mundo”, disse Barros.

O executivo do Bradesco ressalta a importância do papel dos países emergentes na busca por soluções para a crise econômica: “Haverá uma queda de 0,5% no crescimento global, mas, se levarmos em conta somente os países ricos, essa queda é de 6%. A crise não fez os emergentes mais dinâmicos mudarem de rumo, por isso o peso desses países aumenta ainda mais. Em meados de 2014, os países emergentes superarão o PIB dos países desenvolvidos. Existirão novas locomotivas da economia mundial nos próximos 10 ou 20 anos. A China alcançará os Estados Unidos, e o Brasil, cada vez mais reconhecido internacionalmente como um país maduro, pode também ter papel de destaque”.

Duas propostas

Instigado pelos demais conselheiros do CDES a apresentar duas propostas do sistema bancário que seriam levadas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Octávio de Barros afirmou que sugeriria ao governo “acabar com a tributação sobre a intermediação financeira e reduzir o depósito compulsório”, que, segundo ele, é um dos maiores do planeta: “O Brasil é o único país que tributa a operação de crédito e a intermediação financeira, o que não faz o menor sentido. Tenho a impressão de que o ministro Guido Mantega e toda a área econômica do governo estão sensíveis a isso, pois é uma distorção”.

Barros defendeu sua segunda proposta: “Nós temos uma avenida de possibilidades para reduzir o depósito compulsório, e o Brasil caminha nessa direção. Quanto mais a crise internacional se agrava, maior o espaço pra isso. Não existe nenhum outro país que tenha em seu banco central um estoque tão grande de dinheiro retido dos bancos, dinheiro que poderia estar circulando”, disse.

Na esteira da redução do compulsório, Barros afirma que o Brasil tem que “perseguir mecanismos que mitiguem o risco de inadimplência, que representa 35% do spread bancário”. Segundo o economista “existem no momento discussões entre os bancos e o governo sobre como enfrentar esse problema através da criação de um seguro ou um fundo”.

Fidel sobre a globalização neoliberal

do site pátria latina


A TV cubana transmite o Encontro dos Economistas em todas as suas atividades, de forma direta, em TV aberta, para todo o país. Há mesas com grandes temas, à tarde e à noite, assim como comissões de manhã, divididas em temas: finanças, desenvolvimento: políticas agrárias e segurança alimentar, crise econômica global, temas sociais, energia e meio ambiente, desenvolvimento e globalização e integração.
O presidente da Associação de Economistas Cubanos, Roberto Verrier, recordou, no seu discurso de abertura do evento, palavras proferidas por Fidel Castro no Encontro realizado em janeiro de 1999, há 10 anos, no primeiro Encontro de Economistas, quando poucos se atreviam a prever a crise que vive hoje:
“Que tipo de globalização temos hoje? Uma globalização neoliberal; muitos de nós a chamamos assim. Ela é sustentável? Não. Poderá subsistir por muito tempo? Absolutamente não. Por séculos? Categoricamente não. Durará apenas décadas? Sim, só décadas. Porém mais cedo do que se imagina terá que deixar de existir.”
“Será que eu acredito que eu sou uma espécie de profeta ou de adivinho? Não. Conheço muito de economia? Não. Quase absolutamente nada. Para afirmar o que eu disse basta saber somar, diminuir, multiplicar e dividir. O que aprendem as crianças na escola primária.”
“Como vai se produzir a transição? Não sabemos ainda. Mediante grandes revoluções violentas ou grandes guerras? Parece improvável, irracional e suicida. Mediante profundas e catastróficas crises? Infelizmente é o mais provável, quase quase inevitável e transcorrerá por vias e formas de luta muito diversas…”
Comentou Verrier: “Aquele discurso nos desconcertou a todos por sua brevidade e contundência, quando ainda estávamos por constatar seu profundo avanço sobre os acontecimentos que se precipitaram no lapso de uma década.”
E, mais adiante, disse: “Se requer uma análise séria, profunda e rigorosa sobre a crise econômica global e seu impacto no setor financeiro. É imprescindível um novo desenho da ordem econômica internacional e uma reestruturação de sua arquitetura financeira. Toda analise sobre este tema requer a mais ampla participação da comunidade internacional. Todos os países e, em particular, os países em via de desenvolvimento, têm o direito a estar presentes, a aportar seus pontos de vista e perspectivas, e a fazer parte das soluções que se definam.”

Texto: Emir Sader/de Havana/Carta Maior / Postado em 06/03/2009 ás 01:35

Lula quer substituir dólar no comércio sul-americano

do portal vermelho


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu nesta terça-feira a substituição do dólar como moeda do comércio sul-americano. “Precisamos colocar nossos ministros da Fazenda e presidentes dos Bancos Centrais para criar regras para não ficarmos dependentes do dólar, que está cada dia mais escasso e problemático”, afirmou.

Diante da crise financeira mundial, Lula defendeu o uso de moedas nacionais nas trocas comerciais entre os países da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), que já agrupa todas as economias do continente exceto a Guiana Francesa e as Ilhas Malvinas, ainda sob domínio colonial europeu. Ele fez a declaração em coletiva de imprensa após encontro com o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que se mostrou favorável-se à sugestão.


O presidente brasileiro reafirmou que vê a crise como uma oportunidade para as economias sul-americanas. “Vejo nessa crise uma grande oportunidade para ter mais ousadia e coragem e fazer o que, em tempo de normalidade, achávamos que não podíamos fazer, porque Basiléia [cidade suíça, sede do Banco de Compensações Internacionais, uma espécie de Banco Central dos Bancos Centrais, que também dá nome ao acordo que trata da normatização dos procedimentos bancários] não concordava, porque o Banco Mundial não achava bom”, afirmou.


Divergências com a Argentina


Lula também comentou a reunião em nível ministerial entre Brasil e Argentina, para evitar uma guerra de medidas protecionistas nas trocas comerciais. Para o presidente brasileiro, a relação entre os dois países é “profunda” e “forte” a ponto de permitir que qualquer divergência entre os dois países seja superada.


“Estou convencido de que a relação entre a Argentina e o Brasil é tão profunda e tão forte que não há divergência que não possa ser solucionada”, disse. E completou: “é bom que a gente tenha divergência, e é melhor ainda que a gente tenha competência e vontade política de resolvê-la”.


Participaram da reunião, pelo lado brasileiro, os ministros de Relações Exteriores, Celso Amorim, da Fazenda, Guido Mantega e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge. Do lado argentino compareceram os ministros das Relações Exteriores, Jorge Taiana, da Economia, Carlos Fernández, e da Produção, Débora Giorgi.


Nota divulgada pelo Ministério de Relações Exteriores informa que “a reunião ministerial tem por objetivo aprofundar o diálogo bilateral sobre as medidas tomadas pelos dois governos no contexto da atual crise internacional”.


Com informações da Agência Brasil

Sinais de implosão Rumo à desintegração do sistema global

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

por Jorge Beinstein [*]

Setembro de 2008 foi um ponto de inflexão no processo recessivo que se iniciara nesse ano nos Estados Unidos: estalou o sistema financeiro e a recessão começou a estender-se rapidamente a nível planetário.

Ao mesmo tempo, evidenciavam-se sintomas muito claros de transição global para a depressão e a sua chegada começou a ser admitida em princípios de 2009. Agora assistimos a um encadeamento internacional de quedas produtivas e financeiras.

Ele é acompanhado por uma mistura de pessimismo e impotência diante da provável transformação da onda depressiva em colapso geral, ao mais alto nível das elites dirigentes. As declarações de George Soros e Paul Volkcker na Universidade de Columbia a 21 de Fevereiro de 2009 assinalaram uma ruptura radical [1] , muito mais séria do que a de Alan Greenspan dois anos atrás quando anunciou a possibilidade de os Estados Unidos entrarem em recessão.

Volcker admitiu que esta crise é muito mais grave que a de 1929. Isso significa que a mesma carece de referências na história do capitalismo. O desaparecimento de paralelismos em relação a crises anteriores refere-se também (e principalmente) aos remédios conhecidos. Porque 1929 e a depressão que se seguiu estão associados à utilização com êxito dos instrumentos keynesianos, à intervenção maciça do Estado como salvador supremo do capitalismo.

E o que estamos a presenciar agora é a mais completa ineficácia dos Estados dos países centrais para superar a crise. Na realidade, a avalanche de dinheiro que eles lançam sobre os mercados para auxiliar bancos e algumas empresas transnacionais não só não trava o desastre em curso como também está a criar as condições para futuras catástrofes inflacionárias, as próximas bolhas especulativas.

IMPLOSÃO CAPITALISTA?

Soros, por sua vez, confirmou aquilo que já era evidente: o sistema financeiro mundial desintegrou-se, ao que acrescentou a descoberta de semelhanças entre a situação actual e aquela vivida durante o derrube da União Soviética. Quais são esses paralelismos?

Como sabemos, o sistema soviético começou a desmoronar-se em fins dos anos 1980 para finalmente implodir em 1991. O fenómeno foi geralmente atribuído à degradação da sua estrutura burocrática o que o tornava em princípio intransferível para o capitalismo que também alberga uma vasta burocracia (ainda que não hegemónica como no caso soviético).

Mas existe um processo, uma doença que não é património exclusivo dos regimes burocráticos, que se desenvolveu no capitalismo tal como nas civilizações anteriores à modernidade: trata-se da hipertrofia parasitária, do domínio esmagador de formas sociais parasitárias que depredam as forças produtivas até um ponto tal em que o conjunto do sistema fica paralisado, não pode reproduzir-se mais e finalmente morre afogado no seu próprio apodrecimento.

Ao longo do século XX o capitalismo impulsionou estruturas parasitárias como o militarismo e sobretudo as deformações financeiras que marcaram a sua cultura, seu desenvolvimento tecnológico, seus sistemas de poder.

As últimas três décadas assistiram à aceleração do processo — adornado com o discurso da reconversão neoliberal, do reinado absoluto do mercado. Talvez o seu ponto mais alto tenha sido alcançado durante o último lustro do século XX, em plena expansão das bolhas bursáteis e quando o poder militar dos Estados Unidos parecia ser imbatível. Mas na primeira década do século XXI começou o desmoronamento do sistema.

O Império afundou no pântano de duas guerras coloniais, sua economia degradou-se velozmente e bolhas financeiras de todo tipo (imobiliárias, comerciais, de endividamento, etc) povoaram o planeta. O capitalismo financiarizado havia entrado numa fase de expansão vertiginosa esmagando com o seu peso todas as formas económicas e políticas.

Em 2008 os Estados centrais (o G7) dispunham de recursos fiscais num montante da ordem de 10 milhões de milhões de dólares contra 600 milhões de milhões em produtos financeiros derivados registados pelo Banco da Basiléia (BIS), ao que é necessário acrescentar outros negócios financeiros. Segundo alguns peritos, actualmente a massa especulativa global supera os 1000 milhões de milhões (cerca de 20 vezes o Produto Bruto Mundial).

Essa montanha financeira não é uma realidade separada, independente da chamada economia real ou produtiva. Foi engendrada pela dinâmica do conjunto do sistema capitalista: pelas necessidades de rentabilidade das empresas transnacionais, pelas necessidades de financiamento dos Estados.

Não é uma rede de especuladores autistas lançados numa espécie de auto-desenvolvimento suicida e sim a expressão radicalmente irracional de uma civilização em decadência (tanto a nível produtivo como político, cultural, ambiental, energético, etc).

Há mais de quatro década o capitalismo global com eixo nos países centrais suporta uma crise crónica de superprodução, acumulando sobrecapacidade produtiva perante uma procura global que crescia mas cada vez menos. A droga financeira foi a sua tábua de salvação, melhorando lucros e impulsionando o consumo nos países ricos, ainda que a longo prazo tenha envenenado totalmente o sistema.

Foi posto em moda lançar a culpa da crise nos chamados especuladores financeiros. Segundo nos explicam altos dirigentes políticos e peritos mediáticos, as turbulências chegarão ao seu fim quando a “economia real” impuser a sua cultura produtiva submetendo às regras do bom capitalismo as redes financeiras hoje fora de controle.

Contudo, em meados da década actual, nos Estados Unidos mais de 40% dos lucros das grandes corporações provinha dos negócios financeiro [2] . Na Europa a situação era semelhante. Na China, no momento do maior auge especulativo (fins de 2007), só a bolha bursátil movia fundos quase equivalentes ao PIB desse país [3] , alimentada por empresários privados e públicos, altos burocratas, profissionais, etc.

Não se trata por conseguinte de duas actividades, uma real e outra financeira, claramente diferenciadas, e sim de um só conjunto heterogéneo, real, de negócios. É esse conjunto que agora está a desinchar velozmente, a implodir depois de haver chegado ao seu máximo nível de expansão possível nas condições históricas concretas do mundo actual.

Sob a aparência imposta pelos meios globais de comunicação de uma implosão financeira que afecta negativamente o conjunto das actividades económica (algo assim como uma chuva tóxica a atacar as pradarias verdes) surge a realidade do sistema económico global como totalidade a contrair-se de maneira caótica.

SINAIS As declarações de Soros e Volcker foram efectuadas poucos dias antes de o governo norte-americano ter dado a conhecer os números oficiais definitivos da queda do Produto Interno Bruto no último trimestre de 2008 em relação a igual período de 2007: a primeira estimativa oficial que fixara a referida queda em 3,8% verificou-se ser uma mentira grosseira.

Agora verifica-se que a contracção chegou aos 6,2% [4] — isso já não é recessão e sim depressão. O Japão por sua vez teve no mesmo período uma descida do PIB da ordem dos 12% e em Janeiro de 2009 as suas exportações caíram 45% em comparação com o mesmo mês do ano anterior [5] .

Na Europa a situação é semelhante ou talvez pior. Após o derrube financeiro da Islândia, a ameaça da bancarrota económica em vários países da Europa do Leste como a Polónia, Hungria, Ucrânia, Letónia, Lituânia, etc, ameaça de maneira directa os sistemas bancários credores da Suíça e da Áustria, que poderiam fundir-se como o da Islândia. Enquanto isso, os grandes países industriais da região, como Alemanha, Inglaterra ou França, vão passando da recessão à depressão. Os prognósticos sobre a China anunciam para 2009 uma redução da sua taxa de crescimento à metade do de 2088. Suas exportações de Janeiro foram 17,5% inferiores às de Janeiro do ano anterior [6] .

Esta brusca deterioração do centro vital do seu sistema económico não tem perspectivas de recuperação enquanto durar a depressão global, pelo que o seu ritmo de crescimento geral continuará a descer. Que Soros e Volcker abram a expectativa de um colapso do sistema económico mundial não significa que o mesmo se produza de modo inevitável.

Afinal de contas, uma das principais características de uma decadência civilizacional como a que estamos a presenciar é a existência de uma profunda crise de percepção nas elites dominantes. Contudo, a acumulação de dados económicos negativos e a sua projecção realista para os próximos meses estão a indicar que a grande catástrofe anunciada por eles tem probabilidades de realização muito altas.

Para esse desenlace contribuem a impotência comprovada dos supostos “factores de controle” do sistema (governos, bancos centrais, FMI, etc) e a rigidez política do Império. Ao ampliar, por exemplo, a guerra no Afeganistão — preservando assim o poder do Complexo Industrial Militar, gigante parasitário cujos gastos reais actuais (aproximadamente pouco mais de um milhão de milhões de dólares por ano) equivale a 80% do défice fiscal dos Estados Unidos.

A estes sintomas económicos e políticos devemos acrescentar a crise energética e alimentar dela derivada, que certamente voltarão a manifestar-se mal se detenha o processo inflacionário (e talvez antes). Tudo isso num contexto de crise ambiental que passou a ser um factor actual de crise (já não é mais uma ameaça quase intangível localizada num futuro longínquo). E por trás dessas crises parciais encontramos a presença da crise do sistema tecnológico moderno, incapaz de superar – como componente motriz da civilização burguesa – os bloqueios energéticos e ambientais criados pelo seu desenvolvimento depredador.

DESINTEGRAÇÃO, IMPLOSÃO E DISJUNÇÃO

A desintegração-implosão do sistema global não significa a sua transformação num conjunto de subsistemas capitalistas ou blocos regionais com relações mais ou menos fortes entre si, alguns prósperos, outros declinantes (a unipolaridade estado-unidense convertendo-se em multipolaridade, “disjunção” ordenada em torno de novos ou velhos pólos capitalistas).

A economia mundial está altamente transnacionalizada, forma um denso emaranhado de negócios produtivos, comerciais e financeiros que penetra profundamente as chamadas “estruturas nacionais”, investimentos e dependências comerciais atam-nas de maneira directa ou indirecta aos núcleos decisivos do sistema global.

Em termos gerais, para um país ou uma região, a ruptura dos seus laços globais ou o seu enfraquecimento significativo implica uma enorme ruptura interna, o desaparecimento de sectores económicos decisivos com as consequências sociais e políticas que daí decorrem. Além disso, até agora o sistema global estava organizado de maneira hierárquica tanto no seu aspecto económico como político-militar (unipolaridade) devido ao fim da Guerra Fria e da transformação dos Estados Unidos no senhor do planeta.

Não só no espaço de concentração das decisões comerciais e financeiras (isso já ocorria há mais de seis décadas) como também das grandes decisões políticas. O afundamento do centro do mundo [7] em meio à depressão económica internacional significa o desencadear de uma cadeia global de crises (económicas, políticas, sociais, etc) de intensidade crescente.

Recentemente Zbigniew Brzezinski pôs de lado as suas tradicionais reflexões sobre política internacional para alertar acerca da possibilidade de agravamento dos conflitos sociais dentro dos Estados Unidos que, segundo ele, poderia derivar em distúrbios violentos generalizados [8] .

Por sua vez, e a partir de uma perspectiva ideológica oposta, Michael Klare descreveu o mapa dos protestos populares que atravessa todos os continentes, países ricos e pobres, do Norte e do Sul, iniciados em 2008 como consequência da crise alimentar num amplo leque de países periféricos mas que começam a desenvolver-se globalmente em resposta ao agravamento da depressão económica [9] : a multiplicação de crises de governabilidade aguarda-nos a curto prazo.

A hipótese da implosão capitalista abre o espaço para a reflexão e a acção quanto ao horizonte pós capitalista, onde se misturam velhas e novas ideias, ilusões fracassadas e densas aprendizagens democráticas do século XX, travões conservadores legitimando ensaios neocapitalistas e visões renovadas do mundo a pressionar grandes inovações sociais.

A agonia da modernidade burguesa com os seus perigos de barbárie senil — mas ruptura de bloqueios ideológicos, de estruturas opressivas e de esperança na regeneração humanista das relações sociais.

02/Março/2009

Notas

(1) “Soros sees no bottom for world financial ‘collapse’ “, Reuters. Sat Feb 21, 2009. David Randall and Jane Merrick, “Brown flies to meet President Obama for economy crisis talks” , The Independent , Sunday, 22 February 2009.

(2) US Economic Report for the President, 2008.

(3) Em Agosto de 2007 a capitalização das bolsas chinesas superava o valor do Produto Interno Bruto do ano 2006. Dong Zhixin, “China stock market capitalization tops GDP”, Chinadaily ( http://www.chinadaily.com.cn/china/2007-08/09/content_6019614.htm )

(4)Cotizalia.com, 27 febrero 2009, “El PIB de EEUUse hunde un 6,2% en el cuarto trimestre”.

(5) BBC News, 25-2-2009, “Japan exports drop 45 % to new low”.

(6) “China’s export down 17.5% in January”, Xinhua, 2009-02-11. (

7) Jorge Beinstein, “El hundimiento del centro del mundo. Estados Unidos entre la recesión y el colapso”. Rebelión, 8-5-2008 ( http://www.rebelion.org/noticia.php?id=67099 ).

(8) “Brzezinski: ‘Hell, There Could Be Even Riots’ “, FinkelBlog – 20/02/2009 – brzezinski-hell-there-could-be-even-riots ).

9, Michael Klare, “A planet at the brink?”, Asia Times, 28 de Fevereiro de 2009.

[*] jorgebeinstein@gmail.com