“Indignados” tomam capitais europeias e protestam contra crise e desemprego

site opera mundi

19/06/2011 -  17:50 |  Vitor Sorano  |  Lisboa

O movimento que ocupou durante 25 dias a Praça do Sol, em Madri, levou neste domingo (19/06) ao menos 38 mil pessoas às ruas na cidade – em Barcelona foram pelo menos 20 mil, segundo a polícia. Em outras capitais europeias – como Lisboa, Bruxelas e Paris – centenas ecoaram o protesto contra a classe política e econômica nos países da zona do euro.

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Os números indicam um crescimento dos “indignados”, como são chamados. O protesto do último dia 15 de maio, que deu início ao acampamento madrilenho, reuniu 20 mil pessoas na cidade, segundo o jornal espanhol El País. “Está crescendo e acho que vai continuar”, disse ao Opera Mundi a consultora de web Maria, de 37 anos, que participou da manifestação em Madri neste domingo.

Vitor Sorano

Cerca de 150 pessoas participaram da manifestação pelas ruas de Lisboa

Uma proposta para uma greve geral é pensada agora como o próximo passo. “Está sendo discutido, mas nenhuma decisão foi tomada ainda”, afirmou Maria. Os debates devem ocorrer, segundo ela, em assembleias distritais que o movimento quer promover.

Sem uma estrutura formal central, e baseados em redes sociais como o Facebook, os protestos dos “indignados” europeus têm bandeiras variadas. O principal ponto em comum é a acusação de que o atual sistema político “não nos representa”- como gritaram na Espanha. O lema “Democracia Verdadeira, Já” foi utilizado por grupos que promoveram protestos neste domingo também em outros países.

“É mais fácil dizer o que não é a verdadeira, que é essa. A pessoa vota e os eleitos fazem o contrário e não podem ser destituídos”, afirmou o carioca Otávio Raposo, de 32 anos, um dos cerca de 150 que participaram do protesto em Lisboa. O grupo desceu a Avenida da Liberdade até o Rossio – mesmo caminho feito pelo protesto conhecido como Geração Enrascada e que reuniu cerca de 200 mil pessoas em março, no que é considerada a maior manifestação desde a Revolução dos Cravos, em 1974.

Outro ponto em comum é o calote dos países. “A dívida não é nossa”, gritavam em Paris, de acordo com o jornal Libération, cerca de 450 pessoas que se reuniram junto ao Hotel de Villê, onde fica a prefeitura da cidade. Parte dos manifestantes – o jornal El País fala em uma centena – foi detida por tentar continuar o protesto para além do que estava permitido.

Grupo equivalente caminhou até a Praça de Luxemburgo – sede do Parlamento Europeu em Bruxelas, segundo o jornal belga l’Avenir. Houve confronto com a polícia, que jogou gás lacrimogêneo e foi alvo de arremesso de objetos.

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Depois de críticas em razão da violência – na última quarta-feira (15/06), manifestantes cercaram o Parlamento catalão e houve confronto com a polícia – não houve ocorrências em Madri, segundo o El País. Em Barcelona, segundo o La Vanguardia, apenas uma. Na cidade, 20 mil pessoas foram às ruas, segundo o jornal, e 98 mil segundo o El País. Em Lisboa não houve ocorrências, informou a Polícia de Segurança Pública.

Plataformas do movimento Democracia Verdadeira, Já na Espanha afirmam que houve protestos em 98 cidades. As manifestações ocorrem a uma semana do Conselho Europeu, do qual participam os chefes dos 27 países da UE (União Europeia). Na pauta do evento está um controle mais integrado da política econômica dos Estados-Membros. A Alemanha, por exemplo, propõe que as idades mínimas de aposentadoria convirjam – o que pode levar à elevação do limite em países como Portugal.

Desemprego e austeridade

A Espanha tem a maior taxa de desemprego dos 17 países do Euro. Portugal tem a quarta – os dados da Grécia não foram divulgados. Entre as pessoas com menos de 25 anos, quatro em cada 10 espanhóis e dois em cada 10 portugueses estão desempregados. Além disso, nos dois países a proporção de empregos temporários, considerado precários, atinge entre os jovens 58,6% e 57,3%, respectivamente.

“Consegui trabalho há uma semana”, disse o catalão Victor Rovira, 27 anos, que acompanhava o protesto em Lisboa. “Gostaria muito de estar em Barcelona, então vim fazer aqui o que não podia fazer em casa”. Com mestrado em gestão de patrimônio cultural, está dando aulas de castelhano em uma escola de línguas, sem contrato.

Vitor Sorano

As manifestações tiveram forte presença dos jovens nas ruas europeias

“Os investimentos em educação não estão se traduzindo em oportunidades de trabalho. O jovem não consegue encontrar um emprego minimamente qualificado e bem pago. Há uma sobrequalificação”, afirmou o sociólogo Elísio Estanque, pesquisador da Universidade de Coimbra, que estima em 50 mil os licenciados desempregados.

Para Estanque, a existência dessa camada de jovens qualificados, mas sem trabalho é um dos fatores que explica o surgimento dos movimentos atuais na forma como acontecem, sem ligação com partidos políticos e sindicatos ou organização formal. Outra questão é o distanciamento dessas instituições da realidade desse público.

“As estruturas tradicionais não estão sabendo dar saída”, disse o sociólogo. “Os partidos políticos se burocratizaram. A democracia representativa não tem permitido a democracia participativa. Os sindicatos também se burocratizaram e não têm dado resposta aos precários”, concluiu.

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Alternativas para a crise portuguesa

do site outras palavras

 

Por Boaventura de Sousa Santos

  Começo por descrever os próximos passos do aprofundamento da crise, para de seguida propor uma estratégia de saída. O que neste momento está se tramando como solução para a crise que o país atravessa não fará mais que aprofundá-la. Eis o itinerário. A intervenção do FMI começará com declarações solenes de que a situação é muito mais grave do que se tem dito (o ventríloquo pode ser o líder do PSD, se ganhar as eleições). As medidas impostas serão a privatização do que resta do setor empresarial e financeiro do Estado, a máxima precarização do trabalho, o corte nos serviços e subsídios públicos. Tudo isso  pode levar, por exemplo, a que o preço dos transportes ou do pão suba de um dia para o outro para o triplo, demissões de servidores públicos, cortes nas aposentadorias e salários (a começar pelos abonos de férias e de Natal, um “privilégio” que os jovens do FMI não entendem) e a transformação do Serviço Nacional de Saúde (SNS) num serviço residual.

Tudo se fará para obter o seal of approval do FMI, que restabelece a confiança dos credores no país. O objetivo não é que pague as dívidas (sabe-se que nunca as pagará), mas antes que vá pagando os juros e se mantenha refém da camisa de forças, para mostrar ao mundo que o modelo funciona.

Este itinerário não é difícil de prever porque tem sido esta a prática do FMI em todos os países onde tem intervindo. Rege-se pela ideia de que one size fits all, ou seja, que as receitas são sempre as mesmas, uma vez que as diferentes realidades sociais, culturais e políticas são irrelevantes
ante a objetividade dos mercados financeiros.

Feita a intervenção de emergência – que os portugueses serão induzidos a ver como uma necessidade e não como um certificado de óbito às suas justas aspirações de progresso e de dignidade –, entra o Banco Mundial para fornecer o crédito de longa duração que permitirá “reconstruir” o
país. Ou seja, para assegurar que os mercados e as agências de rating ditarão ao país o que pode e não pode ser feito. Serão ocultadas as seguintes irracionalidades:

Que o modelo imposto ao mundo está falido na sua sede, os EUA; que o FMI faz tudo para servir os interesses financeiros norte-americanos, até para se defender do movimento que houve no Congresso para extingui-lo; que o maior credor dos EUA, a China, e segunda maior economia do mundo, tem o mesmo poder de voto no FMI que a Bélgica; que as agências de rating manipulam a realidade financeira para proporcionar aos seus clientes “rendas financeiras excessivas”.

Claro que pode haver complicadores. Os portugueses podem revoltar-se. O FMI pode admitir que fez um juízo errado e reverter o curso, como aconteceu na crise do Leste da Ásia, em que as políticas do FMI produziram o efeito contraproducente, como reconhece Jagdish Bhagwati, um respeitado economista e free trader convicto, em In Defense of Globalization. Se tal acontecer, não é sequer imaginável que o FMI indenize o país pelo erro cometido.

Perante este agravamento concertado da crise, como buscar uma saída que restitua aos portugueses a dignidade de existir? Não discuto aqui quem serão os agentes políticos democráticos que tomarão as medidas necessárias, nem o modo como os portugueses se organizarão para pressioná-los nesse sentido. As medidas são as seguintes:

Realizar uma auditoria da dívida externa, que permita reduzi-la à sua proporção real: por exemplo, descontando todos os efeitos de rating por contágio de que fomos vítimas nos últimos meses.

Resolver as necessidades financeiras de curto prazo contraindo empréstimos, sem as condicionalidades do FMI, junto de países dispostos a acreditar na capacidade de recuperação do país, tais como a China, o Brasil e Angola.

Tomar a iniciativa de promover um diálogo Sul-Sul, depois alargado a toda a Europa, no sentido de refundar o projeto europeu, já que o atual está morto.

Promover a criação de um mercado de integração regional transcontinental, tendo como base a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) e como carros-chefes Brasil, Angola e Portugal.

Usar como recurso estratégico nessa integração a requalificação da nossa especialização industrial, em função do extraordinário avanço do país nos últimos anos nos domínios da formação avançada e da investigação científica.

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Boaventura de Sousa Santos é diretor  do Centro de Estudos Sociais, Laboratório Associado, da Universidade de Coimbra

Nos EUA a crise não é para todosTrabalhadores pagam e capital embolsa

do jornal avante

A Reserva Federal dos EUA admitiu, quinta-feira, 29, que a economia norte-americana permanece praticamente estagnada. As consequências fazem-se sentir com violência no país e os dados mostram não só que a crise não é para todos como é endémica ao sistema baseado na exploração de classe.De acordo com o relatório da Reserva Federal, o nível de consumo voltou a cair (0,8 por cento) pelo segundo mês consecutivo, arrastando o índice para o pior resultado do ano de 2010. A crescer apenas o segmento da aquisição de géneros de primeira necessidade, ao passo que a transacção de bens duráveis e particularmente de imóveis continua a cair, adianta a entidade responsável por emissão de moeda nos EUA.

Segundo a Associação Nacional de Corretores de Imóveis, no mês de Junho o total de casas vendidas baixou 26 por cento face ao ponto mais alto do volume de transacções, registado em Setembro de 2005.

A Reserva já admite voltar a forçar os apoios à chamada recuperação da economia, isto é, equaciona voltar a verter milhões de dólares, às expensas do erário público, sobre um modo de produção anárquico, depredador e sorvedor de recursos, caracterizado pela antagonia entre o carácter privado da propriedade e o carácter social da produção.


Longa agonia do sistema

A par dos indicadores de conjuntura, a crise capitalista revela com crueza as suas consequências. Os principais atingidos são os trabalhadores. Só no ano de 2009, mais de 20 por cento das famílias norte-americanas sofreram uma perda de rendimento disponível na ordem dos 25 por cento, diz um relatório elaborado pela insuspeita Fundação Rockefeller.

O documento, intitulado «Segurança económica em risco», adianta ainda que, desde 1985, o total de famílias que perderam um quarto dos respectivos rendimentos cresceu quase 50 por cento quando se comparam os dados dos últimos 25 anos com os registados entre 1960 e 1985.

Quando o período é o de 1966 a 2006, o total de norte-americanos que perderam pelo menos 25 por cento dos rendimentos ascende a 60 por cento do total da população.

Estes dados confirmam não apenas que a crise capitalista é de natureza sistémica – a delapidação dos rendimentos do trabalho (necessária para manter a taxa de rentabilidade do capital) agudizou a crise de sobreprodução empurrando a burguesia para mecanismos de reprodução do capital acumulado não ligados aos sectores transformadores (bolsa, futuros, etc.) –, como se iniciou muito antes do dobrar do século XXI.

Com efeito, a escalada da crise e as suas consequências iniciou-se, pelo menos, em 1985. O número estimado de trabalhadores «economicamente inseguros» nesse ano era de 28 milhões. Em 2007, ascendia já a 46 milhões, informa igualmente a Fundação Rockefeller (FR).

O referido texto não inclui dados relativos a 2010, quando todos os indicadores apontam para a transformação do desemprego de longa duração num problema estrutural. Não obstante, o quadro estatístico observado permite à FR afirmar que 2010 será muito pior que 2009.


Os ricos mais ricos

Outro dado interessante deste estudo é o que resulta da evolução dos rendimentos por «estratos sociais». Diz a FR que entre 1979 e 2006 a restrita classe média dos EUA viu a sua renda crescer 21 por cento, ao passo que os 10 por cento mais ricos incrementaram os respectivos rendimentos em 112 por cento e os 1 por cento obscenamente abastados bateram todos os recordes, com um aumento de 256 por cento.

A actual fase da crise é, ainda, uma enorme oportunidade para continuar a acumular capital e consolidar a posição cimeira arrasando a concorrência. Um exemplo: só durante o primeiro semestre de 2010 mais de 100 pequenos e médios bancos fecharam as portas em consequência da crise. A esmagadora maioria destas instituições, ao contrário das congéneres monopolistas, não recebeu qualquer tipo de apoio estatal. Os seus negócios foram, na quase totalidade, absorvidos pelos grandes conglomerados financeiros.

Em 2009, 140 bancos pequenos e médios já haviam encerrado nos EUA. No mesmo sentido, o The New York Times informou recentemente que os lucros das multinancionais cresceram 40 por cento entre o final de 2008 e o primeiro semestre de 2010. Entre as empresas que relataram ganhos no segundo trimestre deste ano, os lucros subiram 42,3 por cento.

Para o próximo trimestre de 2010, as empresas esperam aumentos dos lucros em 19,3 por cento face a 2009, e para 2011 as corporações almejam atingir um recorde de crescimento das margens de lucro na ordem dos 8,9 por cento, difundiu também o diário nova-iorquino.

Como se constata, a quebra observada nas vendas não significa necessariamente uma perda de lucros. Factores como a delapidação de milhares de postos de trabalho e o aumento da exploração sobre os trabalhadores – quer pela retirada de regalias quer pela supressão de parte do salário quer ainda pelo aumento da jornada e a flexibilização dos horários – contabilizam milhões em bolsa.

Tal é o caso da Harley Davidson (cortou 1/5 da sua força de trabalho e planeia cortar mais 1500 empregos apresentando o triplo dos lucros de 2009), da General Electric, JPMorgan Chase ou Ford (que desde 2005 já cortou quase metade da sua força de trabalho nos EUA), diz o NYT.

O Wall Street Journal explica a aparente contradição. Os mercados financeiros estão a premiar todas as empresas que planeiam despedir mais ou, pelo menos, não voltar a contratar.

Flagelo nacional

Do outro lado da barricada ficam os milhões de desempregados norte-americanos. Na última semana de Julho, o total registado pelo Departamento do Trabalho caiu 2,4 por cento, mas esta quebra pode estar relacionada com a suspensão dos despedimentos em fábricas automóveis do Michigan e Nova Iorque. Nada que deixe grandes ânimos, já que no total pediram protecção social ao Estado outros 457 mil trabalhadores norte-americanos neste período.

A taxa de desemprego oficial mantém-se alta, a rondar os 10 por cento. Entre os jovens dos 16 aos 25 anos, a taxa ascende a 20 por cento. A 10 de Julho, 8,3 milhões de norte-americanos recebiam algum tipo de ajuda. Milhões pura e simplesmente desistiram da inscrição nos departamentos de emprego.

Milhões para a guerra

 Entretanto, o Congresso dos EUA aprovou, por 308 votos a favor e 114 contra, o projecto de lei, anteriormente sufragado pelo Senado, que destina outros 33 mil milhões de dólares para custear o envio de mais 30 mil soldados para a guerra do Afeganistão. Mais 4 mil milhões de dólares serão destinados a propósito de programas de «ajuda» naquele território, no Paquistão e Iraque.

A aprovação ocorreu quando a Wikileaks divulgou milhares de relatórios sobre a guerra do Afeganistão e o site Democracy Now denunciou que rádios e outros meios de comunicação afegãos recebiam dinheiro para divulgarem propaganda dos EUA. Os serviços de inteligência, as unidades de guerra psicológica e alguns oficiais das forças armadas norte-americanas referem-se a jornalistas afegãos como «os nossos jornalistas».

O Pentágono já se tinha envolvido numa operação semelhante no Iraque, tendo mesmo contratado para o efeito a Lincoln Group, responsável pelos pagamentos a jornalistas iraquianos dispostos a publicar informação favorável aos ocupantes

Plan de ajuste del Reino Unido provocará la pérdida de 1 millón 300 mil empleos

do site Agencia venezoelana de noticias

Caracas, 13 Jul. AVN.- Alrededor de 1 millón 300 mil empleos en cinco años podría perder el Reino Unido debido al plan de austeridad, según una evaluación gubernamental secreta de los recortes previstos al gasto público revelada por el diario The Guardian, destacó la agencia Notimex.

De acuerdo con las estimaciones, que no habían sido publicadas por el gobierno británico, se espera la pérdida de entre 500 mil y 600 mil puestos de trabajo en el sector público del país, y entre 600 mil y 700 mil en el privado para el año 2015.

Los datos reflejan el alto costo que tendrán los recortes al gasto público contemplados en el plan de austeridad del ministro británico de Hacienda, George Osborne, quien al presentar las medidas la semana pasada no dio indicios sobre su posible efecto.

Osborne debió haber tenido acceso a las previsiones preparadas de manera tradicional por ministros y funcionarios civiles en los días previos al reporte del presupuesto, indicó el periódico.

Los cálculos, a los que tuvo acceso The Guardian, precisan que se prevé la pérdida de entre 100 mil y 120 mil empleos en el sector público y entre 120 mil y 140 mil puestos en el privado cada año durante los cinco en que habrá recortes.

La pérdida de empleos en el sector público será resultado de la reducción de 25% ajustado a la inflación en el gasto del gobierno hasta 2015, mientras que el ámbito privado se verá afectado por la pérdida de contratos y la reacción en cadena de sus efectos.

OCDE alerta para geração perdida

do jornal avante

Os planos de austeridade devem «poupar» a luta contra o desemprego sob pena de que «uma geração inteira veja comprometidas as suas perspectivas de futuro». Tal é o alerta lançado, no dia 7, a todos os governos por Angel Gurria, secretário-geral da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico, a propósito do relatório anual «Perspectivas do Emprego», sobre a situação do mercado de trabalho nos 31 países membros.

«É preciso resistir à tentação de reduzir as prestações [subsídios de desemprego] ou de diminuir as verbas destinadas aos serviços de emprego para efectuar economias de curto prazo», afirma a organização em comunicado, onde qualifica a evolução do emprego como «muito negativa».

Embora assinale uma «estabilização» da taxa de desemprego nos últimos nove meses em torno dos 8,6 por cento, ou seja, 47 milhões de desempregados em Maio último, a OCDE não esconde que o número real de pessoas afectadas pelo flagelo deverá estar perto dos 80 milhões se se tiver em conta aqueles que já desistiram de procurar trabalho ou os que têm de se contentar com uma ocupação a tempo parcial.

Mas mais preocupante do que a evolução do desemprego ainda é «a diminuição do número de activos», considera Gurria, salientando que «entre os primeiros trimestres de 2008 e 2010, o número de empregos na zona da OCDE diminuiu em 2,1 por cento.

Em comparação com as crises anteriores, a organização afirma que se está a verificar uma modificação da estrutura do desemprego. Os jovens menos qualificados continuam a ser as principais vítimas, mas desta vez também os trabalhadores masculinos de qualificação média estão a ser muito penalizados.

Acresce que, contrariando um dos dogmas da própria OCDE, a duração do desemprego aumenta mesmo nos países onde a dita «flexibilidade» do mercado de trabalho deveria garantir uma rotação fluida entre emprego e desemprego.

Nos EUA, por exemplo, o número de pessoas desempregadas há mais de seis meses quase que duplicou entre 2007 e 2009, representando 31,5 por cento do total, o mesmo acontecendo com os desempregados «há mais de um ano», que constituem já 16,3 por cento.

Curiosamente, a OCDE faz um elogio à Alemanha e à Holanda por terem conseguido conter o descalabro do desemprego através de programas pagos pelo Estado, que permitem às empresas manter os seus trabalhadores a tempo parcial.

O relatório indica ainda que os planos de austeridade não deveriam incidir sobre a investigação e desenvolvimento, a educação, a formação profissional, sectores que serão geradores de empregos futuros. «Em vez de cortarem cegamente nas despesas, os planos de austeridade devem dirigir a despesa pública para políticas eficazes em matéria de criação de emprego», conclui a organização.

Lutas de classe intensificam-se na Grécia

do site da revista Forum

Por Dimitris Fasfalis [Terça-Feira, 15 de Junho de 2010 às 09:44hs]

Mobilizações contra a austeridade estão a difundir-se por toda a Europa. Na França houve greves e manifestações no dia 27 de maio e está previsto para 24 de junho um dia de ações. Em Portugal, 300 mil trabalhadores manifestaram-se nas ruas de Lisboa em 29 de Maio para exprimir a sua rejeição ao plano de austeridade do governo. Na Espanha, funcionários públicos foram às ruas em 2 de junho. Na Itália, foi realizada uma manifestação nacional em Roma dia 5 de junho, com greves e outras ações planeadas para 12 de junho. Na Grã-Bretanha, os sindicatos e organizações de esquerda estão convocando um dia de manifestações para 22 de Junho. No Romênia, funcionários públicos foram às ruas no dia 4 de junho.
 
 A resistência contínua na Grécia mostra aos trabalhadores ativistas e militantes da esquerda anti-capitalista que as suas lutas podem abrir novos caminhos de avanço e determinar o resultado da atual crise econômica. A mais recentes greve geral de 24 horas na Grécia, efetuada em 20 de maio, registrou um êxito do movimento dos trabalhadores na ultrapassagem da campanha de propaganda da mídia hegemônica e das calúnias provenientes do governo PASOK (Movimento Socialista Pan-Helénico). Mais de 50 mil pessoas tomaram as ruas de Atenas e realizaram-se manifestações nos principais centros urbanos do país. Os professores do ensino público tomaram parte maciçamente na manifestação de Atenas. A participação na greve foi muito alta no setor público, mas menor no privado. As principais federações sindicais também organizaram um dia de comícios a 5 de junho. Este combate está longe do fim. Continue lendo

geopolítica da desaparição do Euro

do site da carta maior

 Com a crise financeira européia, está se dando um passo a mais no avassalamento da Europa. Com o Tratado de Lisboa, a Europa entregou sua defesa à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): acabou-se o velho sonho de uma defesa européia independente. E agora, com uma política financeira controlada pelo FMI, a UE renunciou a um pilar essencial de sua independência. Sem a defesa e a moeda, não lhe resta nada para afirmar sua independência dentro do bloco ocidental e frente ao resto do mundo.

 Pierre Charasse – La Jornada

 Na massa de informações que circula sobre a crise do euro, não é fácil detectar os fenômenos de fundo que se estão produzindo. Por isso, é importante adotar alguma distância, situar essa crise no curso dos acontecimentos dos últimos 20 anos, depois da queda da União Soviética, e projetar uma perspectiva geopolítica de médio a longo prazo. A crise grega confirmou, como se fosse necessário, que a Europa como união política não existe mais.

Nas últimas semanas, a União Européia (UE) revelou ao resto do mundo sua extrema debilidade. O euro não resistiu às ofensivas de todo tipo que sofreu nos últimos meses, apesar de ser a moeda de uma das regiões mais ricas e industrializadas do mundo.

A primeira grande crise financeira mundial da era da globalização evidenciou que a moeda européia não podia aguentar as turbulências do mercado e os ataques especulativos, exatamente porque não tinha um respaldo político sólido e coerente. Os ideólogos ultraliberais que inventaram a moeda européia decidiram aplicar com rigor o princípio do laisser-faire, proibindo aos governos de intervirem nas políticas do Banco Central Europeu (BCE).

Os governos da zona do euro se auto-mutilaram, quando aceitaram o dogma da independência do BCE, renunciando a qualquer possibilidade de submeter as políticas financeiras a condições políticas. Depois de muitas discussões, apresentaram como um grande avanço a decisão de constituir um fundo de resgate de 440 bilhões de euros. E nenhum governo, vendo o desastre social que os planos de ajustes impostos pelo BCE e pelo FMI, quis opor políticas concorrentes à doxa ultraliberal.

O que o público europeu não vê em geral é que, com a intervenção do FMI, os Estados Unidos agora têm direito de intervir na economia européia. Todas as decisões do FMI requerem necessariamente a aprovação do governo estadunidense, se é que não vêm inspiradas diretamente por esse país. Na reforma dos direitos de voto no FMI, anunciada na última Cúpula do G20, os EUA conserva intacta a minoria de controle com 16% dos votos. Pediu-se a UE que reduzisse sua parte para que a cota de países emergentes aumentasse. O presidente Obama exerce plenamente o poder que lhe dá a nova arquitetura financeira internacional, chamada governança mundial, e exige da Grécia e de outros países europeus que baixem os salários de seus funcionários, que reformem o regime de aposentadorias e que diminuam o gasto público em geral. E os europeus obedecem.

Com a crise financeira européia, está se dando um passo a mais no avassalamento da Europa. Com o Tratado de Lisboa, a Europa entregou sua defesa à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): acabou-se o velho sonho de uma defesa européia independente. E agora, com uma política financeira controlada pelo FMI, a UE renunciou a um pilar essencial de sua independência. Sem a defesa e a moeda, não lhe resta nada para afirmar sua independência dentro do bloco ocidental e frente ao resto do mundo.

Neste contexto, parece lógico que o euro tenda a se aproximar da paridade com o dólar. Fala-se, nos círculos financeiros, de uma possível dolarização da zona do euro. Tecnicamente convém aos países industrializados da Europa, para recuperarem sua competitividade econômica, castigada na última década por um euro forte. Politicamente convém aos Estados Unidos eliminar uma moeda rival do dólar frente a China e a outros países emergentes. Os novos membros da União Européia vêem com muito bons olhos a dolarização da Europa, que seria para eles uma garantia suplementar com que contar, um guarda-chuva estadunidense, como para sua defesa frente a Rússia, seu inimigo de sempre.

O diretor do FMI, Dominique Strauss Khan refere-se com frequência à necessidade de uma moeda mundial, consequência lógica da globalização econômica e financeira. Em Zurique, em 12 de maio, ele fez um chamado a favor da criação de um banco central mundial, com uma moeda mundial. Na França, o Secretário de Estado para a Europa, Pierre Lellouche, militante atlantista incansável, anunciou triunfalmente que no plano monetário se chegou a um mecanismo de solidariedade automática idêntico ao que prevê o artigo 5 do Tratado da OTAN. Com isso, dá-se o último toque à construção de um espaço europeu subsidiário do território estadunidense para formar um bloco perfeitamente homogêneo sob a liderança de Washington. Desde a sua eleição, o presidente Barack Obama pede a seus aliados que cerrem filas para enfrentar as novas ameaças mundiais.

Outro efeito da crise, os planos de ajuste estrutural impostos como remédio, terão como consequência a curto prazo a tatcherização da Europa continental, ou seja, o fim do modelo social europeu. A Grã Bretanha, aliado incondicional dos Estados Unidos, não membro da zona do euro com a libra esterlina, será o grande vencedor dessa crise, com a imposição de seu modelo econômico e financeiro a toda a Europa, e com o fortalecimento da City como praça financeira impermeável a todos os intentos de regulação que se sugere para prevenir novas catástrofes financeiras mundiais.

Com a dolarização da Europa vai se fechar um capítulo da história moderna aberto com a derrubada do campo socialista. Para a corrente atlantista européia, atualmente majoritária, a desaparição da Europa como ator político e financeiro autônomo é o preço a pagar para que o Ocidente continue controlando o mundo frente aos países emergentes.

(*) Pierre Charasse, diplomata de carreira, ex-embaixador, trabalhou no Ministério de Relações Exteriores da França, entre 1972-2009. Ocupou vários cargos nas Embaixadas da República Francesa em Moscou, na Guatemala, em Havana e no México. Foi conselheiro técnico no gabinete de Claude Cheysson, Ministro de Assuntos Exteriores, e de Pierre Joxe, Ministro do Interior entre 1984 e 1986. Foi Cônsul Geral em Nápoles e em Barcelona, embaixador no Uruguai, no Paquistão e no Peru, e embaixador itinerante encarregado da cooperação internacional contra o crime organizado e a corrupção, entre 2000 e 2003, assim como chefe da delegação francesa na Conferência das Nações Unidas sobre o comércio ilícito de armas leves e de pequeno calibre (Nova York, 200-2001), Secretário Geral da Conferência Ministerial “As Rotas da droga da Ásia Central a Europa” (abril de 2003) e Ministro Plenipotenciario desde 1998. Aposentou-se em agosto agosto de 2009.

Tradução: Katarina Peixoto

Mais de 300 mil contra a política de direita, em PORTUGAL

do site do PCP

Mais de 300 mil pessoas ocuparam o centro de Lisboa contra a política de desastre nacional do PS e PSD. Com as avenidas Fontes Pereira de Melo, António Augusto Aguiar cheias, assim como a praça Marquês de Pombal, Avenida da Liberdade até aos Restauradores, uma massa imensa de indignação, protesto e luta, respondeu ao apelo da CGTP-IN.

Foi a maior manifestação das últimas décadas, uma clara demonstração da força, unidade e determinação da classe operária e de todos os trabalhadores, que contou com a solidariedade e empenho do PCP.

Esta impressionante jornada de luta, reforçou a convicção de que é possível
derrotar a política de desastre nacional, de abdicação dos interesses do
país, de agravamento da exploração que o PS, o PSD e CDS querem impor aos
trabalhadores e ao Povo.

Perante a escalada de medidas contra os trabalhadores, o Povo e o país
decididas nos últimos meses, esta foi a resposta do Povo português, às
pretensões dos grupos económicos e financeiros, do PS, do PSD e do CDS, uma
clara exigência de ruptura com a política de direita, de mudança na vida
nacional.

Uma jornada que ficará inscrita na história da luta do Povo português, uma
afirmação patriótica e de classe, um sinal de confiança e esperança que se
projectará no futuro. A luta continua!

 

Las causas de fondo de las recurrentes crisis financieras globales

do site sin permiso

Henry C. K. Liu · · · · ·

23/05/10

Graves crisis financieras globales se han venido sucediendo década tras década: el desplome de 1987, la crisis financiera asiática de 1997 y la crisis crediticia de 2007. Esa recurrente pauta ha sido generada por la total desregulación financiera a escala planetaria. Pero las causas de fondo han sido la hegemonía del dólar t el Consenso de Washington.
El caso de Grecia
Siguiendo un malhadado asesoramiento neoliberal y fundamentalista de mercado, Grecia abandonó su moneda nacional, la dracma, a favor del euro en 2002. Este paso, críticamente cargada de consecuencias, permitió al gobierno griego beneficiarse de la fortaleza del euro –no derivada, huelga decirlo, de la fortaleza de la economía griega, sino de la fortaleza de las economías más fuertes de la eurozona— para contratar préstamos a tasas de interés más bajas, respaldadas con el colateral de activos griegos denominados en euros. Con nuevo crédito disponible, Grecia se emborrachó con el gasto financiado por la deuda, con proyectos de elevado perfil, como las Olimpíadas de Atenas 2004, que dejaron a la nación griega con una enorme deuda soberana no denominada en su moneda nacional. Estos empréstitos públicos en tiempos de auge significaban una manifiesta distorsión de las políticas económicas keynesianas de financiación del déficit, consistentes en enfrentarse a las recesiones cíclicas respaldándose en los excedentes acumulados en los ciclos de auge. Lo que hizo Grecia, al revés, fue acumular masivamente deuda mientras se hinchaba su burbuja económica inducida por la deuda.
La trampa del euro
Al adoptar el euro, una moneda gestionada por la política monetaria del super-nacional Banco Central Europeo (BCE), Grecia abdicó voluntariamente de su soberanía en materia de política monetaria nacional, y eso en la confianza, falsamente confortable, de que una política monetaria super-nacional diseñada para las economías más robustas de la eurozona funcionaría también para una Grecia endeudada hasta las cejas. Como Estado miembro de la eurozona, Grecia puede ingresar y tomar prestados euros sin verse afectada por tasas de cambio, pero no puede emitir euros aun a costa de inflación. La incapacidad de emitir euros expone a Grecia al riesgo de quiebra de la deuda soberana en caso de déficit fiscal prolongado, y la deja sin las opciones abiertas a una solución monetaria nacional independiente, como la devaluación de la moneda nacional.
A despecho de la verborrea sobre el euro como incipiente alternativa al dólar como moneda de reserva, el euro no es en realidad sino otra moneda derivada del dólar. A pesar de el PIB de la Unión Europea es mayor que el de los EEUU, el dólar sigue dominando los mercados financieros en todo el mundo como moneda de referencia a causa de la hegemonía política del dólar, que exige la denominación en dólares de todas las mercancías básicas. El petróleo puede comprarse con euros, pero aprecios sujetos al valor de cambio del euro en relación con el dólar. Ocurre, simplemente, que la Unión Europea, no posee el poder geopolítico que los EEUU vienen teniendo desde el final de la II Guerra Mundial.

La hegemonía del dólar y el Consenso de Washington

El crecimiento económico bajo la hegemonía política del dólar exige que las naciones que participan en los mercados sigan las reglas del Consenso de Washington, un término acuñado en 1990 por un economista del Institute of International Economics, John Williamson, para resumir la sincronizada ideología de los economistas del establishment radicados en Washington, una ideología que reverberó a escala planetaria durante un cuarto de siglo como evangelio de las reformas económicas indispensables para el crecimiento en una economía de mercado globalizada. Esa ideología ha metido a buena parte del globo en crisis financieras recurrentes. Continue lendo

”A liberalização está entrincheirada. Ela não morreu e, como Fênix, ela ressurge das cinzas”

do blog outra política

Entrevista com Reinaldo Gonçalves, IHU, 24 de maio de 2010

“As conseqüências são previsíveis. Espera-se o maior esgarçamento do tecido social (via, por exemplo, contração do grau de universalização dos direitos sociais e econômicos), piora nas condições de trabalho, maior exploração do trabalhador, concentração da riqueza e da renda e crescente tensão nas relações, processos e estruturas políticas”, afirma Reinaldo Gonçalves, em entrevista concedida à IHU On-Line, por email.

Segundo ele, ” a Grécia é um “vagão de 3ª classe” no cenário internacional. Se este país não estivesse na zona do euro, a crise grega não teria um milésimo da repercussão que tem tido. Insisto que não há uma crise na zona do euro”. “O que ocorre na Grécia atualmente – continua – é um fenômeno bastante conhecido no Brasil e no restante da América Latina. Ou seja, houve aumento extraordinário do passivo externo que levou a percepção de risco a níveis críticos. Nenhuma novidade para nós, inclusive no passado recente!”

E Reinaldo Gonçalves alerta: “Parte da crise da Grécia é explicada pelos gastos extraordinários provocados pelas Olimpíadas em Atenas em 2004. Em sociedades com frágil institucionalidade, mega-projetos são o fértil campo de cultivo de práticas de corrupção e da incompetência”. Tendo em vista a realização da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, “há alta probabilidade que o Brasil cometa os mesmos erros dos gregos (endividamento interno e, principalmente, externo) que quebrarão as finanças públicas e o sistema financeiro brasileiro no pós 2014-16! Fica o alerta porque a conseqüência é o país entrar em mais uma longa trajetória de instabilidade e crise”, afirma. O economista conclui a entrevista com uma descrição do que é ser esquerda no momento atual.

Reinaldo Gonçalves é professor titular de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entrre outros, ele é autor (em co-autoria com Luiz Filgueiras) do livro “A Economia Política do Governo Lula”. Rio de Janeiro: Editora Contraponto, 2007. Continue lendo

Mitologia europeia

do jornal avante, retirado do blog o castendo

Nos últimos dois anos, muitos mitos caíram por terra. Ficou claro que, tal como em 1929, o capitalismo a funcionar de acordo com as suas leis gerou uma gigantesca crise mundial. E que vale tudo para salvar o grande capital financeiro o responsável-mor pelas enormes proporções da crise. Enquanto os trabalhadores ficaram com o desemprego, os estados nacionais (confirmando ao serviço de quem estão) ficaram com prejuízos, da vidas, �papel t�xico� e riscos. Sem exigir nada em troca, sem alterar as �regras do jogo�, sem limitar o poder e os lucros do grande capital. Agora afirmam que a situa��o financeira dos estados � insustent�vel. Mas isso � o resultado directo do resgate do grande capital financeiro. � assim n�o s� na Gr�cia ou Portugal, mas em numerosos pa�ses � a come�ar pelos EUA e Inglaterra.Hoje muitos mais mitos se desfazem. � �bvio que n�o �estamos a sair da crise�. Quem acreditava que a �Europa connosco� e o Euro eram um �porto seguro� em nome do qual se devia sacrificar a soberania nacional, tem a� a realidade dos mercados-especuladores. Para os que acreditavam no �modelo social europeu� ou na �solidariedade dos nossos parceiros europeus�, a� est� a Comiss�o Europeia a impor a descida de sal�rios, o corte nas pens�es, o despedimento de milhares de funcion�rios p�blicos, o abate dos servi�os sociais. N�o para �ajudar� pa�ses com dificuldades em pagar as d�vidas, mas para ajudar os bancos credores, que s�o sobretudo franceses e alem�es. Para os que afirmam que a UE e o Euro s�o �inevit�veis� e �irrevers�veis�, a� est� a not�cia do El Pa�s (14.5.10): segundo Zapatero, Sarkozy amea�ou (com um murro na mesa) que a Fran�a abandonaria o Euro, caso a Alemanha n�o desse luz verde ao mais recente pacote de medidas. Ou as declara��es de Angela Merkel de que alguns pa�ses podem ser exclu�dos do Euro. O que deita por terra outro mito, o da �soberania partilhada�. A �soberania� na UE � das grandes pot�ncias. Foi o que se viu quando chegou a vez da Alemanha e da Fran�a serem multadas por exceder o limite de 3% no d�fice or�amental: decidiram suspender as regras. � caso para dizer que alguns PIIGS s�o mais iguais do que outros…

hoje evidente que a luta de classes, longe de ser uma coisa do passado, � a palavra de ordem da Comiss�o Europeia e dos seus capatazes em cada pa�s. Est�o a aproveitar a crise para acelerar as medidas de classe que j� haviam decidido tomar e para dar novos saltos qualitativos numa cada vez mais tir�nica �integra��o europeia� ao servi�o do grande capital das grandes pot�ncias. O capitalismo senil dos nossos dias, longe de ser um sistema �eficiente�, �din�mico�, que �cria riqueza� e a �distribui de cima para baixo� � um gigantesco aspirador que suga toda a riqueza do planeta e, tal como uma praga de gafanhotos, destr�i tudo no seu caminho: ind�strias, regi�es, pa�ses, continentes. Nenhum povo est� ao abrigo dessa praga � nem nos pa�ses da periferia, nem nos pa�ses do centro do sistema.
Que ninguém se deixe embalar pelo mito de que �todos temos de fazer sacrifícios para sair da crise�. Não vai haver sacrifécios do grande capital. Nem vai haver saída da crise. As medidas agora tomadas não vão saciar os apetites do monstro. Já é óbvio que o pacote de 750 mil milhões de euros da UE e FMI, aprovado para �tranquilizar os mercados� (que na v�spera eram �especuladores�) nada vai resolver (Martin Wolf, Financial Times, 12.5.10). Se o problema � o excesso de d�vida, um ainda maior endividamento, acompanhado da contrac��o da actividade econ�mica, s� vai aumentar o problema.

Quem vendeu a UE aos portugueses, vendeu a ilus�o de virmos a ser uma pequena Alemanha. A realidade � que nos vamos tornar numa pequena Argentina. Em lugar da produ��o nacional, ficamos com as d�vidas. Em lugar da soberania, vamos ter os fiscais da UE a tomar o lugar da Assembleia da Rep�blica. � tempo de recusar os mitos e enfrentar a realidade. Os povos s� t�m um caminho: resistir, lutar, insurgir-se.

Um olhar argentino sobre a actual situação na Europa

do blog cheira-me a revolução

As experiências alheias, bem como as opiniões de amigos, devem constituir sempre uma fonte de ensinamentos muito úteis e que nunca devemos subestimar. A História, sabemos todos, nunca se repete, mas lá que há “histórias” que se assemelham muito, lá isso há… 

No texto que escolhemos aqui publicar hoje, o prestigiado sociólogo argentino Atílio Boron traça um interessante paralelo entre a actual situação em vários países integrantes da UE e a situação vivida na Argentina nos anos de viragem do século, situação e políticas que conduziram este país à bancarrota e que originaram um significativo processo de mudança, encabeçado pelo casal Kirchner. Tanto pelo mau exemplo latino-americano que menciona, como pela análise que contém sobre o “remédio” que o capital agora intenta aplicar sobre os povos europeus do sul do continente, aqui fica o mencionado texto. Com uma nota adicional: o autor compara o conflito social em desenvolvimento actualmente na Europa ao período das grandes contestações ao capitalismo que se viveram nos finais dos anos sessenta e que ficaram assinaladas para a História pelo “Maio de 68″, em França. Guardadas as devidas distâncias, os acontecimentos últimos do desenvolvimento das lutas de classe na Grécia e nos restantes países alvo da ofensiva neoliberal parecem apontar, de facto, para o início de uma exaltante e promissora época de um renovado combate dos assalariados europeus contra o grande capital explorador. Façamos tudo o que nos é possível para confirmar, pela luta de massas, estas boas perspectivas.
  
 
A Europa no espelho argentino

Após causar estragos na sua terra natal, os Estados Unidos, o vírus “neoliberal”, para usar a expressão correta de Samir Amin, já infectou a Europa. Confrontado com sintomas inocultáveis da crise, os mercados reagiram com uma mistura explosiva de cobiça e irracionalidade e mostram o seu cepticismo sobre as receitas para sair da crise produzida pelo G-20, o FMI e o BM. Para piorar as coisas, este fim de semana, Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu, disse que “o resgate de um bilhão de dólares aprovado pela União Europeia e do FMI é só para ganhar um pouco de tempo.” Esta opinião foi apoiada pelo economista chefe do BCE Juergen Stark, que também disse que “quando os mercados ficam loucos, ninguém pode prever as consequências”.
A natureza estrutural e de longa duração da crise é evidente, e suas dimensões são impressionantes: na Grécia, o défice fiscal em relação ao PIB é próximo dos 14%, na Irlanda, quase 15%, em Espanha, está praticamente nos 12% , em Portugal ultrapassa já os 9% e no Reino Unido, do qual poucos falam, o défice orçamental é apenas um centésimo menor do que a Grécia queimados: 13%. Estes números desviam-se brutalmente daqueles estipulados pelo defunto Tratado de Maastricht, pelo qual os países europeus se comprometeram a manter o seu défice orçamental abaixo dos 3% do PIB. Tudo isso acontece porque, com a eclosão da crise, no Verão de 2008, os governantes ordenaram ao Banco Central Europeu e aos seus próprios bancos para resgatarem as grandes empresas afectadas pela crise, como haviam feito Bush e Obama nos EUA, demonstrando, a título de exemplo, que a doutrina da “autonomia do Banco Central” é uma ilusão para consumo somente dos governos subservientes da periferia.
O problema com esta ajuda é que, mais cedo ou mais tarde, os fenomenais pagamentos feitos pelos governos tornam-se uma dívida de enormes proporções, causando um crescimento incontrolável do deficit fiscal. Desde há algumas semanas, o problema não suscitou maior atenção – o FMI absteve-se até mesmo de enviar um aviso para o mundo desenvolvido (quando por défices muito menores enviam as suas missões mortais para qualquer país do Terceiro Mundo) – excepto entre os poucos que estavam realmente conscientes da situação e não acreditam em metáforas inteligentes usados pelos gurus do capitalismo, que desde há um ano vinham falando sobre “sinais no verde”, que anunciavam o fim da crise. 

 Charlatães irresponsáveis (como os da Argentina que, em Março de 2002, previam que até ao final daquele ano o dólar se cotizaria entre 12 e 14 pesos por unidade), agora sentem que o mundo está caindo, o euro cai, a Zona Euro está prestes a desintegrar-se, e como os governos capitalistas só concebem a saída da crise fazendo-a pagar pelos trabalhadores, o clima social está carregando-se de um conflito nunca visto desde os acontecimentos de 1968, embora alguns o remontem mesmo ao final da I Guerra Mundial.
As propostas para gregos e espanhóis são uma cópia das impostas pelo FMI na América Latina que serviram apenas para acelerar o colapso e o caso argentino é o reflexo mais fiel do que provavelmente espera muitos dos países da União Europeia que ainda se agarram ao catecismo neoliberal. O “Wall Street Journal” de 12 de Maio afirmava que “na zona do euro e em menos de um mês, o FMI deixou de ser um pária para se tornar uma instituição essencial cuja bênção é necessário para países que precisam de pacotes de resgate.” Este autêntico Dr. Mengele das economias – que continua a ser o mesmo de antes, apesar de afirmações públicas em contrário -, foi aquele que as autoridades da União Europeia escolheram para administrar os remédios para resolver a crise. Por isso, não surpreende ver uma Europa em pé de guerra social, em resposta a um programa de ajuste brutal como o que sofreu a América Latina.
Como na Grécia, o ajuste recessivo de Rodriguez Zapatero em Espanha tem como um dos seus pilares a redução salarial de 5 por cento para a maioria dos trabalhadores e do congelamento para aqueles com menor salário, os chamados “mileuristas” (*), por ser essa, aproximadamente, a quantia que eles ganham por mês. Para mostrar que há austeridade para todos e que vai ser progressiva, o governo espanhol decidiu que de secretário de Estado para cima a redução seria de 15 por cento. A única desvantagem é que enquanto o primeiro-ministro espanhol ganha 91.982,40 por ano (cerca de 8.000 euros por mês, além de diversas despesas que estão a cargo do Tesouro), o corte de 15 por cento dificilmente irá produzir qualquer diminuição na sua capacidade de poupança e consumo. Mas, para os sectores mais baixos da administração pública, cuja remuneração com prémios, subsídios e bónus, é cerca de 2000 euros por mês, os 100 euros que lhes vão ser cortados irão afectar negativamente a sua qualidade de vida.

David Cameron, o novo primeiro-ministro britânico, foi mais fleumático e ordenou uma redução de 5 por cento de seus salários, apesar do seu salário anual ser de 207.500 libras esterlinas (somando o que lhe cabe como 1°. ministro e como membro do Parlamento) mais do que dobra o do seu homólogo espanhol. Estes dois exemplos são suficientes para caracterizar a filosofia por trás desses programas de ajustamento. Acrescente-se que em nenhum país da UE esta redução de gastos afecta as volumosas despesas do orçamento militar, parte do qual é destinado a financiar guerras imorais e infames como as que estão sendo travadas no Iraque e no Afeganistão. O que se reduzirá será a soma destinada à cooperação internacional. Só no caso espanhol, isto significa uma baixa de 600 milhões de euros, uns 8 por cento do orçamentado anteriormente.
Neste contexto, não deixa de ser surpreendente a conversa telefónica, realizada em 11 de Maio, entre Obama e Zapatero Rodriguez, especialmente quando o primeiro aconselhou a tomar medidas resolutas “para acalmar os mercados.” Esta frase é muito semelhante àquela que no seu tempo pronunciou o ex-presidente Fernando de la Rua, na véspera do colapso da convertibilidade, quando também ele – como Obama agora – afirmava que era necessária e viável “para trazer calma aos mercados.” Na realidade, os mercados são uma instituição em que a tensão, o tumulto e irracionalidade são a norma; além disso, sem se importarem com aquilo que se faça, são gananciosos e querem sempre mais, como eles fizeram saber a De la Rua e a Cavallo, em Dezembro de 2001. 

Nas últimas páginas do primeiro volume de “O Capital”, Marx descreveu com traços vivos a natureza dos capitalistas e dos mercados, dizendo que “o capital sente horror pela ausência de juros …Se os juros são adequados, o capital se torna corajoso (…) aos 20 por cento, será impulsivo, aos 50 por cento se torna temerário; por 100 por cento, espezinhará todas as leis humanas; e por 300 por cento não há crime que o detenha, mesmo que você corra o risco de ser enforcado. “ 
A experiência dos últimos dois anos dá-lhe razão, e a crise está apenas começando a manifestar-se.
Atílio Boron (“El Mundo”, 17/05/2010) 
(*) Nota: vale a pena lembrar que em Portugal, tal categoria de trabalhadores são os “Geração dos 500″, isto é, ganham metade daquilo que ganham os espanhóis. “Geração”, aliás, tornou-se um termo impróprio, pela generalização desse salário mísero a todas as gerações…
Julio Filipe