Amigos,
Meu amigo Jeosafá é um escritor, poeta, professor, cinegrafista, e blogueiro.
Hoje em seu blog Amplexos do JeosaFÀ tem uma matéria sobre seu novo livro que será lançado em São Paulo, dia 1º de dezembro na Livraria da Vila, na r. Fradique Coutinho, 915, a partir da 19,30h.
O tema é sobre a ausência da poesia na escola e consequentemente com a falta do hábitoda leitura de poesia. Ele nos brinda com um pouco do texto de seu livro, que segue abaixo.
” Vamos iniciar nossa jornada pelas terras arrasadas da poesia com uma pergunta: por que ela, ao menos no Brasil, ocupa espaços cada vez mais reduzidos nas estantes das livrarias? Essa pergunta simples e direta só pode ter uma resposta igualmente simples e direta: porque a poesia tem cada vez menos leitores, obviamente. A pergunta é descabida? Não. A resposta é descabelada? Igualmente não.
A pergunta parte de uma constatação tão óbvia que a mais ligeira passada de olhos pelas estantes de qualquer livraria do Brasil basta para confirmar. Quer ver? Então vamos lá: direto à livraria do seu bairro. Bem, é quase certo que seu bairro não tem uma única livraria sequer. Então, está bem, então direto ao centro comercial mais próximo. Porém é quase certo que uma livraria, livraria mesmo, não exista. Talvez uma papelaria que venda livros, eventualmente uma banca de jornal… Então vamos fazer o seguinte: direto ao shopping center mais próximo, ainda que ele fique longe do bairro e mesmo fora do município, ou direto a uma rodoviária ou aeroporto… Satisfeita a curiosidade?
Se não é fácil encontrar sequer uma livraria, que dizer então da situação da poesia, cuja situação, exposta pela pergunta logo acima, é tão desalentadora quanto verdadeira?
Por que tão pouca gente se interessa por ela? A coitada está num miserê tal que, se morresse, seu enterro seria exatamente igual ao daqueles pobres andarilhos que tombam exangues pelas ruas das grandes cidades ou pelas beiradas das rodovias deste país imenso: uma viatura, sem maiores alardes, para não chamar a atenção dos transeuntes, apanharia o corpo serenado e mal coberto pelos andrajos úmidos da noite, e o levaria para o lugar nenhum. Ninguém para olhar a cena. Ninguém para ficar com os olhos úmidos e um ponto de exclamação, ou de interrogação, espetado no alto da cabeça, a observar o carro sumir na distância, com sua carga frágil, na poeira ou no mormaço deformante do asfalto.
Exagero? Quantos livros de poemas você tem em sua biblioteca? Aliás, você tem uma biblioteca em sua casa? Ao menos umas poucas estantes de livros?
Sejam quais forem as respostas a essas inquietantes perguntas, a pertinência delas é já um problemão não acha? E essa pertinência se deve a outra constatação óbvia: as pessoas, no Brasil, cultivam exiguamente o hábito da leitura, do que decorre o pouco interesse em ajeitar os livros no espaço muitas vezes apertado da residência. Daí, esses incômodos objetos acabam sendo deslocados de um canto a outro até encontrarem uma caixa de papelão perfeita, no interior da qual serão depositados e esquecidos até criarem bolor e não prestarem para mais nada.
Então é melhor deixar as coisas do jeito que estão, senão podem piorar, não é mesmo? Não, não é. Assim como as histórias não morrem nos livros que mofaram por descuido, as pessoas podem ser mobilizadas para que atribuam valor ao que muitas vezes, por falta de alerta, de insistência ou de jeito, ficou latente, mas não extinto: o prazer de ler.
Então vamos recapitular: livros de poesia faltam nas livrarias porque faltam leitores para elas. Esses leitores são os mesmos que reservam pouco espaço em suas casas, e em suas vidas, para a leitura. Nesse caso, a carência de leitores de poesia só pode ser entendida como uma, no âmbito de um conjunto de carências ainda mais amplas.
Porém, o assunto aqui não é o das carências mais amplas. O assunto aqui é o da carência talvez mais aguda da literatura. Há a penúria do teatro… Mas a penúria do teatro não é nada perto da penúria da poesia. Não é preciso nem estabelecer concorrência entre os dois para saber quem é mais pobre, mais sem posses, mais jogado à beira do caminho. Então, não vamos perder tempo com comparações equívocas entres irmãos deserdados, um a dormir sob pontes e outro a dormir sob marquises de prédios arruinados.
O conto e a crônica, quem não sabe que as editoras publicam muitíssimo mais do que a poesia? O romance então… esse é barão, perto dos outros, muito embora seja assassinado todos os dias nas escolas do país por “leituras” obrigatórias que, a pretexto de educar por meio de provas atávicas e de trabalhos desprovidos de bom senso, só não causam mais danos ao prazer de ler porque simplesmente o extinguem no nascedouro – o coração do estudante.
Mas uma coisa tem de se admitir: não há uma única pessoa no país que não fique com pena da situação da coitada poesia.
A situação da poesia é mesmo de comover um coração de pedra, de congelar o sangue nas veias, de arrasar nervos de aço e outras metáforas e hipérboles descabeladas mais.
E se Júlio Verne achou ter feito uma alegoria definitiva da situação da poesia, em seu Paris no Século XX, ao enviar seu personagem-poeta ao final do romance a um passeio desolador no cemitério, é porque sequer imaginou os efeitos que poderia ter extraído do romance caso situasse suas lúgubres previsões no Brasil de inícios do século XXI.
Com o que disse até aqui com a necessária dose de exagero de linguagem, espero ter convencido essa decisiva pessoa chamada “você” da necessidade de irmos todos para o front em defesa das barricadas da poesia. Então, como bárbaros, como um exército de brancaleones, vamos tomar de assalto as estantes de livrarias e bibliotecas, empurrando para fora de nossas fronteiras os livros de outros gêneros. Não se pode ter piedade neste momento
Livros de auto-ajuda, vocês têm suas razões ou desrazões de ser, mas, com o perdão do mau jeito, cheguem para lá; livros de culinária, vocês são deliciosos, mas as hordas da poesia vão invadir estas prateleiras: se mandem para o andar debaixo ou de cima; obras de economia-política, de física nuclear, de vida e obra de grandes artistas do cinema, vocês são totalmente demais, porém: batam em retirada, que os volumes de Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Cecília Meireles, Florbela Espanca, Haroldo de Campos, Leminski e novos poetas, entre outros, enlouqueceram e, como vikings, partem em desabalada correria para retomar o espaço perdido.
Como já disseram outros, noutros termos, a propósito de outras causas consideradas justas, queimando atrás de si as pontes de retirada, lancemos nosso grito de guerra: Avante, companheiros:
Hasta la victoria siempre!”




1 resposta Até agora ↓
morani // 10/11/2009 às 5:05 pm
Não é coincidência; é uma afirmação feita por mim em uma mensagem enviada a um blogueiro na Suiça, recentemente: o brasileiro tem ojeriza por livros. Romances ainda se lêm (?) alguns; crônicas, idem. À Poesia, Palavra dos Deuses aos Homens, se cultiva indiferença. Essa é mesmo dificil ser encontrada em prateleiras de livrarias e de bibliotecas particulares. Todavia, enquanto houver os amantes dos versos, brancos ou não, rimados ou sem rimas, não poderemos baixar nossa guarda. Ainda há esperança de se ver o Sol subir no Horizonte poético. Em minha humilde biblioteca de pouco mais de trezentos livros não falta os de Poesia. As poesias de Augusto F. Schmidt, Cassiano Ricardo, Carlos D. de Andrade, Ledo Ivo, Cecília Meireles, Vinicius de Moraes, Camões, e outros menos conhecidos, estão com as lombadas expostas aos que adentram minha casa em meio a uma infinidade de romances, contos, crônicas e sobre política, além dos sobre os conflitos armados do século e os sobre auto-biografias. Não me faltam os sobre artes, pintores e pintura, pois sou artista plástico diletante. Ânimo, pois, caro Poeta e Mensageiro dos Deuses, que também faço Poesia desde minha mocidade. Respiro Poesia, porque a própria Vida é uma obra Divina.