Governo garante sigilo a quem informar sobre vítimas da ditadura

do portal vermelho

“Memórias Reveladas” é o nome da campanha do governo federal por doações de documentos e registros de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985, período da ditadura no Brasil. O objetivo é revelar o paradeiro de mais de 140 desaparecidos nos anos de chumbo. Serão recebidos originais ou cópias (textos, fotos, filmes e registros sonoros etc.) que retratem as atividades políticas do período e sua repercussão na sociedade. O Arquivo Nacional garante sigilo de identidade a todos os colaboradores

Identificada a ossada de Bergson, a 1ª baixa do PCdoB no Araguaia

do portal vermelho

A Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos anunciaram nesta terça (7) o resultado positivo do exame de DNA nos restos mortais do guerrilheiro Bergson Gurjão Farias, a primeira baixa entre os quadros do PCdoB que combateram à ditadura militar na Guerrilha do Araguaia, entre 1972 a 1974. A ossada do líder estudantil cearense foi exumada do cemitério de Xambioá e estava entre as dez que estão guardadas em Brasília no Ministério da Justiça.

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Bergson quando estudava em Fortaleza
Com a identificação de Bergson Gurjão, agora são dois os desaparecidos políticos do Araguaia já identificados. A primeira foi Maria Lúcia Petit da Silva que teve suas ossadas reconhecidas em 1996 e sepultada por seus familiares em Bauru (SP). Militante do PCdoB, ela foi para a região em 1970. Estava desaparecida desde 1972. Após as identificações, restam ainda 63 desaparecidos políticos do Araguaia, segundo contabilidade do governo.

Outra ossada denominada de 11ª encontra-se em São Paulo e há fortes indícios de que seja de Francisco Manoel Chaves, outro quadro do PCdoB que aos 60 anos chegou a região. Falta material genético da família para a identificação. As ossadas têm a estrutura de um afro-descedente como era Chaves, imortalizado no livro ”Memórias dos Cárcere”. Na obra, o escritor Gracialiano Ramos narra o empenho do militante em denunciar as condições desumana do presídio de Ilha Grande para onde foi levado após engrossar as fileiras da Aliança Nacional Libertadora em 1935.
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Os camponeses, o Partido e a Guerrilha do Araguaia

do portal vermelho

por Augusto Buonicore*
À Edite, Pedro Carretel, Alfredo, Luís Vieira, Juarez, Jair, Levy, Batista, Luíz Viola, Joaquim e Lourival – camponeses guerrilheiros mortos no Araguaia. Mártires do povo brasileiro.


O povo do Araguaia reunido dia 18 de junho deste ano

Nestas últimas semanas dois acontecimentos ajudaram a jogar mais luzes sobre o movimento guerrilheiro ocorrido na região do Araguaia entre 1972 e 1974. Um deles foi o julgamento do processo de anistia para os camponeses vitimados pela repressão policial-militar no período. O outro foi a abertura dos arquivos do famigerado major Curió, matéria publicada em “O Estado de São Paulo”.

Pelo menos duas novas informações vieram à tona sob fatos que já tínhamos fortes indícios que teriam ocorrido. A primeira delas diz respeito às execuções dos combatentes aprisionados. Agora temos um número mais exato delas. Foram revelados os nomes de mais 16 guerrilheiros friamente executados depois de terem sido presos e interrogados. Isso elevou o número para 41 pessoas assassinadas daquela maneira. O que não significa que outros tantos guerrilheiros não tenham sido imediatamente executados depois de presos em combate.

Através do Dossiê Curió tivemos maiores detalhes das atrocidades cometidas pelas Forças Armadas, como a cabeça decepada do líder estudantil Antônio Guilherme Ribas. No Araguaia ocorreu uma política de extermínio que lembrou muito o massacre ocorrido na guerra de Canudos. O fato de as informações terem sido dadas por um oficial do exército, diretamente envolvido na repressão, dá a eles um valor especial. Afinal, Curió é agora um réu confesso. Que a justiça brasileira faça a sua parte. Continue lendo

Araguaia: Secretariado do PCdoB defende direito à verdade

do portal vermelho

 Após julgamento histórico da Comissão de Anistia – que concedeu a anistia a 44 camponeses perseguidos por militares durante a ditadura – o Secretariado do PCdoB, reunido nesta quinta-feira (25), emitiu nota em que reafirma a defesa do Partido à busca imediata da verdade sobre a Guerrilha do Araguaia, especialmente o paradeiro dos corpos das vítimas. O PCdoB reivindica, diz a nota, “que a comissão constituída pelo Ministério da Defesa para esta finalidade deva ser reordenada e ampliada para que  alcance resultado positivo”. Acompanhe.

 

  Araguaia: direito à verdade

  Transcorridos 24 anos do fim da ditadura militar e às vésperas dos 30 anos da conquista da anistia, ainda restam importantes dívidas democráticas e humanitárias decorrentes das arbitrariedades e atrocidades praticadas pelo regime ditatorial. Entre elas, apresenta-se como impostergável o direito da Nação à verdade sobre sua história e sobre a  memória e as lições de seus conflitos. A resistência armada do Araguaia é um dos fatos históricos deste período que exigem do governo democrático que dirige o Brasil, e das demais instituições da República, o resgate inadiável da verdade. Entre as tarefas deste resgate destacam-se o imediato cumprimento da decisão do Poder Judiciário de que o Estado abra os arquivos do Araguaia e de que se garanta, sem protelação, o direito humanitário dos familiares dos mortos e desaparecidos deste confronto de enterrar os restos mortais de seus entes queridos.

 Cada página nova que surge na história inconclusa do Araguaia revela para setores mais amplos do povo, sobretudo para as jovens gerações, a sua motivação e o seu legado. Foi uma resistência heróica contra a tirania e a violência  da ditadura. Foi uma jornada pela democracia que, hoje, rege a vida do país. Foi um movimento que abraçou a defesa dos direitos do povo daquela região da Amazônia brasileira, vítima dos grileiros, da pobreza e do abandono.

 A ditadura ao se deparar com  um movimento que ousava enfrentar sua tirania e seus métodos de terror, ao perceber o apoio do povo da floresta aos guerrilheiros, desencadeou uma volumosa e agressiva operação de cerco e aniquilamento. Nesta operação, os agentes da repressão violaram os direitos humanos e desrespeitaram até mesmo os tratados que regem as condutas na guerra. Executaram prisioneiros indefesos, decapitaram e ocultaram cadáveres e fizeram da região um imenso campo de barbárie.

 Fato relevante que contribuiu para trazer à luz uma das faces da verdade acerca do Araguaia aconteceu no último dia 18, em São Domingos, sul do Pará, na região onde ocorreu a resistência. A Comissão de Anistia vinculada ao Ministério de Justiça, concedeu a anistia política a 44 camponeses, benefício que deve ser estendido, em breve, a outras dezenas deles. Todos receberão a reparação prevista em lei.

 Foi um acontecimento histórico e simbólico, fruto da luta democrática de décadas e somente possível nos marcos de um governo comprometido com a causa democrática. Este ato oficial do Ministério da Justiça reconhece que o Estado brasileiro, através do seu aparato de repressão, das Forças Armadas, prendeu ilegalmente,  torturou e cometeu inúmeras atrocidades contra a população local. O ministro Tarso Genro, com a autoridade de titular do Ministério da Justiça, pediu desculpas aos camponeses em nome da Nação pelos crimes cometidos pelo Estado. Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia, afirmou que os guerrilheiros e camponeses do Araguaia devem ser vistos como protagonistas da construção da democracia no Brasil.

 

A este destacado acontecimento de São Domingos patrocinado pelo Ministério da Justiça somam-se reiteradas tomadas de posição de instituições e personalidades dos Poderes da República e de vários segmentos da Nação. Há um amadurecimento democrático no país que, na atualidade, indica que é intolerável protelar a abertura dos arquivos do Araguaia. Do mesmo modo, se formou uma ampla convergência que exige imperativamente a descoberta do paradeiro dos corpos dos guerrilheiros do Araguaia e demais vítimas da ditadura. Neste caso específico, o PCdoB reivindica, em consonância  com  representativos setores políticos, jurídicos e sociais, que a comissão constituída pelo Ministério da Defesa para esta finalidade deva ser reordenada e ampliada para que  alcance resultado positivo.

 Os setores do governo e instituições da República – das quais dependem a solução destas pendências – são chamados a cumprir suas responsabilidades com eficácia e espírito republicano, para o bem da coesão da Nação e do fortalecimento da democracia.   

                                                      
São Paulo, 25 de junho de 2009
Secretariado Nacional do Partido Comunista do Brasil-PCdoB
                 

Curió abre o bico e diz que Exército assassinou 41

do site vermelho

Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o major Curió, o oficial vivo mais conhecido do regime militar (1964-1985), abriu ao jornal paulistano O Estado de S.Paulo o seu lendário arquivo sobre a Guerrilha do Araguaia (1972-1975).

Os documentos, guardados numa mala de couro vermelho há 34 anos, detalham e confirmam a execução de adversários da ditadura nas bases das Forças Armadas na Amazônia. Dos 67 integrantes do movimento de resistência mortos durante o conflito com militares, 41 foram presos, amarrados e executados, quando não ofereciam risco às tropas.

Até a abertura do arquivo de Curió, eram conhecidos 25 casos de execução. Agora há 16 novos casos, reunidos a partir do confronto do arquivo do major com os livros e reportagens publicados. A morte de prisioneiros representou 61% do total de baixas na coluna guerrilheira.

Uma série de documentos, muitos manuscritos do próprio punho de Curió, feitos durante e depois da guerrilha, contraria a versão militar de que os mortos estavam de armas na mão na hora em que tombaram. Muitos se entregaram nas casas de moradores da região ou foram rendidos em situações em que não ocorreram disparos.

Os papéis esclarecem passo a passo a terceira e decisiva campanha militar contra os comunistas do PCdoB — a Operação Marajoara, vencida pelas Forças Armadas, de outubro de 1973 a janeiro de 1975. O arquivo deixa claro que as bases de Bacaba, Marabá e Xambioá, no sul do Pará e norte do Estado do Tocantins, foram o centro da repressão militar.

Descrições

O guerrilheiro paulista Antônio Guilherme Ribas, o Zé Ferreira, teve um final trágico, descrito assim no arquivo de Curió: “Morto em 12 de dezembro de 1973. Sua cabeça foi levada para Xambioá”. O piauiense Antonio de Pádua Costa morreu diante de um pelotão de fuzilamento em 5 de março de 1974, às margens da antiga PA-70. O gaúcho Silon da Cunha Brum, o Cumprido, entrou nessa lista. “Capturado” em janeiro de 1974, morreu em seguida. Daniel Ribeiro Calado, o Doca, é outro da lista: “Em julho de 1974 furtou uma canoa próximo ao Caianos e atravessou o Rio Araguaia, sendo capturado no Estado de Goiás”.

Só adolescentes que integravam a guerrilha foram poupados, como Jonas, codinome de Josias, de 17 anos, que ficou detido na base da Bacaba, no quilômetro 68 da Transamazônica. Documento datilografado do Comando Militar da Amazônia, de 3 de outubro de 1975, assinado pelo capitão Sérgio Renk, destaca que Jonas ficou três meses na mata com a guerrilha, “sendo posteriormente preso pelo mateiro Constâncio e ‘poupado’ pela FORÇA FEDERAL devido à pouca idade”.

Curió permitiu o acesso do Estado ao arquivo sem exigir uma avaliação prévia da síntese, das conclusões e análises dos documentos. Ele disse que essa foi uma promessa que fez para si próprio. Passadas mais de três décadas, a história da terceira campanha ainda assusta as Forças Armadas: foi o momento em que os militares retomaram as estratégias de uma guerra de guerrilha, abandonadas havia mais de cem anos.

“Até o meio da terceira campanha houve combates. Mas, a partir do meio da terceira campanha para frente, houve uma perseguição atrás de rastros. Seguíamos esse rastro duas, três semanas”, relata. “A terceira campanha é que teve o efeito que o regime desejava.”

Um dos algozes do movimento armado na Amazônia, ele mantém um costume da época: não se refere aos guerrilheiros como terroristas, como outros militares. “Em hipótese alguma procuro denegrir a imagem dos integrantes da coluna guerrilheira, daquela juventude”, diz. “O inimigo, por ser inimigo, tem de ser respeitado.”

Ele ressalta que, como um jovem capitão na selva, tinha ideal: “Queria ser militar porque queria defender a pátria, achava bonito. Alguns guerrilheiros tinham os mesmos ideais que nós. Mas nossos caminhos eram diferentes. Eu achava que o meu caminho era o correto. Eles achavam que o deles era o correto. Não eram bandidos, eram jovens idealistas”.

No livro A Ditadura Escancarada, o jornalista Elio Gaspari diz que “a reconstrução do que sucedeu na floresta a partir do Natal de 1973 é um exercício de exposição de versões prejudicadas pelo tempo, pelas lendas e até mesmo pela conveniência das narrativas”. E emenda: “Delas, a mais embusteira é a dos comandantes que se recusam a admitir a existência da guerrilha e a política de extermínio que contra ela foi praticada”.

Motim

Essa política de extermínio fica um pouco mais clara com a abertura do arquivo de Curió. Pela primeira vez, a versão militar da terceira e decisiva campanha é apresentada sem retoques por um participante direto das ações no Araguaia.

Curió esteve envolvido no motim contra o presidente Geisel (1977), no comando do garimpo de Serra Pelada (1980-1983), na repressão ao incipiente Movimento dos Sem-Terra no Rio Grande do Sul (1981) e à frente de uma denúncia decisiva no processo de impeachment de Fernando Collor (1992).

O arquivo dá indicações sobre a política de extermínio comandada durante os governos de Emílio Garrastazu Medici e Ernesto Geisel por um triunvirato de peso. Na ponta das ordens estiveram os generais Orlando Geisel (ministro do Exército de Medici), Milton Tavares (chefe do Centro de Inteligência do Exército) e Antonio Bandeira (chefe das operações no Araguaia). Curió lembra que a ordem dos escalões superiores era tirar de combate todos os guerrilheiros. “A ordem de cima era que só sairíamos quando pegássemos o último.”

“Se tivesse de combater novamente a guerrilha, eu combateria, porque estava erguendo um fuzil no cumprimento do dever, cumprindo uma missão das Forças Armadas, para assegurar a soberania e a integridade da pátria.”

O Estado de S.Paulo

Por Márcia Silva Postado em Araguaia

Cartaz que ironiza busca de desaparecidos no Araguaia

do Brasil de Fato

A charge satiriza a busca dos mortos e desaparecidos durante a Guerrilha com a imagem de um cachorro pensando em um pedaço de osso

Ana Maria Amorim,da Radioagência NP

Um cartaz na porta do gabinete do deputado federal Jair Bolsonaro (PP) gerou reação de organizações sociais. O cartaz faria referência aos mortos na Guerrilha do Araguaia, durante o regime militar brasileiro. A charge satiriza a busca dos mortos e desaparecidos durante a Guerrilha com a imagem de um cachorro pensando em um pedaço de osso.

Para o chefe do gabinete de Jair Bolsonaro, Jorge Francisco, o cartaz não falta com o respeito nem aos mortos nem às famílias.

“O que o deputado entende é que tudo isso é um jogo de cena para aparecer na imprensa, já que hoje todo mundo se diz torturado pelo regime militar e não apresenta um arranhão, uma marca.”

Para a vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais, Victória Grabois, a atitude do deputado é inoportuna.

“Um absurdo ele dizer que se quer aparecer na mídia. A gente quer justiça, que o governo brasileiro abra os arquivos da marinha, exército e aeronáutica para informar os lugares e circunstâncias das mortes de todos os desaparecidos políticos no Brasil”.

Em documento, o Grupo Tortura Nunca Mais acredita que o deputado Jair Bolsonaro deveria ter o mandato cassado por falta de decoro parlamentar. O período de regime militar no Brasil durou 21 anos, terminando em 1985. Os arquivos da época ainda não foram divulgados.

Governo suspende projeto de hidrelétrica na região do Araguaia

do portal vermelho

O Ministério das Minas e Energia engavetou, pelo menos por enquanto, o projeto de construção da usina hidrelétrica de Santa Isabel, que seria construída no Rio Araguaia, entre Pará e Tocantins. A decisão foi comunicada por representantes da pasta e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) durante reunião da Câmara Técnica de Análise de Projetos (CTAP) do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH). A obra alagaria a área onde ocorreu a guerrilha do Araguaia, movimento de resistência à ditadura comandado pelo PCdoB na década de 1970. Os corpos de dezenas de guerrilheiros assassinados podem estar enterrados na região.

A informação sobre o cancelamento da construção foi repassada ao site Congresso em Foco por dois conselheiros, representantes dos movimentos sociais no CNRH. A discussão do tema, que preocupa especialmente os moradores das regiões afetadas pela construção da hidrelétrica, ocorreu na manhã de ontem (18). “Atendendo a um pedido da sociedade civil, o ministério e a Aneel decidiram engavetar o projeto”, afirmou João Clímaco, que representa o Fórum Nacional da Sociedade Civil nos Comitês de Bacias Hidrográficas (Fonasc) no conselho. Continue lendo

Perito identifica ossada de guerrilheiro – ARAGUAIA

do blog Estado, globalização

Folha de São Paulo

São Paulo, quarta-feira, 13 de maio de 2009

Corpo descoberto em 1996 tem as mesmas características de Bergson Gurjão Farias, morto pelo Exército no Araguaia em 1972

Será preciso fazer um novo exame de DNA nos restos mortais para tornar oficial o reconhecimento feito na perícia pedida pela Câmara

SERGIO TORRES
ENVIADO ESPECIAL A BRASÍLIA

Exumado há 13 anos em Xambioá (norte de Tocantins), o esqueleto batizado de X-2 pelo governo federal e por peritos que o examinaram apresenta características idênticas às do guerrilheiro Bergson Gurjão Farias, morto no Araguaia, cujo corpo jamais foi localizado.
Para tornar oficial o reconhecimento, é preciso fazer novo exame de DNA nos restos mortais em posse da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos da Presidência da República, recomenda perícia recém-concluída, encomendada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Autor do relatório, o perito Domingos Tocchetto, professor de criminalística da Escola Superior de Magistratura, lista no documento coincidências entre as conclusões dos exames nos ossos recolhidos em 1996 e as características físicas de Jorge (codinome de Farias), primeiro guerrilheiro morto na região do Araguaia (sudeste do Pará, norte de Tocantins, então Goiás, e sul do Maranhão).
Perito de casos famosos, como os assassinatos de PC Farias (1996) e da jornalista Sandra Gomide (2000), Tocchetto, 65, estudou o “Informe Antropológico Forense”, preparado por especialistas argentinos contratados pela Comissão de Mortos e Desaparecidos.
O relatório foi comparado com documentos relacionados a Jorge antes de aderir à guerrilha do Araguaia, no início dos anos 70, organizada pelo então clandestino PC do B. A documentação foi coletada pelo então presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Pompeo de Mattos (PDT-RS).
Em sua análise -documental apenas, pois não teve acesso aos ossos-, Tocchetto aponta evidências de que a ossada é de Jorge, líder estudantil na década de 60 no Ceará, morto em 2 de junho de 1972 por militares que combatiam a guerrilha.
Ao examinar o esqueleto, a perícia argentina encontrou fraturas ósseas antigas, outras ocorridas pouco antes da morte e até algumas após a morte.
Segundo os argentinos, chefiados pelo antropólogo Luis Fondebrider, da equipe que achou e identificou na Bolívia, em 1997, os restos mortais de Che Guevara, o crânio desenterrado no Araguaia tinha alteração na mastóide direita (osso atrás da orelha). Espancado em 1968 num protesto estudantil, Jorge lesionara a área, segundo relatos passados a Tocchetto.
O fêmur direito tinha fratura sofrida quase na hora da morte. Guerrilheiros que testemunharam a emboscada e soldados que viram o corpo contam que Farias teve as pernas metralhadas. Como antes de morrer ele baleara um oficial, após a morte teve o corpo espancado com violência e perfurado por baionetas, segundo testemunhas. Os peritos apontaram fraturas pós-morte na face, além da clavícula e do braço esquerdos.
A ossada tem as mesmas características de Farias -um homem branco, entre 25 e 33 anos, de 1,74 m a 1,85 m de altura. Os dentes do guerrilheiro tinham obturações antigas -10 tinham sinais de tratamento.
A secretária-executiva da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Vera Rotta, disse que dois exames de DNA feitos na ossada foram inconclusivos. Segundo ela, os ossos estão sob guarda do governo à espera de avanços que possam levar à identificação. Rotta diz que há mais seis ossadas em poder da comissão, não identificadas.
Dos desaparecidos no Araguaia, o único corpo identificado foi o de Maria Lúcia Petit, exumada em cova vizinha à do corpo que pode ser o de Jorge.